Sobre proporções de triglicérides e HDL na análise do colesterol em dietas LCHF

Uma das primeiras conclusões interessantes a que cheguei depois de fazer a nova bateria de exames pós dieta low-carb foi sobre a mudança na estrutura do meu colesterol. 

A grosso modo, diminuir bruscamente carboidratos e ingerir loucamente gordura efetivamente gera uma melhoria significativa: o meu LDL (chamado de colesterol ruim) caiu e meu HDL (o bom) subiu – pela primeira vez, diga-se de passagem, chegando acima do considerado limite mínimo. 

Aí fui ler um pouco e descobri que a própria análise de colesterol é feita de uma maneira levemente equivocada. Convencionou-se que o colesterol total – feito a partir da soma de LDL, HDL e outros indicadores de menor peso – está intimamente associado a doenças cardíacas quase como uma equação matemática.

Na verdade, olhar para o LDL como parâmetro máximo tem suas ressalvas, como postei no texto em que abri meus exames: “(…) o LDL pode ser dividido em dois padrões de partículas: o padrão A, maior e menos denso, e o padrão B, menor e mais denso. A partícula perigosa mesmo é a de padrão B.

Um exame laboratorial normal não dá essa divisão mas, também de acordo com a literatura médica, pessoas que fazem o low-carb tendem a ter mais partículas do padrão A. Isso significa que um LDL alto não seria necessariamente preocupante, demandando antes um exame mais minucioso para entender a sua composição.” 

Só que dá para ir além disso. De acordo com este artigo, traduzido por Hilton Sousa a partir deste original:

“Muitos estudos descobriram que a proporção triglicérides/HDL-C (TG/HDL-C) correlaciona-se fortemente com a incidência e extensão de doença coronoariana. Esta relação é verdadeira tanto para homens e mulheres. Um estudo descobriu que uma proporção TG/HDL-C acima de 4 era o mais poderoso preditor independente do desenvolvimento de doença arterial coronariana. Com o aumento da prevalência do sobrepeso, obesidade e síndrome metabólica, esta proporção pode tornar-se ainda mais importante porque TG alto e HDL-C baixo estão frequentemente associados com estas desordens.”

E como entender a proporção? 

Simples: dividindo triglicérides por HDL e atentando apenas para a forma com que o laboratório expressou os resultados (se em mg/dL ou em mmol/L). Dá para se classificar os resultados assim:

Para exames expressos em mg/dL:

  • Até 2 = Ideal
  • Acima de 4 = Muito alto
  • Acima de 6 = Alarmantemente alto

Para exames expressos em mmol/L é necessário ainda multiplicar a proporção por 0,4366 para ter os valores corretos, sendo que:

  • Até 0,97 = Ideal
  • Acima de 1,74 = Muito alto
  • Acima de 2,62 = Alarmantemente alto

E como estou eu? O gráfico responde:

 

Verdade seja dita, nunca tive problemas com minha proporção TG/ HDL. Mesmo antes de entrar na low carb, ela estava em perfeitos 1,38. 

Mas veja o que aconteceu: logo depois que mudei a dieta e entrei na LCHF houve uma leve piora no indicador – algo que aconteceu também com muitos outros. Depois disso, no entanto, o corpo assimilou a mudança e melhorou consistentemente. No último exame, fiquei em perfeitos 0,83. 

Mais um ponto para a LCHF. 

A dieta low carb está longe de não ter seus críticos – principalmente aqueles mais dogmáticos que se recusam a considerar a possibilidade da nutrição ter evoluído ao longo dos tempos, contradizendo muito do que ela mesmo costumava pregar. Não sou um daqueles malas que ficam pregando estilos de vida insistentemente: exceto aqui pelo blog, eu até evito tocar no assunto. Mas uma coisa é inegável: essa bateria consistente de exames que tenho feito e postado provam, por A mais B, que, a não ser que eu seja uma anomalia genética, a LCHF realmente funciona. 

LCHF: Resultados depois de 5 meses

A última vez que fiz exames foi no final de maio, já faz bastante tempo. Junho se foi, depois julho e, agora, boa parte de agosto. De lá para cá apliquei duas mudanças simples:

  1. Cortei quase que de maneira total a carne vermelha da dieta com o objetivo de diminuir a absorção de ferro. De todos os indicadores, a Ferritina era o mais preocupante por ter crescido de maneira singular desde que iniciei o low-carb e, se não caísse, precisaria voltar à dieta anterior.
  2. Diminui levemente o controle, aumentando o volume de carboidratos diários para algo na casa dos 100g-120g (ao invés de me fixar nos 20-30g). O objetivo era parar de perder tanto peso – estava já quase caindo para a casa dos 66kg e, embora o corpo estivesse respondendo bem sob todos os aspectos, começava a me sentir esquisito demais ao olhar no espelho.

Os resultados depois deste período foram um alívio.

Estado físico geral

Bom… antes de entrar nos indicadores médicos em si, cabe uma avaliação geral do estado físico. Continuo com uma disposição incrível, muito maior do que a que estava habituado pre-LCHF. A capacidade de concentração permanece maior, a energia está sempre em alta e os níveis de endurance estão melhores que sempre estiveram. Para mim, o melhor parâmetro nisso é o tempo que consigo correr confortavelmente sem comer nada (e sem sentir fome também, claro). Esse indicador por si só está incrível: consigo fazer tranquilamente uma ultra de até 60K sem nada e levo até os 90K com uma barrinha de amendoim. Em linhas gerais, isso indica que o corpo está conseguindo utilizar bem a gordura como fonte de energia, uma das principais metas que eu tinha.

Indicadores hepáticos:

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Os indicadores hepáticos, com peso dobrado para mim (uma vez que tive já problemas sérios no fígado) estão estáveis. Na prática, eles já estavam sob controle desde antes da adoção do LCHF, então bastaria mesmo que permanecessem assim.

Colesterol:

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Houve um aumento no colesterol, possivelmente por eu ter ampliado levemente o consumo de carboidratos nas últimas semanas. Ainda assim, o total está dentro dos parâmetros e os outros dois tipos apresentaram melhora.

O HDL, considerado “colesterol bom”, passou pela primeira vez o nível mínimo desejado (60) e foi para 64. O LDL, por sua vez, caiu de 120 para 116, também mostrando melhora.

Aqui vai uma curiosidade: de acordo com a literatura, níveis de LDL costumam aumentar logo que se inicia uma dieta LCHF (principalmente entre os meses 3 e 4). Depois, entre o sexto e o oitavo mês, esses níveis tendem a cair – que é o que já está ocorrendo comigo.

Outro ponto importante: o LDL pode ser dividido em dois padrões de partículas: o padrão A, maior e menos denso, e o padrão B, menor e mais denso. A partícula perigosa mesmo é a de padrão B.

Um exame laboratorial normal não dá essa divisão mas, também de acordo com a literatura médica, pessoas que fazem o low-carb tendem a ter mais partículas do padrão A. Isso significa que um LDL alto não seria necessariamente preocupante, demandando antes um exame mais minucioso para entender a sua composição. Ainda assim, é um alívio também o meu estar caindo.

Ferritina:

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Para mim, era o mais preocupante. Em linhas gerais: a ferritina é uma proteína produzida pelo fígado que regula a quantidade de ferro no organismo e media o processo de inflamação. O motivo da preocupação: níveis excessivamente elevados podem indicar uma sobrecarga de ferro, com efeito tóxico. Ou, em resumo, altos níveis de ferritina podem gerar câncer.

Há alguma literatura sobre níveis elevados de ferritina em ultramaratonistas, relacionado a sobrecarga de ferro a inflamações causadas pelo esporte. Vale conferir aqui. No entanto, o estudo mostra que os níveis voltam ao normal depois de 6 dias, o que significa que tem impacto de curtíssimo prazo.

Ocorre que, por coincidência, os últimos dois exames que fiz foram cerca de 1 semana depois de provas que demandaram bastante (Ultra Estrada Real e Maratona de SP), o que pode ter prejudicado os resultados. Se prejudicaram mesmo, nunca saberei: mas o fato é que – ainda bem – os níveis da proteína caíram bastante.

IMC:

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Há pouco a se falar aqui, exceto pelo fato de que estava perdendo peso demais. O “demais”, no entanto, era uma constatação muito mais estética do que clínica uma vez que tinha um “espaço” razoável ainda de peso a queimar.

Cheguei a ficar com menos de 67kg por um bom tempo e, aos poucos, estou recuperando mais peso pelo menos para me sentir melhor. Mas reforço: isso é puramente estético uma vez que não há nada de errado com nenhuma das medições.

Glicose e Insulina:

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Por fim, há a glicose e a insulina. Ambos estão estáveis, reflexo total da LCHF – mesmo considerando o leve aumento recente de carboidratos na dieta.

Conclusões finais:

Como disse no começo: alívio. Queria muito poder continuar na LCHF por conta dos benefícios físicos que estava já sentindo, mas a Ferritina alta era uma ameaça grande. Esse último exame, aliás, foi um veredito – e me “autorizou” a continuar.

Agora é seguir a vida :-)

O corpo depois de 2 meses em low-carb

Antes de começar, um rápido “disclaimer”: ainda tenho que fazer mais uma bateria de exames nos próximos dias para saber como o meu corpo está reagindo “por dentro” à dieta low-carb-high-fat.

Tendo dito ido, vamos às observações práticas:

  • A fome realmente sumiu. Passo tranquilamente 12 horas sem comer nada e sem sentir falta de nenhum alimento. Esse certamente deve ser um dos motivos que geram perda de peso apesar do elevado consumo de gorduras.
  • No começo, inclusive, deixe o limite de carboidratos em 20 a 25g por dia. A perda de peso foi tamanha que, hoje, relaxei mais o limite e procuro apenas mantê-lo abaixo dos 90g/ dia. 
  • O problema é que, quando se muda um hábito alimentar, qualquer coisa diferente parece forçação de barra. Tenho quase me cobrado diariamente a comer mais carbs para não emagrecer tanto. Ainda assim, veja os resultados no gráfico abaixo: ele mostra 3 meses (sendo o primeiro fora do low-carb e os últimos dois dentro). Em 60 dias, despenquei de 75 para 67kg.
  • Não estou me sentindo fraco e nem nada. Ao contrário: nunca me senti tão disposto, nunca dormi tão bem e nunca estive tão “atento”. Impressionante.
  • A recuperação também está extremamente ágil. Na semana passada, saí cedo para meu ultra longão pre-Comrades, de 53K. Cheguei em casa de volta às 13; às 20:00 já não sentia nem lembrança de dor. Só não corri no dia seguinte por precaução.

Enfim… até o momento, pelo menos os “efeitos visíveis” estão excelentes. Espero que os exames confirmem isso pois eu realmente não gostaria de abandonar o low-carb que, a essa altura, virou mesmo um estilo de vida!

  

Low carb, high fat?

Já faz algum tempo que venho namorando a ideia de mudar um pouco de dieta – e a quantidade de informação, dados e pesquisas sobre LCHF (low carb, high fat, ou pouco carboidrato e muita gordura)que tem bombardeado a mídia mais “especializada”, por assim dizer, quase que diariamente.

Comecei a ler mais e mais e mais. A série de artigos do Balu, citando muitas pesquisas que consideram o LCHF como um caminho interessante (fiz um post aqui sobre o assunto) e, em seguida, o blog do Dr. Souto, acabaram me empurrando mais e mais para o caminho.

Isto posto, há ainda a consideração de que meu organismo é um pouco diferente do normal: metade do meu fígado ficou em uma mesa cirúrgica há alguns anos, quando eu era gordo e sedentário, o que já me traz algumas limitações importantes. Ainda assim, pelo que li em pesquisas de alguns dos mais renomados veículos do mundo, dietas LCHF acabam ajudando a combater a gordura no fígado, condição mais crítica para mim.

Coloquei tudo na balança e decidi testar esse approach um pouco mais. Sei que estou na beira de duas ultras e mudanças na dieta não são exatamente aconselhadas… mas, às vezes, é preciso simplesmente se entregar a um estilo Nike (“just do it”) e pronto.

Resumo da ópera: desde o começo da semana comecei a trocar, mesmo que sem radicalismos, muito do que ingeria de carboidratos por gordura. Tirei grãos de uma maneira geral, diminuí bastante o consumo de pães e troquei ingredientes light por integrais ou normais.

Tive apenas alguma dor de cabeça no segundo dia, o que já passou. Para garantir que nenhum mal seja feito, já vou aproveitar e colher um mundo de exames para ter uma noção clara de como estão os meus indicadores e poder fazer uma espécie de comparativo “antes e depois”.

Bom… agora é acompanhar.

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