Descansar sem dormir

Depois de dias seguidos nas ruas e trilhas, o corpo sente.

Hoje acordei dolorido, com o cansaço arrastando as suas unhas pelas pernas, costas e pálpebras. Por uma infelicidade de agenda arrumei uma reunião extremamente cedo, o que significa que meu “day off” teve apenas 6 horas de sono.

Suficiente para embalar o resto da semana? Difícil afirmar que sim. Mas, quando não há solução, não adianta haver também estresse pela sua falta.

Hoje o corpo precisará se recuperar em horas úteis, em meio a prazos apertados, clientes, propostas e os conflitos internos cotidianos que definem qualquer vida corporativa.

Hoje o corpo não poderá contar com horas de sono concentrando o poder mental inconsciente na recuperação muscular.

Hoje o próprio sono terá que dar um jeito de sair antes que sua falta acumule ainda mais cansaço.

A semana, afinal, será longa e está apenas começando.

Hora de trabalhar.

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Day off não programado

Há dias em que a planilha perde.

Hoje tinha uma tempo run de 20 minutos em meio a um treino de 1h programado. Tinha.

Depois de três semanas de escadinha no volume, incluindo um longão de pouco mais de 4h no domingo e uma sessão intensa de tiros ontem, meu corpo implorou por uma folga.

E, verdade seja dita, essa semana é mais leve mesmo, com aquela queda em tempo de rua desenhada para evitar a sobrecarga.

O problema é que a sobrecarga veio antes: acordei cheio de dores e com uma vontade incontrolável de dormir mais um pouco. Cedi.

Ouvir o corpo significa também saber separar a preguiça da necessidade de mais descanso. Como a de hoje.

Tirei o dia de folga e matei uma corrida da semana.

Como viajo amanhã cedo para Paraty, treino agora só na sexta. Sob o sol da serra e a vista do mar.

Tudo bem: certamente dará para compensar lá, encaixando um pouquinho mais de tempo em um cenário que faz o tempo passar desapercebido.

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Aprendendo com a gripe

A noite de anteontem para ontem foi infernal: acordei duas vezes com febre, depois suei até quase me afogar e cultivei uma dor de cabeça sem paralelos. Tudo bem: sexta era dia de descanso, tempo suficiente para eu me recuperar.

Como já há “feriados” demais em época de Copa, faltar ao trabalho não era uma possibilidade.

Fui. Com menos roupa do que deveria, diga-se de passagem.

Aguentei a manhã com frio e dor de cabeça, mas sem febre. Bom sinal: a gripe estava indo embora.

Mas aí chegou a tarde e o corpo voltou a ficar mole, lento, lerdo. E com frio.

Voltei para a casa e me enfiei nas cobertas, tomando a dose esperada de Naldecon e torcendo. Sábado – hoje – seria dia de longão. E nunca perdi um longão antes.

No dia seguinte, acordei sem despertador. A noite não foi exatamente tranquila – mas foi sem dúvidas melhor. A cabeça doía um pouco, parecendo pesada, e algumas levíssimas dores articulares se faziam presentes.

Hora de sair.

Sob os protestos da família, me transformei de doente em corredor e saí para os planejados 20K. Que poderiam se transformar em 15, se necessário fosse.

Comecei forte, abaixo dos 5min/km: queria provar ao corpo que quem mandava era a mente. Afinal, não é isso que sempre aprendemos nos treinos de ultra?

Até certo ponto, funcionou: a dor de cabeça sumiu, o nariz se descongestionou e o pulmão estava amando o passeio para fora do ar infecto do quarto. Estava no paraíso, feliz: mas por apenas 2km.

De repente, todas – todas – as articulações começaram a doer. Músculos se contraíram por conta própria, joelhos deram sinais de vida, tornozelos começaram a gritar!

De onde saíram tantas dores justamente na única parte que, em tese, deveria ter ficado isenta de problemas: os músculos? E com 2km – menos do que costumo usar como aquecimento!

Nos 2,5k, já me sentia como no final de uma ultra. Era pura dor.

Aparentemente, o corpo estava fazendo greve. E era melhor ouvir sob o risco de transformar teimosia em lesão.

Me arrastei até o marco dos 3k. Dei meia volta, desistindo do percurso original, e segui para casa. No caminho, a cabeça voltou a doer, tosses deram facadas no pulmão e as dores articulares pioraram. Até um pouco de câimbra senti.

A greve do corpo funcionou e a mente entendeu, se entregando.

Voltar esses míseros 3km foi uma das tarefas mais árduas que já fiz, tamanhas as dores. Mas voltei. Cheguei em casa. Desabei.

Agora, enquanto escrevo este post, todas as dores parecem ter evaporado por completo: músculos estão normais, pulmão a todo vapor, cabeça inteira. E isso porque só voltei há 20 minutos!

A pergunta que fica é: como é possível tantas alterações no corpo em tão pouco tempo? Se há uma explicação fisiológica – e provavelmente há – eu não sei.

Mas há uma lição que eu já deveveria ter aprendido faz tempo: correr longas distâncias não é fazer mente guerrear com corpo, mas sim buscar uma sintonia quase espiritual entre eles.

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