Usando a água como remédio

Uma das coisas que acabamos procurando em períodos mais intensos de treino, quase que de forma involuntária, é receita para diminuir as dores musculares. 

Nunca fui muito de tomar remédios ou mesmo suplementos alimentares: meus hábitos são, em geral extremamente naturais. Mas as circunstâncias acabaram adicionando ao rol de viabilidades uma piscina aquecida de 25m. 

E, assim, meio sem querer, acabei dando um mergulho em um dia qualquer. Dei umas braçadas aqui, outras ali – todas relembrando os tempos em que eu passava meus finais de tarde nadando no Porto da Barra, em Salvador, e me jogando na cara que estava absolutamente fora de forma enquanto peixe. 

Tudo bem: natação não é meu esporte. Aquilo era só uma bem vinda brincadeira. 

Era? 

De repente, sair da piscina foi como ter tomado um analgésico ultra poderoso. 

Aí, como que querendo repetir o efeito, comecei a acrescentar a piscina como rotina pós treino. 

Como da primeira vez, funcionou. Assim como da segunda, da terceira, da quarta. 

Em paralelo, tenho melhorado também a resistência dentro da água, ainda como que por força crescente de um hábito que está sendo desenhado apenas para amenizar as dores. Belo efeito colateral. 

Além disso, fazer umas braçadas depois de um dia intenso relaxa corpo, mente e alma como poucas coisas na vida! 

Checkpoint: Voltando às raízes

Talvez o título do post não esteja exatamente correto: quando comecei a correr, o fiz para perder peso, ganhar saúde e permanecer vivo. Simples assim. 

Mas, em um determinado ponto, provavelmente como todo corredor, comecei a perceber que correr nos dá a bênção de testemunhar todo um mundo à nossa volta, de desbravar os lugares mais afastados e descobrir os mais próximos. Essa descoberta pode não ter sido o que me fez levantar cedo nos primeiros dias, mais de 12 mil quilômetros e 3 anos atrás – mas certamente foi o que me fe começar a me divertir. 

Essa semana foi sobre isso. 

Refazendo planilhas para ajustar corpo a teoria, com a próxima prova ainda distante no calendário, mergulhei em audiobooks e em cenários diferentes com um poder de concentração que há tempos não me visitava. 

Na terça e quarta corri ao som de V. S. Naipaul, ouvindo história atrás de história passada na África colonial e decisivamente quebrando qualquer forma de barreira de tempo e espaço.

No feriado de 9 de julho corri pelo centro velho – sempre um prazer inenarrável pelo mundo de contrastes que oferece – e terminei quase no meio de um desfile militar para comemorar uma revolução que, verdade seja dita, nunca aconteceu de fato. 

Ontem voltei ao centro e o fiz de cabo a rabo, passando pela região da bolsa, pelos prédios de um passado glorioso que não mais existe, pelo marco zero nos tempos dos jesuítas, pela Pinacoteca, pelo pedaço do Japão no Parque da Luz. Foi uma das melhores corridas que já tive na vida tamanhas as possibilidades de me perder pelos pensamentos escondidos nos olhares e tijolos com os quais me defrontava. 

E hoje… bom…. hoje, um dia de sol e céu azul descendo com um manto de manhã sobre uma rua molhada, posso dizer que cheguei ao limite do que meu corpo estava preparado. Nem cheguei a completar a volta ao Ibirapuera: voltei antes, temendo as dores que pareciam insistir e castigar as pernas e ameaçar algo mais sério. E, apesar de ter acumulado uma quilometragem baixa perto do que estou habituado – pouco a mais de 70km – voltei bem. 

Voltei com aquela sensação de redescoberta, de saudade da rua e das trilhas, de ímpeto de traçar novos planos para os próximos longões. E me reconfortando também com o fato de que, afinal, estava ainda voltando à forma depois de duas ultras fortes em menos de 30 dias. 

Até por tudo isso, foi uma surpresa me deparar com o gráfico abaixo, mostrando que fiz minha melhor meta de pace semanal desde o começo do ano. Se divertir faz milagres.