Entre as cores do Ibirapuera

Há dias em que o protagonismo fica inteiramente com o sol.

Em algum momento do final da tarde de ontem, chuvas súbitas apareceram para limpar o céu daquele véu de poluição cinzenta que geralmente acompanha climas secos. Funcionou.

Hoje pela manhã, quando cruzei o portão do prédio, o dia estava parecendo baiano: azul forte contrastando com verdes super saturados nas árvores e pontuado por um vazio preguiçoso nas ruas, típico das primeiras horas.

A endorfina nem precisou esperar os primeiros passos para correr pelas veias: ela me carregou de casa até o Ibirapuera, ao longo do percurso e de volta ao ponto de partida. Os 5 tiros de 1 minuto que tinha programado, aliás, viraram 9 – e sem nenhum tipo de exaustão resultante, diga-se de passagem.

O parque, por sua vez, estava ainda mais fenomenal do que a rua: colorido, cheio de si mas com aquela suavidade típica das manhãs.

Pensei um pouco: era a minha primeira corrida de dezembro. Ainda que extraoficialmente, o mês, o céu e o calor indicavam que já estávamos no tão esperado verão.

Hora de começar a fechar um ciclo, um ano, de aguardar a bem vinda calmaria e de começar a mesclar pensamentos do passado com planos de futuro.

Hora de começar a desacelerar a mente.

Hora de tomar ar, de se reenergizar.

Hora de dar um pouco mais de tempo ao tempo.

2014 está, finalmente, acabando.

E, verdade seja dita, não poderia haver dia melhor para inaugurar esse fim de ano do que hoje, entre o azul cintilante e o verde abundante do Ibirapuera.

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Trilha Urbana: Da Sé ao Ipiranga

No domingo passado, decidi mudar a rotina e correr pelo centro da cidade – mais precisamente pela região da Pinacoteca e Luz. A experiência em si foi tão incrível que decidi repetir a dose no longão deste último sábado, alternando apenas o roteiro para desbravar um pouco mais dessa cidade que eu tanto amo.

Pois bem. O começo foi uma subida direta da Bela Cintra até a Paulista, cruzando-a, pegando a Consolação e descendo em direção ao centro velho. A primeira meta era o Teatro Municipal, um dos mais belos prédios da cidade e que logo foi alcançado. Dei uma volta, momento no qual um certo orgulho bateu por viver aqui.

Municipal

Teatro Municipal

Olhei o roteiro programado na noite anterior e segui em direção ao Viaduto do Chá, um dos símbolos da industrialização da cidade. Mais um pouco e me deparei com o antigo prédio do BANESPA, próximo à prefeitura, que se erguia em meio a outros arranha-céus sóbrios no estilo Gotham City.

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Prédio do BANESPA

À minha frente se estendia o Mosteiro de São Bento, um dos palcos de tantos eventos históricos que São Paulo já abrigou. Assim como boa parte do centro, seu estilo quebrava a paisagem de prédios gigantes contrastando com mendigos nos chãos. Muitos mendigos, aliás.

Mosteiro

Mosteiro de São Bento

A outra parte do centro, que fiz no domingo passado, era tomada por putas, cafetões e viciados; esse parecia reduto dos moradores de rua. Mais calmo e menos perigoso – mas decididamente mais decadente.

Próximo ao Mosteiro, a paisagem muda completamente: entra-se no Pátio do Colégio, marco zero de São Paulo e cercado por uma antiga igrejinha e muitas casinhas coloniais antigas, algumas inteiras, outras cedendo ao tempo.

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Pátio do Colégio

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Região do Pátio do Colégio

Mais um pouco e, de repente, o cenário muda de novo. Dessa vez, ergue-se à minha frente a majestosa Catedral da Sé, com palmeiras formando uma espécie de caminho santo e mais mendigos fazendo do solo as suas casas.

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Catedral da Sé

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Região da Sé

A beleza e a tristeza parecem conviver em uma harmonia quase intrigante no centro. Faz parte do roteiro, acredito.

Da Sé, era hora de tomar uma reta e mudar de zona. Segui ladeira abaixo e acima, passei por uma parte do bairro da Liberdade e continuei.

Liberdade

Liberdade

Meu destino era o Ipiranga, um dos mais antigos bairros onde dois marcos se apresentam: o riacho onde a independência do Brasil foi decretada por D. Pedro I e o Palácio impressionante erguido às suas margens.

No caminho – uma avenida inteiramente margeada por árvores e com alguns casarões antigos – o Palácio já pode ser visto. Amarelo, longo, imponente, ele deixa clara a força da realeza que um dia habitou por essas terras.

Na chegada do Parque da Independência, um monumento belíssimo, onde parte dos restos mortais de D. Pedro I descansam (apenas o seu coração está fora, na cidade do Porto), pontua a paisagem. Pontua não: exclama. Alto.

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Monumento da Independência

Ele abre caminho para um parque incrível, muitissimamente bem conservado, que se estende até as escadarias do palácio. Percorri o parque, entrando em uma de suas laterais para ver uma casinha de pau a pique bem antiga que parecia perdida por lá. Pelo que li, era uma venda usada por tropeiros (e pelo próprio Imperador) quando vinham para São Paulo. À época, nada daquilo era parte de um centro urbano: a cidade estava longe ainda, lá pelos lados da Sé que, a essa altura, já estava a quilômetros de distância.

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Casa de Pau a Pique no Parque da Independência

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Palácio do Ipiranga

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Palácio do Ipiranga

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Palácio do Ipiranga

Voltei da casa e subi as escadarias. Ao fundo do Palácio há uma pequena trilha margeada de bambus – algo quase exótico de tão contrastante. Peguei a trilha, respirei fundo e deixei o Ipiranga.

Meu destino agora era a Aclimação.

Todo aquele local é recheado de morros: de repente, subidas íngremes e descidas fortes viraram comuns. Planos eram inexistentes, bom para o condicionamento e para o treino.

Depois de subir, descer, subir e descer, cheguei no Parque da Aclimação. Um oásis com um lago no meio e uma quantidade de verde tão intensa que, por um minuto, esquece-se de que se está no meio de uma das maiores metrópoles do mundo.

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Parque da Aclimação

Lá no Parque, uma inconveniência: a bateria do meu celular acabou, levando consigo o mapa que me guiava. Tudo bem: estava agora dependente das placas de sinalização.

Confesso que me perdi um pouco nas ladeiras mas, depois de algum tempo, fiz meu caminho de volta pela Paulista e até a minha casa.

Estava finalizada a trilha. E quer saber? Recomendo a todos. Há tantos segredos nas grandes cidades, tantas paisagens que acabamos ignorando por hábito que um pouco mais de atenção acaba sendo até mesmo inspiradora.

Deixo o meu trajeto abaixo para quem quiser – mas com um pequeno alerta: por algum motivo, o Strava teve problemas e me “roubou” 2,5km no começo. Perceba que o ponto de largada e de chegada estão distintes no mapa quando, em realidade, foram o mesmo local. Bom… é só considerar a chegada como ponto de largada e um total percorrido de 22,5km, aproximadamente.

Strava

22,5km de muita, muita inspiração deixada nas ruas de Sampa.

Checkpoint semanal: Velocidade, tempo e centro

De vez em quando, uma semana de treino acaba se transformando em um período de descobertas.

Apesar de não ser obcecado por pace, notei que estava lentamente diminuindo minha velocidade média na medida em que passava mais e mais tempo nas ruas. Até aí, nenhum problema: aproveitar é o verbo mais importante quando se corre, ao menos em minha opinião.

Mas aí algo diferente aconteceu: juntamente com a perda de velocidade veio um desnecessário aumento do cansaço. Ou seja: estava correndo menos e cansando mais, uma combinação decididamente ruim.

Aí decidi ouvir – finalmente – o meu treinador.

A contragosto, diminui o tempo na rua e aumentei a velocidade por meio de mais tempo runs e intervalados. Ainda estou na primeira semana dessa mudança – mas os efeitos já estão acontecendo.

Fato: tenho voltado exausto das corridas em dias de semana – mas mais motivado, como se cada minuto tivesse valido mais a pena.

Faltava alguma coisa, no entanto: algo que me fizesse aproveitar mais nos momentos mais livros – os finais de semana.

Bom… no domingo passado, mudei o percurso tradicional e me mandei para o centro de São Paulo, rodando Pinacoteca, Luz e toda uma gama de prédios belíssimos e históricos. Foi como fazer turismo em minha própria cidade, com tempo e disposição. Amei.

Repeti a dose ontem, no sábado, só que fazendo uma outra parte do centro e indo até o Palácio do Ipiranga. Foi um longão memorável, daqueles que transformam corridas em passeios intensos. E esse veio com um bônus: descobri que o centro de São Paulo é quase uma cordilheira: a quantidade de morros, tanto pela região da Sé e seus vales quanto pela Aclimação, entre o centro e o Ipiranga, delineiam o perfil perfeito para se treinar em subidas e descidas.

Hoje voltei ao centro, fazendo uma mescla mais livre do percurso e incluindo Sala São Paulo, Sé, Municipal e região da Bolsa de Valores. Rodei por algumas ruas novas e desconhecidas por mim, repletas de casarões incríveis, e voltei pela Consolação. Tudo novo, visto sob uma ótica diferente.

Já disse isso antes e repito: recomendo a todos. Sair da rotina é simplesmente necessário de vez em quando.

E vejam só: no final de contas, ao tentar ser mais conservador no meu treino, acabei me focando em velocidade, ampliando áreas de corrida e ganhando excelentes oportunidades subindo e descendo morros. Perfeito, não?

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Ultra Estrada Real: Para quem já se inscreveu

Bom… estamos crescendo em número de inscritos na Ultra Estrada Real, o que obviamente me deixa com um sorriso de orelha a orelha. Essa “prova”, afinal, nasceu como uma simples ideia de ter um percurso bacana para correr por alguma distância interessante. Nunca pensei que tantos amigos fossem se interessar por ela – e esse grupo que está se formando mostra como o espírito de aventura domina todo o esporte.

Bom… tendo dito isso, devo assumir que estou em débito com todos os que preencheram a “inscrição”: não mandei nenhum email ou dei qualquer tipo de retorno.

Explico: ainda temos um longo tempo até abril e estou correndo atrás de algumas coisas que possam facilitar a vida dos corredores e amigos que se juntarão ao grupo.

Na medida em que a data for se aproximando, mandarei mais informações e contatarei cada um dos participantes para que possamos organizar melhor toda a corrida.

Enfim, esse post é mais para manter todos na mesma página e me desculpar pela falta de retorno.

Vamos que vamos: estamos fazendo juntos uma prova que considero modelo, desenhada pelo puro amor a esse esporte e percorrida por uma comunidade de futuros grandes amigos!

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Ultra Estrada Real: Informações importantes para quem for se inscrever

Fui checar hoje a planilha de inscritos na Ultra Estrada Real e tomei um susto: já somos em 15! Um número BEM alto principalmente se considerarmos que estamos ainda em novembro – MESES antes da prova.

Como comecei a receber alguns questionamentos de corredores interessados sobre a infra, tempo limite etc., decidi fazer esse post para garantir que todos estejamos na mesma página. Vamos lá:

A Ultra Estrada Real é uma prova independente e autosuficiente. Isso significa que:

  1. Tanto largada quanto chegada serão estabelecidos com base em marcos já existentes nas duas cidades (Santa Bárbara e Ouro Preto, respectivamente)
  2. Não há postos oficiais de controle e apoio. Há cidades ao longo do caminho onde os corredores poderão comprar, à vontade, os suprimentos que julgarem necessários.
  3. Não há controle oficial de tempo, chip, kit, camiseta, número de peito, medalha ou prêmio.
  4. Muitos corredores estão oferecendo carros, equipe de staff etc. Toda ajuda é bem vinda e certamente será muito útil no dia. Mais adiante organizaremos melhor as “contribuições”.

O que isso tudo quer dizer? Que essa prova é feita sem nenhum tipo de finalidade comercial e apenas para todos vivenciarmos uma ultra em um percurso incrível, histórico e belíssimo. Estamos lidando aqui com corredores apaixonados pelo esporte, não com consumidores.

Não é por outro motivo que não há taxas envolvidas ou promessas que vão além de uma experiência memorável.

Quem quiser vir será mais do que bem vindo.

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Trilha urbana: desbravando São Paulo

Ontem, com um pouco mais de tempo nas mãos para fechar a minha meta da semana, decidi criar um domingo diferente. Por que percorrer a mesma rota de sempre se eu poderia, afinal, desbravar um pouco mais de São Paulo em um domingo preguiçoso, calmo e perfeito para correr? Essa cidade é tão incrível e tão cheia de contrastes, afinal, que chega a exigir um pouco mais de atenção focada, do tipo que não se desfaz com buzinas ou distrações frugais.

Pois bem: vamos, então, ao centro.

Comecei subindo a Bela Cintra e cruzando a Paulista. Minha meta era chegar até a Estação da Luz e a Pinacoteca, rodar um pouco pela região e voltar. Simples assim.

Continuei pela Bela Cintra no sentido centro e troquei de via até a Consolação. No caminho, alguns mendigos se mesclavam com aquele cenário cinza de igrejas e praças cuidadosamente decadentes da região.

Igreja da Consolação

Igreja da Consolação

Entrei um pouco por algumas vielas, subindo escadarias só para sentir mais o local e, depois, voltei para a avenida. Prossegui ladeira abaixo.

Em um momento, acabei entrando na Ipiranga onde, ao fim, a Estação da Luz se estendia como uma linha de chegada. Belíssima de longe e de perto, assustadora a média distância. A estação em si é bem cuidada mas, aos domingos, mendigos, traficantes e prostitutas fazem de lá uma espécie de ponto de encontro para passar o tempo e discutir irrelevâncias. Seus risos altos atravessavam os fones de ouvidos e seus olhares eram ácidos, acostumados a meter medo. Tudo bem: era só seguir reto.

Estação da Luz

Estação da Luz

Atravessei a cena e margeei a estação até entrar no Parque da Luz, uma espécie de oásis verde em pleno centro feito de lagos, bosques e estátuas que servem de lar para inúmeras espécies de pássaros. Apesar de pequeno, é sem dúvidas um dos mais bonitos e bem cuidados parques de São Paulo.

Parque da Luz

Parque da Luz

Fui pela trilha que o circunda, driblando alguns japoneses tirando fotos, mães passeando com seus bebês e, vez por outra, algum corredor perdido. Do lado de fora, uma fila imensa se formava para entrar em uma exposição nova na Pinacoteca, outra jóia do centro que salta aos olhos.

Entre a fila e o prédio, fiquei com o prédio. Corri olhando cada coluna e detalhe arquitetônico, imaginando tudo o que já havia se passado por ali e o tanto de contraste que, hoje, ele leva ao centro velho.

Pinacoteca

Pinacoteca

De lá, saí do parque e voltei à região da estação. Desta vez, no entanto, entrei correndo por ela, atravessando-a por dentro e sentindo um pouco do clima dos que estão indo e vindo de algum lugar qualquer.

Na saída que escolhi, a Estação Júlio Prestes, que hoje abriga a Sala São Paulo, me puxou como um ímã. Segui pelas bordas de um terreno baldio pontilhado por prédios abandonados e – novamente – sob os sons das putas e cafetões. A polícia revistava dois suspeitos em uma das esquinas – o que me fez preferir outra. Ignorei um pouco a cena.

Corri, corri e cheguei ao incrível prédio.

Lindo, de uma branquidão pulsante, imponente, exalando orgulho.

Estação Julio Prestes

Estação Julio Prestes

Hora de voltar para casa.

Na busca por alguma placa que indicasse o melhor caminho, acabei me deparando com o Minhocão – uma avenida suspensa que corta parte do centro e que foi responsável por uma desvalorização quase hedionda de toda a região. Aos domingos, no entanto, todo ele fica fechado para trânsito e é usado por ciclistas, corredores e famílias de uma maneira geral.

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Subi boa parte dele até cair, novamente, na Consolação, já próximo de casa. À minha direita estava o Mackenzie e, alguns metros depois, o cemitério. Versão paulistana do cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, as esculturas fúnebres são facilmente visíveis pelo topo dos muros. Quando pensei em entrar, já era tarde: estava já adiantado demais e voltar não valeria à pena.

Cemitério da Consolação

Cemitério da Consolação

Entrei em seguida em um dos principais cartões postais da cidade, a Avenida Paulista. Como precisava ainda fazer alguns quilômetros, rodei até quase metade dela, na frente do MASP.

Avenida Paulista

Avenida Paulista

Entrei no pequeno Parque Trianon, um outro oásis perdido e muitissimamente bem cuidado que colore um pouco a capital. Cruzá-lo foi rápido: são poucos metros de extensão percorridos em calçadas de pedras portuguesas e pontilhadas com pequenas casas antigas.

Parque Trianon

Parque Trianon

A partir daí, foi só descer um pouco da 9 de Julho, pegar a Lorena e seguir de volta até a Bela Cintra.

A trilha urbana de 15km, composta por prédios antigos, zonas degradadas, parques e muita história estava terminada. E, sem sombra de dúvidas, foi uma corrida muito mais memorável do que qualquer bate-volta normal pelo Ibirapuera ou outra rota mais cotidiana.

Ainda faltou ver muita coisa: não passei pela Sé, pela zona da Bolsa de Valores, pelo Pátio do Colégio ou Mosteiro de São Bento. O centro de Sampa é tão grande quanto a cidade – o que acaba nos fazendo deixar sempre alguma coisa para uma próxima vez.

Que bom: certamente haverá muitas próximas vezes.

(Para quem quiser conferir, meu percurso inteiro está abaixo):

Trilha Urbana por São Paulo

Trilha Urbana por São Paulo

Checkpoint: fim de ano à vista

O ano está acabando.

Isso começa a ficar nítido na medida em que semanas são encurtadas e confraternizações começam a aparecer no calendário.

Sim: estamos em novembro ainda. Mas as próprias decorações de Natal alinhadas por qualquer percurso que se escolha deixam claro que 2015 está querendo – e muito – chegar.

Essa semana foi diferente.

Com viagens na segunda, sexta e sábado, consegui apenas espremer 4 corridas. Compensei aumentando a distância – mas os caminhos que escolhi, incluindo uma trilha súbita lá em Joinville e outra urbana, hoje cedo, aqui em Sampa, não privilegiaram pace. Meu treinador provavelmente brigará comigo, mas não me arrependo.

Ironicamente, a semana curta me fez saboreá-la mais e sentir melhor cada passo dado na rua.

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Uma trilha súbita

Dizem que, quando começamos a nos interessar por algo, os olhos ganham uma espécie de agudeza quase sobrenatural para localizar o que a mente mais deseja.

Faz sentido: os olhos, afinal, são grudados à imaginação e tem por objetivo nos guiar pelas manifestações físicas do que ela concebe em seu estado quase onírico de liberdade constante.

Correr em trilhas é um exemplo perfeito disso.

Quando sequer se sabe da existência desse esporte, trilhas parecem coisas distantes e exóticas, encontradas apenas em filmes de aventura ou fotos de revistas. A vida, afinal, acontece na cidade.

No entanto, basta despertar o interesse que descobrimos que mesmo os centros mais urbanos tem um pouco de selvageria escondida. É só saber procurar.

Foi o que fiz hoje cedo, quando acordei antes dos primeiros raios do sol aqui em Joinville, Santa Catarina.

Vim a trabalho ontem e acabei dormindo na cidade, o que sempre é uma boa oportunidade para explorar um pouco o desconhecido. Das últimas vezes que estive aqui acabei percorrendo circuitos tradicionais: a Beira Rio, a volta do Batalhão etc. Tudo tediosamente pacato, organizado e tão simples quanto uma esteira.

Hoje teria quase 2 horas para mim – tempo de sobra para sair do lugar comum.

A primeira coisa que fiz foi olhar o Google Maps: lá, no final da XV de Novembro, parecia haver um morro; havia um ponto no meio dele – possivelmente um mirante ou uma torre de TV; e o caminho certamente não era asfaltado, ao menos não no todo. Perfeito.

Ainda antes do sol nascer, em uma manhã sufocada por núvens e uma permanente ameaça de garoa, parti quebrando o silêncio com as passadas.

Levei o tempo necessário para aquecer: estava cedo e não adiantaria muito entrar na montanha com tudo escuro. Fui leve, passeando pela cidade adormecida e cruzando ruas vazias como se o tempo estivesse pausado.

Até me deparar com o morro.

De início, havia uma rua íngreme, com paralelepípedos se perdendo em meio a um matagal fechado e úmido.

Subi alternando trotes com caminhada. Faz algum tempo que caminhar deixou de ser palavrão para mim: normalmente, o ato em si significa que estou em alguma trilha, ladeira ou ambiente que precisa ser degustado sem pressa. Pace perde relevância nesse esporte.

De repente, a rua se fundiu com uma estradinha de terra. Continuei.

A estradinha cedeu lugar a uma trilha pequena, meio sinuosa e em subida constante. Segui.

Não dava para dizer que a vista estava incrível: quanto mais eu subia, mais espessa ficava a neblina. Em um ponto, a visibilidade não passava de 2 ou 3 metros.

Ao redor de mim só sons de pássaros, folhas se batendo contra o vento e cheiros do verde molhado. Estava já claro e a umidade abafada formava um clima absolutamente tropical.

A cidade já começava a despertar a apenas 20 ou 30 minutos de mim – mas parecia que eu estava no meio de uma floresta perdida no mapa.

Era um outro mundo, exatamente o tipo de escape que eu buscava para exercer a solidão.

Em um dado momento cheguei ao cume: um fim de linha sem vista ou beleza excepcional, marcado pelo que de fato era uma torre de TV.

Tudo bem: a missão do dia estava cumprida e o tênis, enlameado e quase irreconhecível, parecia feliz.

Voltei voando morro abaixo, parando apenas para tirar algumas fotos e tomando o rumo do hotel.

Entrei novamente na civilização, que agora já continha alguns carros e pessoas dando movimento ao cenário, e cruzei por ruas e avenidas.

A vida havia retornado à sua normalidade urbana. Estava de volta à realidade, exalando um intenso agradecimento tanto à mente, por ter demandado esse escape, quanto aos olhos, por ter achado o caminho.

Ter conseguido fugir do asfalto e me ver em meio a uma “súbita floresta”, mesmo que por um punhado de minutos, foi como ter um instante surrealista traçado com as pálpebras abertas.

O que mais se pode esperar das trilhas?

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