Vídeo: IComrades

Para meus amigos que já estão se preparando para largar neste domingo…

‘Finding Traction’ disponível online

Faz tempo – muito tempo – que eu quero ver o filme ‘Finding Traction’, com a corredora Nikki Kimball. Em linhas gerais, é um documentário que narra a jornada dela pelos 440km das Green Mountains, nos EUA.

Claro: tudo o que costuma acontecer em uma ultra – mesmo as “pequenininhas” – aparece de maneira concentrada aqui. Inspirador.

E agora disponível no Youtube.

Para quem quiser ver, é só apertar o ‘play’ abaixo.

Diverta-se:

Ouvindo e agradecendo Hermes

Tinha um treino programado para hoje cedo. Desobedeci: apesar do reset que estou dando em meu organismo por ter atingido o pico cedo demais, antecipei para o final de tarde de ontem.

Depois de uma última reunião, acabei percebendo que tinha tempo, que o clima estava perfeito e que, acima de tudo, estava com vontade. Foi como se Hermes, Deus mensageiro que, tenho certeza, inspira os corredores, tivesse sugerido essa mudança de planos. 

Prontamente obedeci, fazendo uma rotinha entre a minha casa e a 9 de julho. 

30 minutos é um tempo perfeito para situações assim: pode-se brincar mais livremente, sem pressão de tempo, e arriscar paces mais fortes uma vez que dificilmente se chegará a um estado de exaustão absoluta.

Claro: no meu caso, dado o vale em que estava, “pace mais forte” é qualquer coisa abaixo dos 6 minutos por km.

O resultado foi inspirador: meia hora depois de ter largado, cheguei com um gostinho fabuloso de “quero mais”, me sentindo novo em folha e sem um pingo de cansaço mesmo depois de ter fechado uma média boa de 5m30s/ km. 

Sinal de que a recuperação já não está mais vindo andando, e sim correndo.

Estivesse eu na Atenas antiga, certamente teria feito uma oferenda a Hermes. Como estou em uma metrópole moderna do século XXI, deixo então ao menos esse post de agradecimento pelo seu sopro de inspiração :-)



Checkpoint: o ultra longão

Dia de descanso.

Acordei com as articulações tesas, inchadas e com as pernas bastante doloridas. Até aí, nada de inesperado – mesmo tendo sido um treino, a distância percorrida ontem foi minimamente respeitável.

Sim: está claro para mim que preciso fazer ajustes no treino e me recuperar mais antes da UER, na Páscoa. Tudo bem: o sentido de um longão no pico é justamente testar o corpo, o que significa que a missão foi cumprida a tempo.

Mas há um outro lado para o dia de ontem que vai além da constatação dos problemas: a sensação única, especialmente gratificante, de se fazer uma ultra. Lá pela quinta hora, quando o corpo subitamente se recuperou e “atravessou” o “muro” captando uma segunda onda de energia, tudo passou a fazer sentido.

Tudo. Em segundos, toda a dor é ignorada e apenas o sentimento de que o corpo é muito mais resiliente do que se pensa fica pulsando pelas veias inchadas. Vem uma espécie de sensação de imortalidade endorfinada, de superação, de quebra de limites, que eleva toda a alma para uma espécie diferente de patamar.

Quem curte ultra entende bem isso. Não importa o quão ruim tenha sido a jornada pelos quilômetros: sempre há um determinado ponto em que se sublima todas as dificuldades e que se entende os motivos que impulsionam cada um dos tantos passos dados. E nem precisa de corrida oficial para isso: basta uma rua ou trilha e muita distância.

É simples assim. E é por isso que amo esse esporte.

Bom… agora é hora de sacudir a poeira, descansar as articulações e iniciar uma fase de preparo diferente justamente pela falta de intensidade. Que venha a UER. E a Comrades, claro.

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Rob Krar, Grand Canyon, depressão e corrida

No que pensamos enquanto corremos? O turbilhão é tamanho, principalmente em ultras onde a pressão por tempo é menor do que em treinos ou provas de rua, que responder beira o impossível.

Mas, em geral, as passadas trazem consigo mergulhos que vão se aprofundando gradativamente a cada quilômetro, metro, centímetro. De repente, acabamos nos dando conta de que estamos nos redescobrindo de uma maneira quase filosófica, com uma profundidade que chega a assustar.

Redescobertas e viagens ensimesmadas, no entanto, sempre trazem um saldo mais positivo do que negativo. Basta ver essas pequenas gotas de pensamentos do Rob Krar enquanto ele corria as 30 milhas do Rim2Rim2Rim, no Grand Canyon.

depressions – a few moments from 30 miles in the canyon. from Joel Wolpert on Vimeo.

Quando a mente corre sem as pernas

Há qualquer coisa com o clima que traz à tona uma vontade incrível de sair para as ruas.

Estive ontem em Brasília a trabalho. Bate-volta: peguei o vôo das 6:30 saindo de Congonhas e às 18:30 já estava no avião de volta para casa.

Mas nessas 12 horas que passei na Capital, entre uma e outra reunião, me peguei invejando alguns corredores que passaram por mim em direção ao Parque da Cidade.

Tudo estava perfeito para eles: o céu azul brilhante do cerrado, a temperatura amena, o ar gostoso, o verde amarronzado da vizinhança convidativo.

Passaram leves, quase flutuando pela outra dimensão que toma conta dos corredores quando os corpos se sintonizam no vai-e-vem das pernas. Pareciam extraterrestres, de certa forma, alheios a todas as pessoas que, como eu, estavam com agendas e pendências nas mentes brigando entre si.

Mas, naquele punhado de segundos em que parei para invejar os corredores brasilienses, acabei entrando no mesmo clima. Na mesma zenitude, na mesma atmosfera. Foi como se a minha mente tivesse conseguido correr enquanto o corpo se sedentarizava.

Chega um ponto em que a corrida se torna um hábito que independe das pernas.

Estas, no entanto, ficaram ansiosas. Queriam largar tudo, se levantar e seguir as camisetas coloridas até o Parque; queriam produzir ácido láctico, colocar o restante do corpo em movimento, cansar.

Bom sinal. No começo da semana – que, diga-se de passagem, foi absolutamente turbulenta – estava preocupado com overtraining e estafa mental. Minha receita foi desistir do regenerativo da segunda e empurrar a a planilha para hoje, quinta.

Funcionou. Graças aos céus do cerrado, aos corredores anônimos, ao Parque da Cidade e à agenda turbulenta fiquei prontinho para recomeçar.

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