As lembranças boas que ficam

Há quase uma semana, quando cheguei em Paraty, decidi fazer um longão no final de tarde pela BR. Já fiz um post sobre isso deixando claro o quão péssima foi a ideia de correr na escuridão em uma estrada deserta – algo que facilmente pode ser classificado como uma pura e inquestionável imbecilidade. 

Mas não queria que a imagem da minha própria burrice marcasse Paraty e, nos dias seguintes, saí com o nascer do sol por um percurso bem semelhante. 

E olha só a diferença….

Dá para ficar com raiva de um percurso assim? 

2015 vs. 2014: Comparando 2 anos de treinos e resultados

Fiquei encafifado com o post de ontem, quando efetivamente analisei meu pace médio e comecei a ver que uma tendência de lentidão que começou a (finalmente) ser interrompida.

Aí me lembrei que registrei cada semana também do meu treinamento para a Comrades 2014, base no mínimo interessante para um comparativo.

Ei-lo nos gráficos abaixo, que consideram a semana 1 (S1) como a primeira de novembro do ano anterior ao de análise:

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O primeiro gráfico é o de volumetria – e já deixa uma informação preciosa: nas últimas 14 semanas, apenas 2 tiveram menos rodagem que em 2014: a que incluiu a ultra de 50K e a da semana imediatamente posterior, que dediquei a recuperação.

O outro gráfico, de pace médio, reforça os efeitos disso: tirando os dois picos de lentidão nas semanas que incluíram a viagem recheada de trilhas por montanhas nos Andes e os 50K da ultra de aventura na Serra do Mar.

Uma olhar mais superficial já enxergaria uma clara relação entre rodar mais e acelerar menos. No entanto, há algo mais aí.

A rodagem realmente aumentou, mas nada que tenha sido exagerado ou mesmo fora de um natural ganho de experiência. O que aconteceu mesmo foi redução de velocidade por conta da transição para trilhas. Ou seja: na medida em que terrenos vão ficando mais técnicos e subidas, mais íngremes, realmente se cria uma espécie de zona de conforto em que se aceita melhor uma menor agilidade. Natural.

Natural, no entanto, não significa correto. Aliás, análises assim são perfeitas para se ajustar o treino.

Meu objetivo agora: voltar a paces médios sub-6′ mantendo (ou pelo menos reduzindo apenas minimamente) a volumetria.

Características de uma ultra perfeita

Depois dos pantanosos 50K do sábado, comecei a me perguntar quais seriam, de fato, as condições ideais de ultra para mim. Todos tem a sua preferência, afinal – há desde os que curtem trecos como a mega úmida e tensa Jungle Marathon às secas e empoeiradas travessias em deserto.

E eu?

Bom… Descobri que tenho alguns parâmetros do que faz uma ultra ideal para mim. Vamos a algumas de suas características:

Percurso

O campeonato mundial de ultras de 2014 foi em Doha, perfazendo 100km em voltas de 5K. Honestamente, eu enlouqueceria.

O percurso ideal para mim é ponto-a-ponto ou circular, permitindo que se consiga desbravar cenas novas a cada passada. Ver é quase tão importante quanto correr e passar 3 ou 4 ou mais vezes dando voltas entedia. Bastante.

Altimetria

Há dois lados para essa moeda. Quanto mais intensa a altimetria, mais belas tendem a ser as vistas; quanto mais plana, mais rápido o percurso.

Curto as duas alternativas e julgo um meio termo como ideal. E, por meio termo, entenda-se qualquer coisa que varie de 2 a 4 mil metros, com alguma margem, em uma ultra de 80K.

Dá para correr e aproveitar cenas incríveis ao mesmo tempo.

Terreno

Asfalto, aqui, não entra na preferência – mas o estilo de pura aventura, sem demarcações e com surpresas como rios a serem atravessados e barrancos a serem escorregados, também não. Aliás, em uma comparação direta entre esses extremos, o asfalto ganha de longe.

Percursos pantanosos, mega úmidos e cheios de imprevistos são coisas que procurarei evitar ao máximo. Terrenos assim nos fazem passar boa parte da prova olhando para o chão para evitar quedas desnecessárias – algo bem distante do meu estilo.

O ideal? Uma mescla qualquer entre estradas de terra e single tracks que até podem ter alguma dificuldade, claro, mas que não sejam assim tão “infernais”.

Tendo dito isso, cabe uma observação: provas como a Comrades são um ponto totalmente fora da curva. Sim, ela é em asfalto por 90km – mas com tanta gente correndo e torcendo e com tanta história que faz todo o tempo parecer um sonho.

Distância

Para mim, distância não é exatamente um problema. Descobri que tenho uma tolerância relativamente alta por passar loooongos tempos na estrada – o que costuma vir com quilômetros e mais quilômetros de percurso.

Não sou muito rápido – principalmente porque curto tanto estar em uma ultra que paro de tempos em tempos para tirar fotos e aproveitar a experiência. Além disso, convenhamos: para que se matar na velocidade quando se sabe que um podium é impossível e em um esporte com tantas variáveis por prova que mesmo medir recordes pessoais fica complicado?

Mas ainda me falta mais experiência em distâncias maiores: o máximo que fiz, até hoje, foram 90km. Ainda preciso experimentar alguma prova de 100km e de 100 milhas. Não minto que 100 milhas me assustam um pouco – mas um dia chego lá.

Tecnicalidade

Desde que não seja nada que coloque a minha vida em risco, qualquer coisa é bem vinda.

Claro: ter algum percurso que permita a corrida (e não só trekking) ajuda: afinal, é ela que mais facilita o fluxo livre da endorfina. Além disso, não sou um trilheiro muito safo: a insegurança às vezes bate com maior força que deveria antes de algum movimento mais complicado.

Mas, isto posto, não posso dizer que tenha nenhuma restrição mortal quanto a escaladas ou descidas minimamente complexas.

Ao menos desde que o percurso como um todo seja feito para ser aproveitado, não temido.

Temperatura

Nunca corri em extremos – seja um calor de 50 graus do Saara ou um frio ridículo ao estilo Antártico.

Mas não teria nada contra. Para falar a verdade, a temperatura acaba sendo justamente a cereja do bolo de algumas provas. Ou alguém vê alguma graça em uma Badwater sob amenos 20 graus?

Umidade

Seca. Esse é o segundo dos dois únicos pontos que sou um pouco radical – e pelo mesmo motivo. Não gosto de umidade em excesso justamente porque ela costuma acompanhar percursos quase impossíveis com muita lama e oportunidades abundantes para se escorregar e se esborrachar no chão.

Sou ruim de equilíbrio, possivelmente em todos os sentidos, e não gosto tanto de colocar isso à prova o tempo todo.

Apoios

Não tenho nenhuma preferência aqui – desde que as regras sejam cumpridas. Ou seja: se uma ultra for autosuficiente, então esperar postos de apoio com água e comida é uma imbecilidade. A autosuficiência, nesses casos, é parte da prova, um desafio a mais.

Mas, se houver postos espalhados, o ideal é que pelo menos alguns tenham refrigerante ou infra para um bem vindo descanso de 5 minutos no meio da prova.

O “fator exótico”

Correr em um lugar diferente, inusitado, sempre soma pontos extras para qualquer ultra. A vida, ao menos em meu entendimento, é feita para aproveitarmos ao extremo cada segundo de consciência que temos. E aproveitar ao extremo significa sair do cotidiano e se entregar ao exótico.

Assim, correr nas montanhas da Patagônia, entre as vinhas do Douro, no deserto, em Comrades, na Mata Atlântica, na praia ou em qualquer outro cenário “diferente” sempre valerá a pena – mesmo quando todos os outros fatores estiverem jogando contra.

O resumo

Ultras são ultras: são feitas para testarmos nossos limites físicos e (principalmente) mentais.

Mas são feitas também para honrarmos a nossa própria vida, entregando ao coração experiências que ele jamais esquecerá.

Não me considero muito exigente aqui: tendo 50 ou mais quilômetros – o suficiente para garantir um bom tempo correndo – quase qualquer coisa vale.

Quase: o limite, para mim, é a linha que separa o aproveitamento de uma experiência memorável do estresse de passar horas olhando para o chão para não cair de cara (ou em um precipício).

Fora isso, é tudo uma questão de se entregar a uma experiência nova, de mergulhar em si mesmo e de se permitir entrar em uma zona mental tão intensa que o final sempre trará uma noção mais cristalina de quem realmente somos.

Cabot Trail tourism destinations

Por que correr a Comrades?

Se me perguntassem isso, eu provavelmente teria dificuldade em enumerar os tantos motivos para se entregar à Rainha das Ultras. Não foi à toa, aliás, que criei todo um blog só para isso, o Rumo a Comrades, com centenas de posts ao longo do meu treinamento na semana passada.

Esse ano devo ir de novo e já está na hora de começar a aquecer os motores com conteúdo e vídeo, mesmo considerando que ainda tenho uma ultra nesse final de semana e, claro, a Ultra Estrada Real em abril.

Voltando ao cerne da questão, fizeram essa mesma pergunta para Bart Yasso, um dos editores da Runner’s World Americana, que já percorreu todo o mundo em busca de “aventuras para as pernas”, por assim dizer.

Sabe a resposta dele?

Veja no vídeo abaixo:

Mapa de rotas mais corridas no mundo

Na última sexta, quando lia o blog Recorrido, do Danilo Balu, me deparei com uma recomendação que achei SENSACIONAL: um mapa feito com dados de 15 milhões de corredores e que “acende” rotas mais usadas em todo o mundo.

Entra naquela categoria de informações tão inúteis quanto interessantes – e que, portanto, vale conferir. Aliás, eu diria até que tem a sua utilidade. Como eu estou varrendo a Web para descobrir novos pontos de corrida aqui em Sampa, ver esses percursos de uma vez só pode ser uma mão na roda.

Quem quiser se divertir, clique abaixo. Vale a pena!

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Calculando gradientes de inclinação dos percursos cotidianos

Quem está transicionando de corridas de rua para as montanhas certamente se preocupa mais com treinamentos em morro: falta de experiência, em geral, acaba sendo mentalmente substituída por excesso de ansiedade.

Eu me enquadro nessa categoria. Mesmo inserindo subidas e descidas em praticamente todos os treinos, sempre acabo com a sensação de que deveria fazer mais, nem que um pouquinho. Afinal, o ganho altimétrico total da minha prova-alvo, a Douro Ultra Trail, é de 4,5 mil metros! Como me preparar para isso fazendo 1.000 por semana?

O meu treinador não vê tanto motivo para pânico – e provavelmente os mais experientes também não, mesmo porque a ideia é ampliar gradativamente esse ganho altimétrico semanal. E há também um outro ingrediente importante: uma coisa é subir um falso plano por 30 minutos; outra é subir uma ladeira íngreme por 5 minutos. A subida pode até ser a mesma, mas o grau de inclinação é que faz toda a diferença.

Com isso em mente, decidi brincar de calcular gradientes de inclinação de pontos que fazem parte da minha rotina de treinos. Primeiro, vamos à fórmula:

O gradiente de inclinação é o resultado do total de ganho altimétrico dividido pela distância percorrida. Em outras palavras, se você subiu 100 metros em um total de 1km (ou mil metros), então o grau é de 10% (100/1.000). Simples assim.

Bom… agora vamos aos exemplos do meu cotidiano nas últimas semanas:

 

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Duas conclusões:

1) Dificilmente ruas conseguirão competir com trilhas. Faz sentido: para funcionar bem para carros, afinal, elas precisam mesmo ser menos íngremes :-/

2) A subida da Ministro é um excelente treino. De todas as que fazem parte do meu cotidiano, é a única próxima de casa e com um grau de inclinação superior a 10%. Inseri-la no dia-a-dia foi uma excelente ideia!