Ultra é mais espírito do que esporte

Na semana passada, vi uma foto de um amigo meu no Facebook comemorando uma travessia aquática.

Dei os meus entusiasmados parabéns e ele comentou comigo que estava treinando para a travessia Mar Grande-Salvador. Me entusiasmei.

Explico melhor: a travessia marítima Salvador-Mar Grande é o que há de mais antigo em minha memória sobre endurance. Trata-se de atravessar 13km da Baía de Todos os Santos, saindo de um ponto da Ilha de Itaparica e chegando em outro na capital baiana.

Quando criança, considerava todos os nadadores como heróis e loucos – ou loucos e heróis, para colocar na ordem correta.

O tempo, no entanto, foi me afastando da prova. Me mudei para São Paulo.

Comecei a correr.

Me apaixonei pelas ruas e trilhas e me entreguei por completo a esse esporte.

Até essa bendita foto no Facebook.

Em um intervalo de segundos, anos de infância apareceram como um susto entusiasmado que, somados à experiência em provas longas, desenharam um gosto de viabilidade que nunca tive antes.

Ainda estou cozinhando esse sonho – mas já o considero como uma das minhas metas futuras, embora tenha mais a ver com ultra do que com maratona.

Mas, do ponto de vista espiritual, há mesmo tanta diferença entre atravessar uma montanha ou uma baía? Em todos os casos, são horas revirando a própria alma e puxando energia do peito para se encontrar, se abraçar, se entender. Muda-se apenas o elemento, a solidez do solo, a escolha dos membros.

Mas, fora isso, é a mesma coisa: uma meta de autosuperação.

Ultra é mais espírito do que esporte.

margrande

 

 

Só mais 5 dias

Faltam 5 dias.

5 dias de turbulência e truculência, 5 dias de estresse, 5 dias de correria insana no trabalho para fechar o ano.

Nesta manhã de segunda, o que me resta é olhar para algumas das fotos do longão de ontem e torcer para que elas deixem o passado e saltem para o futuro próximo o mais rapidamente possível.

No mais, é aguentar esses 5 próximos dias.

  

 
 

O que nos faz perder velocidade: ultras ou não saber treinar?

Quando fiz a Maratona de Chicago, em outubro de 2013, meu treinamento girou quase todo em cima de velocidade – com intervalados de sobra e tempo runs até não poder mais. Foi cansativo e intenso – mas gerou o meu recorde pessoal de 3h38. Nada de espetacular, devo assumir, embora importante para mim.

Foi nessa época que, ao garantir tempo para a baia C da Comrades, comecei a treinar para a ultra. Matei os intervalados e fartleks e me concentrei apenas em morros e tempo runs. Depois, na medida em que o tempo na rua subia, acabei trocando as tempos por volume. Resultado: minha velocidade despencou.

Fiz Comrades dentro da minha meta de sub-11 mas senti que poderia ter me saído melhor.

Quando voltei para Sampa, voltei a dar mais atenção a velocidade. Um treino específico na planilha me “acordou”, por assim dizer: 1 hora em pace de maratona.

Bom… no meu caso, isso significava algo na casa dos 5’/km – pelo menos de acordo com o tempo de Chicago. Mas quem disse que consegui? Se muito, mantive esse ritmo por 10 minutos antes de quase engasgar na respiração!

A meta estava, portanto, definida. Não sabia em quanto tempo, mas definitivamente precisaria recuperar a velocidade que se perdeu nos treinos de ultra.

Já cheguei a comentar sobre isso no último post, mas o fato é que estou me esguelando em treinos duros, fortes. E não é que eles estão dando resultado mais rapidamente do que o imaginado?

Hoje saí para quatro tiros de 6 minutos (algo que beira uma tempo run). Como tenho prova no domingo, a ideia era não me matar e pegar mais leve.

Olhei para o relógio em um dos tiros: estava a 4’30″/km praticamente sem alterar a respiração! De alguma forma, talvez magicamente, alguma parcela da velocidade parece ter voltado às pernas mesmo com apenas um mês de treino intenso!

Nos tiros seguintes, a mesma constatação. Estava bem, inteiro e, ao menos pelos parâmetros pós-Comrades, veloz.

Por outro lado, meu volume semanal caiu para a casa dos 65km, ao menos por enquanto. Isso será um problema?

Dado que ainda restam 2 meses para o DUT, tudo aponta para um “não”. A princípio, tenho tempo para ganhar volume e essa recuperação de velocidade deve ser mantida em uma espécie de equilíbrio que não sacrifique nenhum dos dois elementos.

Sempre ouvi dizer que corredores de ultra são lentos por natureza. Mas talvez isso não seja exatamente verdade. Talvez seja apenas uma questão de saber dosar bem o treinamento, algo que realmente fica mais difícil na medida em que os quilômetros se alongam.

Difícil, no entanto, sempre esteve longe de ser impossível. Não é?

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