Um passo depois do outro

Com a rotina devidamente encaixada na semana, era hora de reinserir os longões de sábado em faixas de distância maiores.

E qual o percurso ideal para um recomeço? A USP, claro, com suas hordas de corredores emanando um incentivo inconsciente, com seus percursos verdes, com sua pequena trilhinha e uma subida deliciosa para apimentar o ritmo.

Contando o caminho até lá, a volta, a trilha perto da subida do matão, a subida em si, a descida em franca velocidade até a base e o retorno para casa via Cidade Jardim, foram pouco mais de 26km.

Foi também a primeira vez que bati uma meia desde o retorno do Cruce – e o corpo sentiu. 

Não que tenha sido nada dramático, claro. Apenas o óbvio: correr por 2h30 depois de tanto tempo se esguelando para chegar em 10 ou 11 dói. Simples.

Ainda assim, foi apenas uma dorzinha esperada, natural, longe de uma quebra. Uma sinalização de que nosso esporte requer um tipo próprio de persistência no treino, uma elevação gradativa de volume, um respeito aos limites cujos contornos aprendemos a conhecer muito, muito bem.

Estou como que emulando a principal regra das ultras: dando um passo de cada vez, seguindo sempre em frente, persistindo na rota. 

E nada melhor do que a boa e velha USP para puxar melhor esses passos.

Amanhã tem mais.

  

Sobre dores e medos

OK, hoje já era para eu fazer um trote leve de uma hora pelo parque. 

Afinal, é quarta, terceiro dia depois da ultra em Atibaia e período no qual, normalmente, o corpo já está inteiramente recuperado. Foi assim com Comrades, afinal… 

Só que a realidade está diferente. Bem diferente. 

A sola do pé direito ainda dói, as coxas cismam em dar pontadas e as pernas meio que falham de leve no simples ato de caminhar do ponto a ao ponto b. 

Há um nome para essa dor: altimetria. 

Os 90km de Comrades, afinal, não chegam nem perto do tanto de subida técnica que enfrentei nos últimos quilômetros do domingo, terminando a prova no topo da Pedra Grande. 

E olhe que até subi bem. Subir em trilhas técnicas é algo que faço com relativa tranquilidade – bem mais, pelo menos, que descer, quando uma onda desnecessária e meio constrangedora de medo de cair parece dominar cada um dos meus instintos. 

O instante em que tive que descer um trecho do percurso de volta, quando me perdi, para apenas depois prosseguir com a escalada, foi algo próximo do vergonhoso.

Mas vamos por partes. 

Primeiro, dando mais tempo ao corpo para que ele se cure e sem forçar nada: a última coisa que quero é algum tipo de lesão. 

E, segundo, dando algum jeito de treinar melhor as descidas. 

Como, ainda não sei. Os parques de São Paulo não são exatamente terrenos técnicos. Mas algum jeito há de ser dado. 

  

Recomeçando

Tempo, dizem, é um santo remédio.

Estou terminando esta temporada com um nível de cansaço tão grande que cheguei a me questionar se estava mesmo a fim de sequer pensar em fazer outra ultra ou mesmo maratona.

Acordar cedo passou a ser difícil, correr virou um suplício, dores musculares vinham com uma facilidade incompreensível. Pelo que sorvi da Web, há um sem número de nomes para esses sintomas. Todos, no entanto, se traduziram em apenas um na minha cabeça: cansaço.

E há apenas um remédio eficaz para o cansaço: descansar.

Passei as últimas duas semanas em ritmo leve, sem olhar para a planilha ou mesmo falar com o meu técnico. Corri com bem menos frequência e apenas nos finais de tarde, iluminados pelo horário de verão.

Ignorei o conceito de uma planilha.

Procurei não treinar nada. Apenas me manter minimamente ativo.

Sem provas no horizonte, a pressão foi inexistente – assim como qualquer tipo de ansiedade por digerir quilômetros e ladeiras.

Em paralelo, me debrucei sobre a Web e comecei a explorar novos roteiros, alimentando a alma com pura motivação. Foi onde surgiu o Plano Estrada Real, que está ficando mais concreto a cada dia que passa.

Nessa toada, o tempo foi ficando para trás assim como a exaustão que, aos poucos, acabou cedendo.

Hoje, sexta, não dá para dizer que estou novo e pronto para encarar as trilhas com sangue nos olhos.

Ainda estou no gerúndio.

O remédio do tempo, no entanto, parece estar funcionando.

No caminho para o aeroporto ontem, às cinco da manhã, vi alguns poucos corredores amanhecendo com o sol e trotando aos passos de seus pensamentos.

Surpreendentemente, deu saudade.

E inveja.

Bom sinal: talvez já seja mesmo hora de pensar no recomeço.

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