Uma seita

Reunidas em um ginásio, algumas centenas de pessoas devidamente trajadas de ultramaratonistas – com barbas meticulosamente longas ou propositalmente mal feitas, camisas exibindo logos e palavras de ordem, tatuagens espalhadas pelo corpo e olhares de fundo infinito – começavam a tarefa de reconhecimento. 

Saudações de quem não se via há algum tempo rapidamente se metamorfoseavam em pequenas histórias, lendas de trilhas e asfalto que corriam de boca em boca, gerando uma mescla de risos com exclamações. Alguns caminhavam até o mapa gigante do percurso que, dividido em duas distâncias – 217 e 260km – praticamente gritava dificuldade. Olhavam, pensavam, faziam contas mentais e, com alguma respeitosa soberba, voltavam aos seus lugares. 

Hora do anúncio. Alguém teve a ideia de pedir para que todos os veteranos da BR135+ subissem ao palco e se apresentassem. Não digo que foi uma boa ideia: o congresso técnico acabou se estendendo por valiosas horas. Por outro lado, deixou uma coisa clara a novatos ou observadores: por estranho que pareça, a BR é uma corrida de veteranos. 

Mesmo os que estreiam no percurso o fazem, em sua maioria, depois de ter apoiado algum outro atleta como pacer. Todos parecem conhecer bem o desafio. Todos parecem se conhecer, se reconhecer, e entender. Os olhares já transmitem algum tipo de cumplicidade que quase inexiste em outras provas. 

É uma seita. 

Uma seita que tem como Deus supremo algo amorfo, inexplicável, intangível: a energia da endorfina coletiva gerada ao longo da travessia da Serra da Mantiqueira. É a essa energia que todos parecem saudar, de alguma forma meio zen; é ela que une e reune corredores, que salta da boca de veteranos ou do comandante que dirige a prova, que transforma os olhares de expectativa em orgulho. 

Aparentemente, é esse Deus que será saudado amanhã, às 8, na linha de largada, em São João da Boa Vista. 

E foi ele que já se mostrou enfaticamente presente nessa primeira reunião de súditos. 

  

A pressa e o pace

Quer treinar em uma intensidade maior? Você não precisa de relógio ou qualquer app de live coaching: basta estar atrasado.

Exemplo prático: encaixe 11km no horário de almoço entre reuniões. Você não conseguirá sair com tempo de sobra: reuniões tem um ritmo próprio que, sadicamente, tende a se arrastar quanto mais cedo você quiser ou precisar sair.

Também não poderá voltar tão cedo para a próxima: 11km, afinal, são 11km. Dá menos que uma hora se for rápido (ao menos sob meus parâmetros), mas ainda assim sob pressão considerando que será necessário ainda tomar um banho para voltar “bem” ao trabalho.

Resultado: o pace será instintivamente acelerado pela pressa. Não será a corrida mais zen do mundo: a pressão do tempo o fará querer engolir – e não saborear – os quilômetros. Mas, ao mesmo tempo, será um belo treino, com toda a intensidade que uma manhã com tempo de sobra não consegue entregar.

A pressa pode não ter aquele sabor deliciosamente endorfinado que buscamos nas trilhas – mas ela certamente é muito amiga do pace.

  

Reunião comigo mesmo na Sala Zero (a rua)

Terça-feira, 7 da manhã.

Agosto começou preocupado, com aquela estática no ar que emula a mais nítida tensão do cotidiano. Sem Copa, o mundo finalmente começa a voltar ao seu ritmo cotidiano, muito embora os quase dois meses perdidos tenham feito um belo grau de estrago.

O final de julho e o começo de agosto estão sendo devotados, quase que na íntegra, a arrumar a casa. Otimizar processos, equipe, planos, projetos e tudo mais que desenha o dia a dia de uma empresa. E o que isso tem a ver com corrida?

Tudo.

Pelo menos para mim, tomar decisões que gerem qualquer tipo de reorganização do presente tem uma dependência quase natural da corrida.

O despertador de ontem já foi setado com isso em mente – uma espécie de reunião comigo mesmo na sala de número zero (a rua).

Saí com os mesmos Merrell TrailGloves que detonaram meus pés há algumas semanas (mas que agora estão perfeitamente adaptados) e rumei para o Ibira. Garoa fina, frio, muitas buzinas e nuvens negras do lado de fora.

Do lado de dentro, na mente, silêncio. Estava isolado do mundo, pensando, enumerando os problemas e bolando soluções. Invocando calma e afastando preocupações vazias. Antes de morrer, Churchill disse que sua vida havia sido “marcada por gigantescos problemas – a maioria dos quais nunca chegou de fato a acontecer.”

Isso virou meu mantra. Assim como a experiência de correr Comrades, com 90 km de passos calmos, planejados, mantendo sempre o ritmo e com a confiança de que o final chegará mais cedo ou mais tarde.

Experiências assim são fundamentais em tempos de turbulência. Ainda bem que elas existem.

Aliás, correr ultras traz um tipo de benefício que vai muito além da saúde física: nos ensina a manter o curso firme, fixo, em um tipo de sintonia entre mente e corpo que dificilmente se encontra em esportes que não sejam de puro endurance. Nos ensina a respeitar subidas e descidas, usando a sempre inevitável gravidade a favor de cada decisão tomada. Nos ensina a respeitar o tempo ao invés de atacá-lo. É o melhor de todos os MBAs.

Ao final, depois da subida da Ministro, estava quase aliviado. Não consegui resolver todas as questões, mas algumas.

O suficiente para levar bem o dia e ainda ter no que trabalhar durante a corrida de amanhã.

O suficiente para enxergar melhor.

Agora, portanto, está na hora de colocar em prática os raciocínios desenhados nos últimos 12km.

20140805-094104-34864404.jpg