Um pouco de inspiração para uma segunda leve…
Um pouco de inspiração para uma segunda leve…
Amanhã, uma meia maratona me espera.
Nada de 5 ou 6 horas correndo, rodando a cidade e cavando quilômetros.
Sim: eu sei que eu mesmo busquei esses longões gigantes como parte do treino para a prova que eu escolhi. E sim: em condições normais, eu costumo ficar ansioso por passar horas a fio.
Mas o cansaço acumulado está tanto que quase me emociono cada vez que vejo esses números pequenos na planilha.
Isso me levou a uma conclusão importante: essa reta final treino, onde se expurga o cansaço do corpo, inclui também pegar de volta a motivação – boa parte da qual acabou sendo deixada pelo caminho.
Como fazer essa mágica?
Descansando e ficando mais inteiro, correndo apenas o suficiente para sentir o gostinho da endorfina nas veias.
E talvez valha também escolher um percurso mais gostoso, tipo alguma trilha qualquer aqui por perto.
Há algumas semanas, um grupo de peregrinos percorreu o Caminhos de Rosa. Eles fizeram todo o percurso da ultra – embora, claro, em um ritmo diferente.
Ainda assim, deu para registrarem um pouco do que encontraremos lá no sertão: calor, poeira e a beleza típica das longas distâncias:





Quarta-feira, 3 de agosto, 9 da noite.
Hora de começar a REALMENTE organizar a ultra, mesmo porque essa inclui um time de apoio próprio.
Enquanto escrevo isso – mais como um lembrete de tarefas do que como relato – converso com os três membros do time que estarão lá no sertão: Paulo Penna, que usará a função de pacer como treino para as 100 milhas que percorrerá no mês que vem; Mayra Galha, comadre que testemunhará pela primeira vez esse esporte doido que tanto amamos; e Luana Ornelas Bianchi, provavelmente a organizadora mais organizada que já pisou neste planeta.
As próprias bios resumidas já indicam os papeis de todos. Além de me aguentarem – nem imagino o estado de humor que ficarei depois de enfrentar 40 graus de variação térmica durante 3,3 maratonas – e de dividirem a direção do carro,:
Sendo prático, o que precisamos endereçar? Checklist abaixo com as iniciais dos nomes dos responsáveis:
Equipamentos:
Mantimentos:
Como passaremos 24 horas, aproximadamente, no percurso – e como há muito poucos locais habitados – é importante ter comida e bebida para nós 4 no carro. Isso incluirá:
Agora é providenciar tudo.
Corridas longas, descobri, começam bem antes de suas largadas.
Se puder generalizar, diria que todas podem ser divididas em duas grandes fases: o treinamento e o percurso em si.
Qual é mais difícil? Depende.
É difícil bater a dificuldade se se esguelar, por exemplo, ao fim de uma maratona, quando se busca um recorde pessoal qualquer. Sim: meses de treinos pesados são necessários – mas o relógio dos 42K é sempre mais sádico do que o tempo que o antecedeu. Sempre.
Em uma ultra cujo objetivo é terminar, tudo muda. Não se tem um tempo (exceto pelo corte) a bater: tudo se resume a chegar. E chegar, em casos assim, vem precedido de meses de treinamento interminável, com longões insanos e uma espécie de autoflagelação digna de qualquer pecador medieval arrependido.
Estou exausto – mas a primeira fase do Caminhos de Rosa foi vencida.
Não posso dizer que ela foi mais dura que a prova em si pois ainda não corri os seus 140K – mas posso dizer que será difícil bater o tanto de suor que derramei nesses últimos seis meses.
Seja como for, estou me dando a liberdade de comemorar essa vitória desde ontem: não me recordo de ter passado por um período de treino tão pesado quanto este antes.
A primeira metade da medalha já está no peito.
Agora é só pegar a segunda.
Já na largada se percebia a diferença. Mesmo com 15 mil pessoas prestes a enfrentar os 21 ou 42km, todas largando do Estádio do Pacaembu, não havia sequer sinal de confusão.
Ao contrário: eu, que já saí correndo de casa e cheguei meio em cima da hora, consegui entrar confortavelmente na minha baia.
A largada em ondas – uma demanda antiga de corredores e sempre ignorada por organizadores – foi um óbvio sucesso para evitar tumulto.
E, assim, saímos para uma corrida que começou com os primeiros raios de sol pelo centro velho da metrópole. Sou suspeito para falar: amo o centro tanto quanto amo São Paulo. Rodar por ele de maneira organizada, com amigos e postos de hidratação, foi um presente.
Presente maior foi ouvir uma banda tocar “Sampa” na esquina da Ipiranga com a São João, uma pequena orquestra entoar Bach em frente ao Municipal e acordes de Van Halen cortarem o frio na Galeria do Rock. Foi uma mistura digna do caldo cultural que é São Paulo.
E, do centro belo, decadente, majestoso e cheio de paradoxos, subimos e descemos a Brigadeiro.
Fomos para o Ibirapuera, minha segunda casa, pulmão verde da cidade. Cortamos o parque até a Faria Lima, pulmão de negócios do maior centro de negócios da América do Sul.
Por um interminável túnel, atravessamos o rio até o outro lado. De lá, o verde e as cores dos Ipês já dominavam a paisagem inteira enquanto surpresas eram dadas pela organização – de vaselina extra a jujubas, passando pela valiosíssima Pepsi, amiga de todas as horas de quem gosta de longas distâncias.
Ponte cruzada, rumo ao Villa Lobos. Na frente do parque, claro, um quarteto de cordas entoava Bachianas Brasileiras como um presente. Voltamos.
USP, segunda casa de todos os corredores paulistanos. O dia estava já se azulando e esquentando a essa altura, o que apenas abrilhantava ainda mais o dia.
De lá foi uma reta até a chegada no Jockey, que contava com uma arena como São Paulo certamente nunca viu.
Impressionante.
Acho difícil que alguém que tenha feito a Asics São Paulo City Marathon discorde de mim: esta foi a prova perfeita para a cidade. Percurso incrível, temperatura deliciosa, organização impecável.
Que seja a primeira de muitas.
Não me canso de ver filmes e babar na história dos Unogwajas – alguns herois, incluindo os amigos Rodrigo João e Nato Amaral, que cruzaram a África do Sul de oeste a leste em 10 dias para depois largar na Comrades no décimo primeiro com dois objetivos: arrecadar dinheiro para caridade e, claro, ganhar uma experiência inesquecível.
Acompanho a trajetória deles desde 2014, quando inclusive tive o prazer de, por pura coincidência, testemunhar a chegada do grupo em Pietermaritzburg na véspera da Comrades.
Bom… Na semana passada eles lançaram um novo filminho com a história do grupo e do que tem conseguido.
Ei-lo abaixo:
Com 113km rodados, essa foi uma das semanas mais pesadas que já tive em treinos. A essa altura, no entanto, o preparo construído ao longo dos últimos meses já amorteceu o corpo para a quantidade de horas nas ruas como rotina.
Não que tudo esteja leve, claro. Mas confesso que, embora cansado, senti muito menos dores rastejando pelo corpo nesta última semana do que na anterior, quando diminuí o volume para quase metade com o objetivo de descansar.
Acho que chega um determinado ponto em que o volume acaba sendo tanto que o corpo estranha mesmo é a folga que acaba recebendo de surpresa. Acho que, no final das contas, tudo é acostumável, como poderia ter dito Guimarães Rosa.
A semana que começa hoje tem um bônus: a São Paulo City Marathon, no domingo. O plano será óbvio: ir correndo até a largada, rodar os 42K e voltar correndo para casa. Não sei ainda sequer onde é largada – mas certamente isso deve totalizar algo próximo aos 50K previstos para o longão do final de semana.
A partir daí é tudo ajuste fino e preparo mental.
Os Caminhos de Rosa estão chegando.
Confesso que amo, insanamente, correr pela paisagem urbana de São Paulo.
Faz pouco sentido, sei, para quem curte tanto a paisagem de trilhas, montanhas e natureza de forma geral.
Mas o que é uma grande cidade senão um pedaço exoticamente legítimo da natureza, adaptado pelas mãos de seus protagonistas na cadeia alimentar? E o que é uma paisagem urbana senão o testemunho simultâneo à grandiosidade e à decadência de tantos ideais das mais diversas correntes de pensamento?
No meu cotidiano eu tomo retas por ciclovias, subo escadarias esquisitas, atravesso trilhas de trens e perambulo por zonas tomadas por aquele clima de devastação típico de centros latinoamericanos. Tudo com o contraste de um audiolivro cantando Wilde, Achebe ou Tólstoi ouvidos adentro, transformando toda a experiência de correr em algo ainda mais singular.
No meu cotidiano, vejo coisas assim enquanto corro:

É algo tão fenomenal quanto cruzar cadeias montanhosas nos alpes europeus? Provavelmente não. Mas não moro nos alpes.
E, se tem uma coisa que aprendi, é que sempre faz bem aproveitarmos o que nos é posto à frente pela própria vida.
Sábado tem um outro ultra-longão: mal posso esperar o que essa sempre mutante cidade de São Paulo reservará pelo caminho.
Para esta prova em especial, o Caminhos de Rosa, o preparo mental vai muito além do que se costuma imaginar em uma ultra. Nada de forçar treinos tediosos simulando horas e mais horas de nadismos pelo percurso: tudo isso é secundário.
Há que se lembrar do motivo de ser do percurso: uma espécie de ode à inspiração que elevou um sertanejo perdido pelos ermos dos gerais a se tornar um dos – senão “o” – mais genial dos nossos escritores, Guimarães Rosa.
Sorte dos corredores ter um preparador como estes tão ao alcance.
Nesses últimos dois meses devorei quase mil páginas do mestre, incluindo toda a saga de Riobaldo em Grande Sertão: Veredas e os primeiros dois volumes de Corpo de Baile com as histórias de Miguilim, Manuelzão, Pedro Orósio, Cara-de-Bronze e Lélio e Lina. Nesses dois últimos meses me tornei íntimo dos sertões que cruzarei em agosto com a ajuda espiritual de todos esses tantos personagens que desafiaram o caos para contornarem aquele estado de ser que nenhum de nós consegue fugir.
Falta um mês para o Caminhos de Rosa, mais ou menos.
Falta também o terceiro e último volume de Corpo de Baile, Noites do Sertão.
A largada para esta última etapa do treino começa hoje.