Acaba, semana!

Faltam mais 2 dias. 

Ou 1, considerando que amanhã à tarde zarpo para São Bento do Sapucaí. 

Não é a ansiedade da prova que está me comendo hoje – é o cansaço do trabalho. É esse exaustivo ritmo de Brasil em crise, com ânimos exaltados e ações em permanente estado de alerta, de expectativa e de surpresa. Trilhar a selva paulista tem sido uma tarefa muita mais técnica do que qualquer trilha da Indomit. 

Ainda assim, hoje é quinta. 

É dia em que o horizonte do descanso está mais próximo, mais visível. 

Preciso recarregar as baterias trocando cabeça por pernas lá na Serra da Mantiqueira. 

  

Vida de soldado

A adrenalina de um dia de pico na selva publicitária de São Paulo, onde vivo, fica um tempo percorrendo artérias e veias. Impede que se relaxe, impõe ao instinto de sobrevivência uma capacidade de concentração multitarefa, exige onipresença e, aos poucos, mói os sentidos.

Não vou dizer que não goste desse estilo de vida: trilhar os meandros de um mercado tenso e ultracompetitivo é um desafio cotidiano perfeito para qualquer um que sinta prazer, por exemplo, correndo ultras.

Mas, assim como em ultras, há momentos em que picos se alternam com vales, em que a adrenalina de se ter conseguido vencer algum obstáculo inesperado com um golpe de pensamento e uma supersincronizada agilidade tática cede ao cansaço.

Depois de nem sei quantas horas coordenando uma verdadeira guerra em fronts paralelos, cheguei em casa depois de todos terem dormido.

Comi em silêncio, acalmando a memória recente. Não me preparei para o dia de hoje – era tempo de encerrar o ontem. Apenas.

Troquei de roupa.

Deitei cuidadosamente, mais silencioso que o tédio.

De imediato, fiquei imóvel esperando o sono que não queria vir. 

Acabou vindo.

Aos poucos.

Mas de forma decisiva.

Pelo menos até o próximo soar do despertador, às 5:15 da manhã – apenas poucas horas depois das pálpebras terem fechado.

Sem problemas: era hora da corrida. 

E há melhor maneira de se preparar para qualquer coisa do que acordar antes mesmo do sol, quando toda a cidade ainda dorme, e testemunhar, sob suor e passadas, uma cena dessas?

  
Decididamente não.

Poucas coisas nos preparam melhor para uma batalha do que uma boa dose de suor e endorfina antes dos primeiros tiros. 

Que venha o dia.

Longos nem sempre são longos

Havia compromisso hoje cedo: o longão teria que ficar para depois das 10. 

Sem problemas: já saí pronto e equipado para o que deveria ser mais um dos percursos de desbravamento da selva urbana, iniciando pelo centro e cruzando Memorial da América Latina, passando pela casa do Mário de Andrade, subindo e descendo ladeiras de Perdizes. 

Em um dia de sol a pino e com um calor daqueles que amo, poucos prospectos seriam melhores. 

Só que algo estava errado. 

O primeiro sinal veio pelo ouvido: o fone que usava quebrou de vez, me impedindo de ouvir as instruções de rota sussurradas pelo Google Maps. O percurso teria que mudar, saindo do centro e indo para algum lugar com o qual estaria mais familiarizado. 

Sem problemas. Joguei fora o fone e segui. 

Olhei o Garmin como faço instintivamente, já sem perceber. Segundo sinal: ele estava travado, reiniciando. O mundo digital estava sendo claro comigo: eu estava perdido, ao menos “espiritualmente”. 

Respirei fundo e notei que um cansaço extremo subia pelo corpo: pernas doíam, joelho direito simulava uma pontada, pálpebras pareciam ter sono. 

Me lembrei da semana anterior, onde acumulei talvez mais do que deveria de quilômetros sobre dunas. Olhei para cima: o sol, que sempre me inspirou excelentes corridas por mais ardido que estivesse, parecia severo, quase malvado. 

Olhei para trás: havia praticamente acabado de começar. 

Olhei para a frente: o mais sensato seria seguir uma reta até em casa e dar o dia por encerrado. 

Foi o que fiz. 

O menor longão da história acabou com pouco mais de 3km em 18 minutos. 

Hoje, o corpo queria descanso – e ignorá-lo realmente não parecia boa ideia.