Ultra é mais espírito do que esporte

Na semana passada, vi uma foto de um amigo meu no Facebook comemorando uma travessia aquática.

Dei os meus entusiasmados parabéns e ele comentou comigo que estava treinando para a travessia Mar Grande-Salvador. Me entusiasmei.

Explico melhor: a travessia marítima Salvador-Mar Grande é o que há de mais antigo em minha memória sobre endurance. Trata-se de atravessar 13km da Baía de Todos os Santos, saindo de um ponto da Ilha de Itaparica e chegando em outro na capital baiana.

Quando criança, considerava todos os nadadores como heróis e loucos – ou loucos e heróis, para colocar na ordem correta.

O tempo, no entanto, foi me afastando da prova. Me mudei para São Paulo.

Comecei a correr.

Me apaixonei pelas ruas e trilhas e me entreguei por completo a esse esporte.

Até essa bendita foto no Facebook.

Em um intervalo de segundos, anos de infância apareceram como um susto entusiasmado que, somados à experiência em provas longas, desenharam um gosto de viabilidade que nunca tive antes.

Ainda estou cozinhando esse sonho – mas já o considero como uma das minhas metas futuras, embora tenha mais a ver com ultra do que com maratona.

Mas, do ponto de vista espiritual, há mesmo tanta diferença entre atravessar uma montanha ou uma baía? Em todos os casos, são horas revirando a própria alma e puxando energia do peito para se encontrar, se abraçar, se entender. Muda-se apenas o elemento, a solidez do solo, a escolha dos membros.

Mas, fora isso, é a mesma coisa: uma meta de autosuperação.

Ultra é mais espírito do que esporte.

margrande

 

 

Usando a água como remédio

Uma das coisas que acabamos procurando em períodos mais intensos de treino, quase que de forma involuntária, é receita para diminuir as dores musculares. 

Nunca fui muito de tomar remédios ou mesmo suplementos alimentares: meus hábitos são, em geral extremamente naturais. Mas as circunstâncias acabaram adicionando ao rol de viabilidades uma piscina aquecida de 25m. 

E, assim, meio sem querer, acabei dando um mergulho em um dia qualquer. Dei umas braçadas aqui, outras ali – todas relembrando os tempos em que eu passava meus finais de tarde nadando no Porto da Barra, em Salvador, e me jogando na cara que estava absolutamente fora de forma enquanto peixe. 

Tudo bem: natação não é meu esporte. Aquilo era só uma bem vinda brincadeira. 

Era? 

De repente, sair da piscina foi como ter tomado um analgésico ultra poderoso. 

Aí, como que querendo repetir o efeito, comecei a acrescentar a piscina como rotina pós treino. 

Como da primeira vez, funcionou. Assim como da segunda, da terceira, da quarta. 

Em paralelo, tenho melhorado também a resistência dentro da água, ainda como que por força crescente de um hábito que está sendo desenhado apenas para amenizar as dores. Belo efeito colateral. 

Além disso, fazer umas braçadas depois de um dia intenso relaxa corpo, mente e alma como poucas coisas na vida!