Low carb, high fat?

Já faz algum tempo que venho namorando a ideia de mudar um pouco de dieta – e a quantidade de informação, dados e pesquisas sobre LCHF (low carb, high fat, ou pouco carboidrato e muita gordura)que tem bombardeado a mídia mais “especializada”, por assim dizer, quase que diariamente.

Comecei a ler mais e mais e mais. A série de artigos do Balu, citando muitas pesquisas que consideram o LCHF como um caminho interessante (fiz um post aqui sobre o assunto) e, em seguida, o blog do Dr. Souto, acabaram me empurrando mais e mais para o caminho.

Isto posto, há ainda a consideração de que meu organismo é um pouco diferente do normal: metade do meu fígado ficou em uma mesa cirúrgica há alguns anos, quando eu era gordo e sedentário, o que já me traz algumas limitações importantes. Ainda assim, pelo que li em pesquisas de alguns dos mais renomados veículos do mundo, dietas LCHF acabam ajudando a combater a gordura no fígado, condição mais crítica para mim.

Coloquei tudo na balança e decidi testar esse approach um pouco mais. Sei que estou na beira de duas ultras e mudanças na dieta não são exatamente aconselhadas… mas, às vezes, é preciso simplesmente se entregar a um estilo Nike (“just do it”) e pronto.

Resumo da ópera: desde o começo da semana comecei a trocar, mesmo que sem radicalismos, muito do que ingeria de carboidratos por gordura. Tirei grãos de uma maneira geral, diminuí bastante o consumo de pães e troquei ingredientes light por integrais ou normais.

Tive apenas alguma dor de cabeça no segundo dia, o que já passou. Para garantir que nenhum mal seja feito, já vou aproveitar e colher um mundo de exames para ter uma noção clara de como estão os meus indicadores e poder fazer uma espécie de comparativo “antes e depois”.

Bom… agora é acompanhar.

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Sobre nutrição, corridas e o post do Balu

No dia 10 de fevereiro, o Danilo Balu fez um post pra lá de polêmico no seu blog Recorrido sobre nutrição. O título, para ser mais exato, foi “Dica de corrida do dia: jamais vá a um nutricionista!“. Os argumentos do Balu, que não cabe aqui replicar (una vez que basta clicar no link para ver na íntegra), eram agressivos – mas absolutamente coerentes.

O resultado foi um boom de críticas e ataques pessoas, incluindo até mesmo ameaça de processo por conselhos de nutrição. Curiosamente, apenas um ou dois dos quase 800 comentários realmente contestaram, com base em argumentos técnicos, o ponto do Balu. E os que se deram ao trabalho de contestar, ao menos sob os meus leigos olhos, foram mal sucedidos.

Pois bem: depois de apanhar por muito tempo, o Balu escreveu uma série de dez artigos absolutamente embasados, citando pesquisas que iam do século XIX até os dias de hoje. Quem quiser ler – e eu recomendo bastante – acesse os links abaixo:

Sobre nutrição e falácias – parte 1

Sobre nutrição e falácias – parte 2

Sobre nutrição e falácias – parte 3

Sobre nutrição e falácias – parte 4

Sobre nutrição e falácias – parte 5

Sobre nutrição e falácias – parte 6

Sobre nutrição e falácias – parte 7

Sobre nutrição e falácias – parte 8

Sobre nutrição e falácias – parte 9

Sobre nutrição e falácias – parte 10

Para coroar a discussão, o Corrida no Ar fez um episódio dedicado ao assunto, que posto aqui no blog, logo ao final do post.

Não sou especialista no assunto, mas devo concordar que a nutrição esportiva tradicional dificilmente se aplica a ultramaratonistas. Meus pontos, muito mais empíricos (mas, ainda assim, concretos), são:

  • Comer de 3 em 3 horas, como a imensa maioria prega, dificilmente conseguirá preparar o organismo para enfrentar 10, 15, 24 horas nas trilhas. Tudo na vida é treinamento – e isso inclui fazer o corpo aprender a otimizar as suas próprias reservas antes de entrar em colapso.
  • Exercício físico realmente não é sinônimo de emagrecimento. Sim, maratonistas profissionais são esqueléticos – mas isso é também fruto de uma genética diferenciada e de uma nutrição absolutamente regrada e personalizada. Em ultras, é extremamente comum encontrar corredores muito, muito acima do peso. Gordos mesmo. O motivo? Possivelmente o hábito de saciar a fome bíblica comendo tudo o que encontrar pela frente, sem culpa, depois de passar horas nas ruas.
  • Dietas sempre balanceadas são ideais? Não sei. Confesso que como de tudo: carnes, legumes, frutas etc. – e que tenho preferido refeições mais leves. Evito suplementos alimentares a todo custo: há algo sobre tomar colheradas de pó que vem em embalagens com fotos de pessoas deformadamente musculosas que definitivamente não soa bem. Mas o que dizer sobre as dietas paleo, sobre low-carb/ high-fat do Tim Noakes, sobre a dieta 100% de frutas do Michael Arnstein ou sobre os tantos veganos, como o lendário Scott Jurek? Todos tem receitas absolutamente exóticas sob a ótica da nutrição tradicional – e todos, sem exceção, creditam os seus ganhos em performance primariamente às escolhas alimentares. Se tanta coisa oposta funciona bem para tanta gente, então possivelmente a nutrição esportiva é mesmo algo muito, muito distante da receita de bolo comumente utilizada e pregada nos consultórios.

De toda forma, é uma discussão que deveria ser incentivada pelos conselhos e órgãos que reúnem nutricionistas: só o debate leva a melhorias. O que se viu (e o que ainda se pode ver) nos comentários do primeiro post do Balu foi justamente o oposto: uma caça às bruxas ridícula, baixa e muito mais compatível com fanáticos religiosos condenando à fogueira qualquer um que conteste a fé do que a cientistas que, por definição, deveriam ter ceticismo impregnado no DNA.

Que pena. Quem perde com essa postura é a comunidade de corredores.