O silêncio das primeiras horas

Há algo de melhor, de mais intenso, em correr antes do sol raiar.

Acordar já é algo diferente, com o despertador interrompendo a escuridão absoluta e iniciando aquela batalha entre os impulsos de levantar e de permanecer deitado. Mas é a única batalha existente nessas primeiras horas.

Uma vez de pé, o silêncio volta a reinar.

Na rua, os poucos carros que passam parecem cortar delicadamente a cena absolutamente congelada. Os primeiros passos dão a impressão de estarmos correndo em uma pintura, com tudo cuidadosamente colocado em seus lugares.

Só a respiração parece se mover, puxando consigo aqueles primeiros pensamentos do dia. Fatos do ontem, decisões do hoje e hipóteses do amanhã vão se misturando em um caldo único, espesso, guiados por batimentos cardíacos em aceleração.

Decisões imediatas de menor peso – como achar um portão de acesso ao parque aberto a essa hora – começam a fixar o dia em um presente menos complicado e mais corriqueiro, simples. Até que tudo parece corriqueiro, incluindo pensamentos sobre os pensamentos dos outros poucos corredores que desenham essas primeiras horas escuras do dia, a leve irritação de não achar água nos bebedouros secos da cidade seca, da decisão sobre fazer ou não um cotovelo no percurso e prolongar, em alguns metros, a rota do dia.

Então, depois da densidade e da leveza, vem uma espécie de nada. Puxado por doses mais generosas de endorfina, há um buraco cerebral que sempre aparece nos momentos em que o piloto automático é ligado durante uma corrida. Nunca consigo me lembrar do que passou em minha mente nesses instantes de nada – mas sempre fico com uma espécie de saudade dele no minuto em que o primeiro pensamento qualquer interrompe a paz.

Hoje, naquelas horas escuras do Ibirapuera, o nada foi tão forte que me roubou da memória trechos generosos do percurso. Para falar a verdade, ele durou até a subida da 9 de Julho, quando costumo dar um último tiro na volta para casa.

No total, 11km foram finalizados ainda no escuro, com apenas um ou outro raio de sol mais ansioso querendo aparecer.

O silêncio, no entanto, permaneceu por mais alguns instantes: todos em casa ainda dormiam quando entrei. Fiz café, preparei as roupas da escola da minha filha, tomei banho, me arrumei.

Não dá para dizer que consegui chegar no nada de novo – mas deu para respirar mais fundo, liberando a energia acumulada nas ruas. Deu para descansar do descanso ativo, por assim dizer.

E começar melhor confusão natural de um dia de trabalho na capital paulista.

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Instituto Estrada Real entregará certificados de conclusão da Ultra

Todo mundo quer uma lembrança de algum marco importante da vida. E ultras, claro, são marcos – por mais experiente que seja o corredor.

No planejamento da Ultra Estrada Real, ter alguma coisa mais tangível para os concluintes é, sem sombra de dúvidas, “o” principal assunto nos emails que tenho recebido. E, por mais que deixemos claro que se trata de uma ultra independente, de um treino entre amigos, esse desejo permanece.

Procede. Eu também compartilho dele. Essa ultra, afinal, nasceu aqui no blog quase que como acidente e passou a somar dezenas de corredores – incluindo alguns dos meus ídolos nas longas distâncias.

A questão é: como organizar coisas como medalhas que, além de caras, demandam equipe para distribui-las e toda uma mecânica de controle?

Aparentemente, uma luz no fim do túnel apareceu graças à iniciativa de um dos corredores, o João Fialho, que fez a ponte com o Instituto Estrada Real.

Na semana passada eles me contataram com uma oferta perfeita: dar a todos os concluintes um certificado de participação da Ultra com a chancela do Instituto. E, como eles tem um escritório em Ouro Preto, a “entrega” fica muito, MUITO facilitada.

Ainda temos um série de detalhes a combinar – incluindo uma data limite de entrega da planilha de inscritos, que deve ocorrer até o final de março.

Mas, de toda forma, já há uma boa notícia: aparentemente, alguma “lembrança” haverá para guardarmos :-)

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Fechando uma semana decisiva

Semana pós-ultra costuma ser leve, sem muita intensidade para permitir que o corpo descanse e se recupere.

Não essa.

Seguindo a resolução de trabalhar mais a velocidade, até diminui o volume (embora mais por questões de trabalho que mataram o longão de ontem) – mas aumentei o ritmo.

Durante a semana, os paces médios nas tempo runs e intervalados – mesmo incluindo os semáforos que sempre atrapalham a vida – ficaram na casa dos 5’20″/km. Hoje saí para um longão de 21Km com mochila de hidratação cheia, somando quilos extras, e mantendo a meta de ficar abaixo dos 6’/km. Funcionou.

Com isso, essa semana de descanso acabou sendo uma espécie de redescoberta de um estilo de corrida onde velocidade conta tanto quanto volume. Costumo ser reticente quanto a isso dado que gosto – e muito – das horas passadas nas trilhas. Mas horas virão naturalmente: tudo é questão de aliar distância e percurso perfeitos.

O domingo, portanto, está bem fechado.

É tempo de aplicar esses ajustes no treino às próximas semanas – afinal, o calendário do primeiro semestre está mais que repleto de metas!

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O sábado que fecha um capítulo (e abre outro)

Faz tempo que não descanso em um sábado. Normalmente não curto isso: é um dia inteiro que considero perdido não apenas sob o aspecto do treino, mas (talvez principalmente) pelo bem que ele me faz ao proporcionar horas perdido nos próprios pensamentos e por caminhos diferentes da cidade.

Mas hoje, verdade seja dita, a realidade é outra.

Hoje estou encarando esse descanso mais como uma espécie de marco de diferentes fases de treino. Quando se coloca uma quebra mais brusca, mais radical, na rotina, se informa também ao corpo que algo está prestes a mudar – e essa informação acaba sendo vital para que ele se prepare melhor.

Hoje é como aquele momento de plena calma antes de alguma tempestade, com aqueles instantes mais elétricos em que tudo está prestes a acontecer – mas nada efetivamente acontece.

Hoje é o dia que marca o fim de um capítulo e o início de um outro, mais voltado para ganho de velocidade sem perda de endurance. Há duas ultras pela frente, afinal, e ambas ainda no primeiro semestre.

Hoje é hora de dizer ao corpo e à mente que está na hora dos dois ficarem mais sérios.

Começando por amanhã.

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A nova fase de preparação

Janeiro está sendo fechado para mim com alguma dose de orgulho (por ter concluído os pantanosos 50K no sábado) e autoconhecimento (por ter esclarecido que esse tipo de corrida não é para mim).

Às vezes apenas ter algumas coisas no currículo já são o suficiente.

Agora, no entanto, começa uma nova fase. Entre abril e junho tenho duas ultras – a Estrada Real e a Comrades – ambas com suas próprias peculiaridades. A Estrada Real será majoritariamente percorrida em trilhas, entre amigos e sem nenhum tipo de organização oficial.

A Comrades é, provavelmente, a ultra mais organizada do mundo, corrida em asfalto e com multidões torcendo pelos 87km do percurso de up-run.

A semelhança entre as duas? Ambas são relativamente velozes, o que significa que todo o meu treino agora deve se focar nisso.

Costumo fazer uma semana mais light depois de provas mais duras e essa não está sendo diferente: recomecei a correr apenas na quarta e o longão tradicional de sábado foi cancelado (embora o motivo tenha sido mais profissional do que pessoal).

Mas, ainda assim, o norte para os treinos já ficaram claros: desde a quarta tenho aumentado o ritmo sensivelmente. Mesmo em intervalados, como os que fiz ontem, a parte “light” foi quase toda acima da zona de regeneração, forçando um pouco o corpo. Coloquei uma imagem da análise de pace, feita pelo Strava, abaixo.

Hoje, não tenho problemas em passar horas e mais horas nas trilhas: a mente segura bem e o organismo resiste sem problemas. Mas, claro, ser mais rápido ajuda em uma recuperação melhor. E velocidade, sendo sincero, era algo que eu estava me dedicando menos do que deveria.

De agora até as próximas provas, portanto, que venha a intensidade!

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Para quem quiser viver (ou reviver) a Comrades 2014…

Comrades está chegando.

Tenho postado alguns vídeos e conteúdos por aqui que, a cada vez que vejo, geram aquela mescla de expectativa com ansiedade e emoção. Quem participou de alguma edição dela sabe exatamente do que estou falando; quem quer participar, por sua vez, já fica com vontade de pular diretamente para o site da prova e confirmar a inscrição.

Em um dos últimos posts, o Eduardo Neves comentou colocando o link para um vídeo-cobertura que ele fez. Curiosamente, apesar de não nos conhecermos, nós dois corremos juntos durante quase todo o percurso – o que significa que ver a filmagem dele é como reviver cada passo que eu mesmo dei no caminho de Pietermaritzburg a Durban.

Compartilhando abaixo:

Por que correr a Comrades?

Se me perguntassem isso, eu provavelmente teria dificuldade em enumerar os tantos motivos para se entregar à Rainha das Ultras. Não foi à toa, aliás, que criei todo um blog só para isso, o Rumo a Comrades, com centenas de posts ao longo do meu treinamento na semana passada.

Esse ano devo ir de novo e já está na hora de começar a aquecer os motores com conteúdo e vídeo, mesmo considerando que ainda tenho uma ultra nesse final de semana e, claro, a Ultra Estrada Real em abril.

Voltando ao cerne da questão, fizeram essa mesma pergunta para Bart Yasso, um dos editores da Runner’s World Americana, que já percorreu todo o mundo em busca de “aventuras para as pernas”, por assim dizer.

Sabe a resposta dele?

Veja no vídeo abaixo:

50K de aventura na Serra do Mar

A aventura em si começou mesmo na noite anterior: vim com toda a família para o Guarujá para que minha mulher e filha pudessem curtir a praia com mais um trio de amigos enquanto eu me embrenhava na Mata Atlântica.

Bom… por volta da meia noite – hora em que o trio de amigos chegou na praia – todas as ruas em torno do prédio inundaram e ficaram intransitáveis até as 4:00. Para ajudar, a energia também foi embora e, assim, só saberia se realmente conseguiria sair para a prova na madrugada.

Por conta desses imprevistos, acabei com a noite totalmente virada e, às 4:30, com água mais baixa e luz reestabelecida, peguei o carro e fiz o trajeto de 1h30 até a largada.

Uma observação: até aquele momento, eu não fazia nenhuma ideia de que os 50K eram uma corrida de aventura. Para mim, seria uma corrida de montanha normal, com trilhas bem demarcadas, paisagens incríveis e aquela vibração única.

Não foi. Trilha, para falar a verdade, deve ter existido apenas em uns 10 ou 15km entre estrada de terra e single tracks. O resto era tudo mato mesmo – e do tipo pantanoso. Passei boa parte do percurso com água até os tornozelos, cruzei três ou quatro rios, caí em uma poça de areia movediça (que, para ser sincero, eu nem sabia que existia no Brasil) e tomei tanto tombo que fiquei irreconhecível.

Isso sem falar em subidas íngremes e descidas enlameadas, sol forte em uns momentos, neblina espessa em outras e uma sensação de completa solidão no mato. No total, estimo que não mais de 15 ou 20 corredores tenham largado para os 50K – número que se espalha já nos primeiros trechos do percurso.

Terminei marrom, com minha inexperiência em percursos assim somando pouco mais de 8 horas de prova. Cansado? Sim. Mais com dor de cabeça dado que não consegui comer absolutamente nada durante todo o percurso. Mas inteiro.

E também com uma sensação de que faltaram as paisagens bonitas, as vistas deslumbrantes da Serra do Mar. Estas foram, verdade seja dita, “trocadas” pelas visões dos trechos que precisariam ser percorridos – uma mescla de assombração com empolgação.

Resumo da ópera? Amei ter participado de uma prova de aventura, principalmente por ter sido uma ultra com tantos desafios assim. Foi pro “currículo”. Em contrapartida, devo dizer que não é algo que eu esteja tão empolgado assim para repetir. Prefiro mesmo provas mais secas, com trilhas mais existentes e vistas mais inspiradoras.

Agora é hora de pensar na próxima.

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Milagre?

Ontem acordei mais inteiro e sem dor do que nas últimas duas semanas. Empolgado, saí com o sol ainda por nascer para 45 minutinhos levíssimos na rua buscando sentir o estado real do corpo.

Resultado: estava milagrosamente bem. Melhor: durante todo o resto do dia, o incômodo nas costas parecia diminuir mais e mais e mais.

Não vou dizer aqui que não sinto mais absolutamente nada – isso seria um exagero. Mas digo, sim, que estou outra pessoa perto de como estava me sentindo até então. Se soubesse não teria levado tanto tempo para me enfiar em uma massagem, aliás.

Massagens em situações de dor geram um certo medo: o terapeuta pode, por exemplo, se focar no nervo errado e simplesmente piorar tudo. Estava ciente desse risco quando entrei no spa – mas a consciência, por assim dizer, era menos aguda que a esperança de que alguma cura mágica se fizesse presente.

E fez.

Agora é segurar um dia a mais de descanso, pegar o kit daqui a algumas horas e partir para a praia. Será de lá que, às 5 da manhã, pegarei o carro para chegar ao topo da Serra do Mar e encarar os 50K que me aguardam.

E será para lá que voltarei em seguida, recebendo, se tudo der certo, os parabéns diretamente de Yemanjá.

Estou ansioso.

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Molho e massagem

Sábado tem ultra: a Copa Paulista de Corridas de Montanha.

Não é das maiores, mas incluirá 50km por trilhas novas no topo da Serra do Mar. Imagino que as vistas sejam incríveis, que o sol inclemente deste verão tatue a experiência na pele, que a endorfina vá correr solta pelas veias. Espero tudo o que se possa esperar de uma ultra em um clima de ansiedade poderoso.

Até aí, tudo lindo. Só que as costas continuavam doendo e o medo de enfrentar 6 ou 7 horas nas montanhas com a coluna incomodando desde o primeiro minuto começou a pegar.

Resultado: mudança de planos.

Até agora fiz apenas um treino na semana, de 11K, na terça. Foram 11K relativamente puxados, mas no mesmo ritmo. Ontem teria mais um treino, com intervalados, que acabei cancelando por precaução. Cancelando não: trocando.

Ao invés dele, em um ato de pura (e talvez desesperada) esperança, fiz uma tal de massagem “Tailor Made” na Lush, aqui perto. 30 minutos concentrados na lombar e que me custaram os olhos da cara – mas que, confesso, fizeram efeito.

Aliás, se soubesse que ficaria tão melhor, teria antecipado a decisão. Não é que eu esteja “curado”, mas boa parte da dor realmente desapareceu!

E isso sem contar com a experiência exótica: essa massagem é feita com música de marinheiros irlandeses bêbados ao fundo, fumaça saindo do chão e um clima que em nada lembra spas tradicionais. Curti.

Agora é uma espécie de teste: sair para uma corrida leve, lenta, de pouco menos de uma hora, para soltar os músculos e testar o “novo” corpo.

Que as boas notícias se confirmem no caminho do Ibirapuera!

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