Derrotado por uma esquina

Verdade seja dita, já acordei questionando se sairia ou não naquelas ainda escuras 6 horas da manhã. Estava cansado de um dia cheio, com algumas leves mas persistentes dores na musculatura pelo treino puxado de ontem e, sobretudo, com preguiça. Muita preguiça.

Mas aí vieram os planos de corridas futuras, a visão da necessidade de treinamento e até os últimos capítulos do audiobook que ouço durante o percurso. Finalmente, com meia dúzia de palavrões, levantei, me vesti e saí.

O céu ainda estava seco, a rua convidativa e a voz do narrador já ecoava pelos ouvidos, levando a mente para terras distantes. Saí.

Fui seguindo meu caminho tradicional, que deveria ser mais leve hoje, sem muita mudança no humor e me autoelogiando por ter conseguido trocar a cama pela rua. Estava bem, fluindo calmo, quase flutuando pelo asfalto sendo levado pelos dramáticos momentos-chave da história cuspida pelos fones quando, de repente, um semáforo teimoso cismou em ficar vermelho na esquina da 9 de julho. Parei.

Ao parar, a musculatura que estava levemente dolorida reclamou mais.

A preguiça escalou todo o corpo, do tornozelo aos ombros, como se fosse um lodo grudento me prendendo no lugar.

Os olhos pediram para descansar.

O clímax da história se foi, perdendo-se em alguma monotonia desavisada.

O céu começou a lançar raios de chuva fortes, espessos, raivosos.

Olhei para a minha frente: ainda tinha metade do caminho. Voltei.

Fiz o percurso de volta quase que fugindo da chuva, me prendendo ao caminho mais curto, desviando poças e torcendo para que quilômetros virassem metros. Não sei bem o que aconteceu mas, de repente, foi como se um sonho tivesse se transformado em pesadelo, como se fugir para a segurança da minha casa fosse mais importante do que qualquer coisa, racional ou não. A cada passo, as dores pareciam ganhar mais terreno e a chuva ficava mais espessa. A cada passo, temia que a distância me pregasse uma peça e crescesse sem aviso. A cada passo, a preguiça parecia dominar mais o meu corpo e os meus movimentos.

Até que cheguei.

Quase assustado, atravessei o portão da garagem e subi de volta ao apartamento. Estava exausto.

O apartamento, no entanto, estava idêntico: todos ainda dormiam, as luzes ainda estavam apagadas e o único som era o do relógio de ponteiro da cozinha marcando o ritmo como que para deixar claro que o universo estava em sua mais perfeita ordem. Até a chuva lá fora parecia ter dado uma trégua, se transformando em uma levíssima, quase imperceptível, garoa.

Na verdade, a única coisa diferente no cenário inteiro era eu, que ali estava quando deveria estar dando voltas no parque. Desencaixado, me deixei levar pelo restante de dor e cansaço, pelas pálpebras pesadas, pelos suspiros daquela tristeza leve trazida pela desistência, e desabei de volta na rotina que começaria nas próximas horas.

Manhã estranha essa em que uma esquina me derrotou de maneira tão avassaladora, decisiva.

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Uma trilha súbita

Dizem que, quando começamos a nos interessar por algo, os olhos ganham uma espécie de agudeza quase sobrenatural para localizar o que a mente mais deseja.

Faz sentido: os olhos, afinal, são grudados à imaginação e tem por objetivo nos guiar pelas manifestações físicas do que ela concebe em seu estado quase onírico de liberdade constante.

Correr em trilhas é um exemplo perfeito disso.

Quando sequer se sabe da existência desse esporte, trilhas parecem coisas distantes e exóticas, encontradas apenas em filmes de aventura ou fotos de revistas. A vida, afinal, acontece na cidade.

No entanto, basta despertar o interesse que descobrimos que mesmo os centros mais urbanos tem um pouco de selvageria escondida. É só saber procurar.

Foi o que fiz hoje cedo, quando acordei antes dos primeiros raios do sol aqui em Joinville, Santa Catarina.

Vim a trabalho ontem e acabei dormindo na cidade, o que sempre é uma boa oportunidade para explorar um pouco o desconhecido. Das últimas vezes que estive aqui acabei percorrendo circuitos tradicionais: a Beira Rio, a volta do Batalhão etc. Tudo tediosamente pacato, organizado e tão simples quanto uma esteira.

Hoje teria quase 2 horas para mim – tempo de sobra para sair do lugar comum.

A primeira coisa que fiz foi olhar o Google Maps: lá, no final da XV de Novembro, parecia haver um morro; havia um ponto no meio dele – possivelmente um mirante ou uma torre de TV; e o caminho certamente não era asfaltado, ao menos não no todo. Perfeito.

Ainda antes do sol nascer, em uma manhã sufocada por núvens e uma permanente ameaça de garoa, parti quebrando o silêncio com as passadas.

Levei o tempo necessário para aquecer: estava cedo e não adiantaria muito entrar na montanha com tudo escuro. Fui leve, passeando pela cidade adormecida e cruzando ruas vazias como se o tempo estivesse pausado.

Até me deparar com o morro.

De início, havia uma rua íngreme, com paralelepípedos se perdendo em meio a um matagal fechado e úmido.

Subi alternando trotes com caminhada. Faz algum tempo que caminhar deixou de ser palavrão para mim: normalmente, o ato em si significa que estou em alguma trilha, ladeira ou ambiente que precisa ser degustado sem pressa. Pace perde relevância nesse esporte.

De repente, a rua se fundiu com uma estradinha de terra. Continuei.

A estradinha cedeu lugar a uma trilha pequena, meio sinuosa e em subida constante. Segui.

Não dava para dizer que a vista estava incrível: quanto mais eu subia, mais espessa ficava a neblina. Em um ponto, a visibilidade não passava de 2 ou 3 metros.

Ao redor de mim só sons de pássaros, folhas se batendo contra o vento e cheiros do verde molhado. Estava já claro e a umidade abafada formava um clima absolutamente tropical.

A cidade já começava a despertar a apenas 20 ou 30 minutos de mim – mas parecia que eu estava no meio de uma floresta perdida no mapa.

Era um outro mundo, exatamente o tipo de escape que eu buscava para exercer a solidão.

Em um dado momento cheguei ao cume: um fim de linha sem vista ou beleza excepcional, marcado pelo que de fato era uma torre de TV.

Tudo bem: a missão do dia estava cumprida e o tênis, enlameado e quase irreconhecível, parecia feliz.

Voltei voando morro abaixo, parando apenas para tirar algumas fotos e tomando o rumo do hotel.

Entrei novamente na civilização, que agora já continha alguns carros e pessoas dando movimento ao cenário, e cruzei por ruas e avenidas.

A vida havia retornado à sua normalidade urbana. Estava de volta à realidade, exalando um intenso agradecimento tanto à mente, por ter demandado esse escape, quanto aos olhos, por ter achado o caminho.

Ter conseguido fugir do asfalto e me ver em meio a uma “súbita floresta”, mesmo que por um punhado de minutos, foi como ter um instante surrealista traçado com as pálpebras abertas.

O que mais se pode esperar das trilhas?

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