Filme: Gary Robbins dominando a Wonderland Trail

150km, com direito a 7.300 metros de ascensão, em menos de 20h53m. O que foi isso? A tentativa de Gary Robbins de bater um recorde considerado como imbatível em torno da montanha Rainier pela Wonderland Trail.

Como toda ultra, seja uma corrida ou um FKT, é absolutamente inspiracional e define muito sobre esse esporte. Vale conferir no filme feito pelo Ginger Runner:

Nos calcanhares dos Templários

Eu amo história. 

Metade do tempo que passo correndo – pelo menos – fico com fones entuchados no ouvido ecoando audiolivros de história. Das eras medievais às navegações, dos incas aos maias, de Gengis Khan a Maomé, do ocidente ao oriente, tudo que inclua a linha de tempo da humanidade me interessa. 

Não foi por outro motivo que comecei a organizar a Ultra Estrada Real, refazendo o caminho dos primeiros mineiros e escravos na nossa era colonial. Sim: trilhas em lugares inesquecíveis, como os Andes ou os alpes, sempre serão únicas. Mas e se der para unir uma coisa a outra? 

Eis o Festival des Templiers, lá no interior da França. O objetivo: percorrer quilômetros e mais quilômetros de “estradas” utilizadas pelos Templários enquanto estes protegiam os cristãos em suas peregrinações até Jerusalém, lá na era das Cruzadas. Isso inclui passar por castelos antigos e abandonados, cidades fantasmas, cavernas que serviam de esconderijo e solos por onde se derramou muito, muito sangue medieval. 

O conjunto de ultra – que eles chamam de Festival – está na minha lista de desejos faz tempo e recentemente me deparei com a altimetria da prova de 75km. Perfeita. 

Não está nos planos de curto prazo agora… mas ansiedade e endorfina já viraram uma coisa só apenas de sonhar com essa prova. 

Quem quiser saber mais, clique aqui.

   
 

‘Finding Traction’ disponível online

Faz tempo – muito tempo – que eu quero ver o filme ‘Finding Traction’, com a corredora Nikki Kimball. Em linhas gerais, é um documentário que narra a jornada dela pelos 440km das Green Mountains, nos EUA.

Claro: tudo o que costuma acontecer em uma ultra – mesmo as “pequenininhas” – aparece de maneira concentrada aqui. Inspirador.

E agora disponível no Youtube.

Para quem quiser ver, é só apertar o ‘play’ abaixo.

Diverta-se:

Correr não é sofrer

Para quê?” costuma ser a primeira frase que qualquer corredor – principalmente quem curte ultras – ouve de não corredores. O raciocínio que a embasa é simples: “correr é sofrer”. Ou seja: se para manter um estilo de vida saudável a la comercial de margarina basta fazer uns 5km de vez em quando, para quê sair por horas a fio, cruzando a cidade e atravessando montanhas? 

Uma coisa posso afirmar: certamente não é por saúde. Correr ultras pode ser tudo, afinal – menos saudável. Claro: continua sendo melhor do que viver em um regime de engorda a base de feijoada e pão – mas isso não significa que seja um estilo de vida “cientificamente eficaz”, por assim dizer. 

Em ultras se maltrata as articulações, se exagera no uso dos rins, se testa a capacidade do estômago, se abusa do poder de concentração da mente. E quer saber? Basta ir a uma prova qualquer que rapidamente se verifica um excesso de corredores acima do peso, fruto daquela indulgência turbinada pós longões que praticamente elimina o auto-controle corporal na mesma velocidade em que pizzas e bolos são deglutidos garganta adentro.

Bom… se não é por saúde, então, por que correr tanto? 

O difícil de dar esta resposta é porque ela não cabe, ao menos não com perfeição, em palavras. Mas é só olhar uma foto como essa, abaixo, e entender que ela vai além do cenário e inclui estado de espírito, de “completude”, de oxigênio, de vida. Corre-se tanto para poder testemunhar e sentir esse tipo de coisa. 

5 vezes por semana. 

   


Reencontrando a corrida

Tirei quase toda a semana para descansar: não corri segunda, terça, quarta ou quinta. Em todos esses dias, acordei com uma espécie de fadiga acumulada que nunca havia sentido antes. 

Coxas doíam, pés reclamavam, pálpebras insistiam em permanecer fechadas nas primeiras horas da manhã e a motivação simplesmente não se fazia presente. Entendi o recado: estava na hora de descansar mesmo. 

E descansei, sem estresse ou ansiedade, sem agonia, sem pressão, sem nada. Até hoje. 

Estou na minha “peregrinação anual” para Paraty por conta da Flip, evento que minha empresa participa já por 5 anos consecutivos. E Paraty…. bom… digamos que Paraty não seja exatamente o Ibirapuera. 

Encravada no meio da belíssima Rio-Santos, essa cidade colonial é um convite para qualquer um que curta a natureza se esbalde em todas as suas ofertas. E, assim, entendi a viagem como uma espécie de instrução para que eu acordasse mais cedo, calçasse o tênis e saísse. 

Saí antes do sol nascer, ainda com tudo escuro, cambaleando pelas ruas de pedras incertas até o asfalto. Não minto: as dores permaneciam da mesma maneira que estavam antes e minha mente já começava a cortar o plano original e me mandar voltar para casa antes dos 10km. Deixei ela de lado e segui, tomando a direita na estrada. Os passos cansados estavam lentos, pesados, tão escuros quanto a madrugada que insistia em desafiar as horas e permanecer por ali pelo céu. 

Até que, em uma curva que deixava à mostra a cidade de Paraty de um lado e as montanhas de outro, raios vermelhos decidiram romper a noite e decretar um novo momento. 

  
Naquele instante, como que a passe de mágica, todo o cansaço desapareceu, as dores evaporaram e a vontade insana de correr, que aparentemente estava de férias, voltou. 

Mudei o plano: ao invés de voltar para casa, tomaria a trilha pela montanha em frente à cidade, no trecho final da Estrada Real. 

Recuperei do fundo do cérebro o caminho até a trilha e, depois de me perder umas duas ou três vezes, me encontrei. E subi. 

Fui cortando a mata úmida, aparentemente abandonada faz tempo, aproveitando cada milímetro da montanha como se fosse um presente divino. Brinquei com o pace, acelerando em alguns trechos mais do que o bom senso aconselharia. Ali não era lugar para bom senso. 

Em um determinado ponto, me deparei com uma plataforma feita para se observar pássaros. Subi pela escada, tirei uma foto e desci de volta: não era ali que queria chegar. Vasculhei a mata mais um pouco e achei a trilha certa, seguindo adiante. 

  
Nem demorei muito: logo em frente encontrei uma pedra grande com algun degraus podres levando ao cume. 

Subi. 

E, de lá do topo da montanha, respirei fundo com pulmões e olhos. 

Correr era precisamente aquilo: fugir do lugar-comum, do cotidiano, da cidade, das tarefas. Era sair caçando uma trilha velha por uma montanha abandonada sem a certeza de onde chegar. E era, sobretudo, chegar a uma vista absolutamente maravilhosa, de uma beleza tamanha que dá até uma certa culpa por não ser compartilhada com mais ninguém. 

Fiquei alguns instantes ali, apenas olhando, e dei meia volta. 

No retorno, claro, fiz questão de correr a todo vapor pelas descidas íngremes da encosta. Se a paixão havia sido recuperada no caminho até o cume, a rota para a base seria feita à base de diversão. 

Perfeito para encerrar a corrida. E mais perfeito ainda para começar o dia: ainda era, afinal, 8:30 da manhã.

   
   

50 deslumbrantes quilômetros por Atibaia

Já acordei ansioso, lá pelas 5 da manhã do domingo, e com tudo pronto para pegar a estrada. Tinha uma hora até Atibaia para os 50K e, honestamente não fazia ideia do que me esperava. 

A organizadora, a Corridas de Montanha, tem o mérito de garantir que o calendário tenha pelo menos uma prova de 50K todo mês – mas a organização pre-prova não é o seu forte. Mapa de percurso, informações sobre o quão técnico ele é, fotos… enfim, nada aparece para ajudar. 

Mas depois que participei da primeira prova deles, praticamente toda corrida em charcos e escalando morros absolutamente úmidos, aprendi a esperar de tudo. 

Técnica perfeita quando não se sabe nada.

Os primeiros quilômetros em Atibaia foram bem mansos: estradões de terra cortavam as montanhas e abriam caminho para vistas deslumbrantes. Muita subida e descida, claro – mas por trilhas leves, fluidas e deliciosas. 

Só em um trecho tive problemas, quando alguns cachorros grandes decidiram fechar o caminho e mostraram intuito de avançar. Com cautela, parei, dei alguns passos para trás e esperei um pouco até que eles desaparecessem para seguir. São coisas das trilhas para as quais sempre devemos estar preparados.

Fiz os primeiros 40km assim, de forma tranquila e relativamente rápida, caminhando pouco e correndo até na mais íngreme das subidas. Até que chegou a montanha.

Ali, nos km finais, a prova mudou.

Correr era impossível: uma single track bem técnica serpenteava a região da Pedra Grande inclusive por trechos em que se podia duvidar da existência de um caminho. As marcações de percurso ficaram escassas mesmo em bifurcações, um erro da organização reclamado por muitos. Errei.

Segui por uma trilha paralela por mais ou menos 1km, voltando apenas quando um outro corredor que já conhecia a região levantou a hipótese de estarmos perdidos.

Voltamos.

Tomamos o outro caminho.

Acertamos, muito embora as bandeiras que sinalizavam o percurso só fossem aparecer mais de 1km depois.

Houve trechos tão íngremes que tive que parar para recuperar o fôlego e deixar o coração bater mais devagar. Depois continuei.

Em um ou outro momento olhei em volta: a vista era simplesmente incrível!

Mas precisava, claro, seguir. E segui.

Uma subida ainda mais íngreme me esperava. 

Joguei fora um pedaço de pau que estava usando como pole improvisado: já não conseguiria mais utilizá-lo por ali.

Subi com mãos e pés, deixando um rastro de suor para trás.

No topo de uma pedra avistei a chegada, lá longe, onde paragliders e asas delta saltavam para o céu. A vista era inesquecível.

A partir dali tudo estava mais fácil.

Segui a trilha e caminhei pelas pedras, respirando o céu azul e vendo a cidade esparramada lá em baixo. 

Quando cheguei, foi hora de respirar fundo e ainda descobrir que tunha levado o 3º lugar por faixa etária! Uma bela surpresa – muito embora, claro, a pouquíssima quantidade de corredores na ultra certamente tivesse contribuído bastante.

Ainda assim, devo dizer que amei essa prova. Sim: a organização foi média e poderia ter melhorado em muitos aspectos, incluindo a quase inexistente hidratação e a marcação fraquíssima do trecho montanhoso. Mas isso é tudo detalhe.

Olhe as fotos, afinal. Dá para reclamar de algo assim?

   
             

Checkpoint: Revisando a chegada e resetando os sistemas

Ainda é difícil de acreditar que a Comrades foi há apenas uma semana e que, nesta exata hora, eu estava já comemorando com os amigos lá em Pietermaritzburg, vestindo as duas medalhas com o peito estufado de orgulho. 

É igualmente difícil acreditar que meu ciclo naquele naco da África, região que mais amo em todo o mundo, se encerrou. 

Dizem, no entanto, que se deve encarar finais de ciclos como início de novos tempos. Talvez seja mesmo hora de me concentrar em outras provas da minha lista de desejos – ou mesmo de varrer a mesma África em busca de outras ultras e desafios, seja em Victoria Falls, nas Drakensberg, em Lesotho, no Kilimanjaro ou em qualquer outro local. Uma coisa é certa: meu tempo na África está longe de ter terminado: se não para a Comrades, ainda voltarei lá para correr algum outro solo. 

Enquanto isso, claro, essa semana foi de pura recuperação. Recuperação equilibrada, devo acrescentar: corri um total de pouco mais de 40km, me entregando à vontade de estar nas ruas, fiz novos planos, busquei novas provas, respirei novos ares. Aproveitei esse (muito) bem vindo feriado para repassar esses últimos meses e todo esse treinamento que se foi. 

Curioso: no final das contas, a quantidade de trilhas que fiz no caminho até a Comrades foi tão grande, gerando tantos altos e baixos do ponto de vista de volume de rodagem e pace médio, que facilmente se deduziria que a linha de chegada seria cruzada com muito mais dificuldade. Não foi o caso: possivelmente pela somatória de experiência com variação muscular no treinamento acabou funcionando de maneira perfeita e cheguei em Pietermaritzburg com um tempo melhor e com muita, muita energia ainda sobrando. É só ver abaixo, pelos gráficos:

  
Só isso já diz muito sobre o quanto a variação em terreno pode fazer bem para o corpo. 

Agora é hora de recomeçar. Minha próxima grande meta é apenas em novembro, fechando meus primeiros 100K nas trilhas de Santa Catarina. Até lá ainda há muito chão pela frente. 

Que bom.