O olho que enxerga as trilhas

Dizem que os nossos olhos enxergam melhor algo que já reconhecem. É verdade.

Esse é o quinto ano seguido que venho a Paraty participar da Flip e, nos últimos três, aproveitei para fazer corridas sempre bem vindas pela cidade ou por trechos da Rio-Santos. O visual dessa região nunca cansa, mesmo considerando que os pés estavam sempre sobre o asfalto (ou, no máximo, os paralelepípedos do centro).

Nunca nem pensei na possibilidade de haver trilhas legais por aqui – e, por conta disso, nunca percebi a existência de nenhuma.

Hoje foi diferente.

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Saí com o sol ainda nascendo, saindo em direção à Rio-Santos com o objetivo de caçar alguma trilha pelas montanhas do outro lado. No caminho cheguei até a me perguntar se encontraria algo, duvidando do que agora parece óbvio.

É claro que encontrei. Por todas as partes das encostas pequenas trilhas se abriam, subindo em meio ao verde úmido da Mata Atlântica. Eram tantos caminhos que, honestamente, não consegui entender como nunca os percebi antes!

Escolhi um. 50, 100, 200 metros e topei com uma pequena casa. Perguntei ao morador se havia alguma forma de subir a montanha correndo e ele logo me apontou duas opções.

Escolhi uma. Subi. Alguns pontos foram mais íngremes, outros mais escorregadios, outros mais fechados, todos incríveis. Perfeitos. Em meia hora cheguei ao fim do caminho que havia escolhido, tempo o suficiente para voltar dentro da minha programação.

Na volta, comecei a perceber, bifurcações claras, algumas inclusive sinalizadas, apontando outras trilhas que davam para outros caminhos, matas e vistas. Perfeito.

De alguma forma, senti como se estivesse descobrindo algo novo nessa corrida que nasceu de maneira tão despretenciosa. Foi como se todo um mundo que eu desconhecia decidisse se apresentar de uma vez só sob o céu azul da costa carioca e o verde abundante da mata.

Em uma palavra: inesquecível.

Não foi a trilha mais bela do mundo – mas foi a que mostrou que há todo um mundo de trilhas pronto para ser desbravado por qualquer um que estiver com um mínimo de vontade.

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Dores do principiante que eu não sabia que era

Parece meio ridículo dado o tanto que treino e por tanto tempo. Afinal, já são mais de 3 anos correndo ininterruptamente, incluindo aí dezenas de provas das mais variadas e longas distâncias.

Mas o corpo é assim, tão cheio de diferentes músculos que, às vezes, nem nos damos conta que alguns ficam adormecidos enquanto outros enfrentam todo o treinamento.

No sábado, encarei a trilha e a estrada do Pico do Jaraguá. A trilha foi íngreme, técnica e cheia de trechos em que era necessário apoiar as mãos sobre os joelhos para subir com alguma eficiência e velocidade.

Quando cheguei no topo estava cansado, mas normal. Encarei a estrada sem problemas. Voltei para casa e me deparei com um desafio físico até maior: o jogo do Brasil contra o Chile.

Até aí, tudo bem. Mas, depois do jogo, me dei conta de que estava com uma dor muscular ridiculamente forte nas coxas e panturrilhas.

Tão forte que achei que era algum tipo de piada do corpo e fui dormir. No dia seguinte, domingo, acordei e fui para um regenerativo de pouco mais de uma hora.

Regenerativo? Na volta, a dor aumentou. Comecei a mancar. Andar alguns metros se transformou em um suplício.

Tomei Advil e segui o dia. Hoje, segunda, acordei melhor – mas ainda bastante dolorido. Ainda mancando e estranhando essa sensação de novato que deveria ter ficado para trás há alguns anos.

O corpo é sempre sério em suas afirmações. O meu, creio, ainda não estava preparado para trilhas técnicas, e eu nem imaginava isso. Por sorte não há lesão e nem nada realmente preocupante – embora seja bem chata essa sensação de dor que cisma em ficar.

Trilha é realmente outro bicho, outro esporte, e talvez tenha sido bom aprender isso no começo da jornada. A tempo de programar uma adequação mais de acordo com a realidade do que com expectativas mágicas, de uma irrealidade ingênua.

Agora, com o aprendizado concluído, é esperar e torcer para que a dor vá tão rapidamente como veio. Hoje é dia de descanso e, talvez, de massagem. Amanhã é dia de intervalado – mas só o corpo mesmo é que decidirá pela manutenção da rotina planejada.

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