Correndo pela história em Barcelona

Há algo de diferente entre correr em uma cidade como Sampa – por mais que eu a ame – e em um local como este aqui, em Barcelona. 

Aqui, há uma espécie de rio de sangue derramado história afora, desde os tempos em que a cidade era uma aldeia fundada por Hamilcar Barca, pai do lendário general de Cartago Hannibal que, ao perder para os romanos em uma guerra lendária, permitiu que Roma virasse o que virou. 

De Cartago, a cidade passou para os romanos, depois para os visigodos, para os árabes, para Carlos Magnum, para os catalãos, para os espanhóis. Com tantas guerras, as ruas tremem de memória histórica, abrindo caminho para catedrais incríveis, castelos, palacetes e até mesmo as famosas escadarias onde os reis espanhóis receberam Cristóvão Colombo tão logo ele retornou das américas. Isso sem falar, claro, nas maravilhas de Gaudí, cuja alma se espalha por toda a cidade.

Hoje foi o último treino antes da Douro Ultra Trail e fiz algo diferente: contratei um “guia corredor” pelo Running Tours Barcelona – algo que já havia feito no passado em outras cidades e que recomendo fortemente aos que curtirem história.

O conceito é simples: um guia corre junto com você e vai contando sobre a cidade e seus pontos ao longo de uma rota traçada por ele. Simples e fascinante pois, assim, consegue-se ter uma visão mais intensa de um lugar tão diferente quanto este. 

Foram, no total, pouco mais de 12km – e em um ritmo mais forte que eu imaginava uma vez que o guia certamente tinha algum sangue queniano. Mas valeu para soltar as pernas, para forçar o pulmão e para já entrar no ritmo. 

Valeu pela inspiração e pelo treino mental, ingredientes essenciais nessa fase de polimento catalão que acabei fazendo. 

Agora é curtir o restinho de Barcelona, equilibrar turismo com o trabalho que chama daí do Brasil e, amanhã, voltar para Portugal e me preparar. 

Sábado é o dia.

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Polimento catalão

Qual a melhor maneira de fechar a fase de tapering, ou polimento, de um treino para uma ultra de 80K? 

Se perguntar para qualquer treinador, a resposta provavelmente será “alternando treinos intensos e curtos com longos períodos de descanso”. Pois é…

É o oposto do que devo fazer. 

Ontem à noite deixei Portugal e estiquei um pouco a viagem, cruzando a Espanha e aterrissando em Barcelona, minha nova casa pelos próximos três dias. E, depois de um sono de 4 horas, já acordei pronto para devorar – com os pés – a terra de Gaudí.

Estou próximo à Cidade Velha, então rumei para lá e, entre ruelas e obras de arte arquitetônicas, acabei de frente para o mar. 

Acelerei. Fiz uma tempo para curtir a brisa quente do Mediterrâneo reforçada pelo sol que já saía ardendo. Voltei. Circulei pela Rambla, tangenciei o Bairro Gótico, conferi o morro de Montjuic. 

Subi um outro morrinho na praia para ver mais o mar. 

Voltei, circulando sem rumo. E depois tomei o caminho de casa um pouco preocupado com o relógio que já brigava comigo pelo excesso de tempo nas ruas.

Está quente aqui: quando chegamos, já depois da uma da manhã, os termômetros marcavam 28 graus. 

Mas temperatura alguma consegue fazer frente para a inspiração que vem desse museu ao ar livre tão vivo quanto é Barcelona. Museu, diga-se de passagem, que ainda percorrerei em longas caminhadas para cima e para baixo pelos próximos dias, pondo os pés à prova antes mesmo da prova.

Talvez isso – mesmo considerando a total inversão lógica – é que faça valer a fase de polimento.

Nada de preparar o corpo depois de meses de treinamento intenso: esse tipo de estratégia funciona melhor, acredito, para provas mais curtas.

Em ultras, é a mente que precisa estar melhor preparada, focada, oxigenada, inspirada. E inspiração se consegue deixando-a voar mais livre por cenas e momentos novos, bebendo vistas, vozes e ecos de histórias milenares que sempre encantam os ouvidos. Provando novos sabores, sentindo novos ares e testemunhando outros hábitos. 

Dando um tratamento de choque para que ela – a mente – já comece a semana em um estado de êxtase forte o bastante para que consiga encarar bem as trilhas no Douro, um lugar igualmente magnífico (embora absolutamente diferente daqui).

A melhor estratégia de polimento, portanto, é se focar na mente e deixar o máximo possível de vida entrar para oxigená-la. A partir daí se estará pronto para encarar qualquer desafio.

Agora, 9 da manhã daqui – 4 no Brasil – é hora de aproveitar as horas antes das ligações e dos emails de trabalho e curtir a cidade. 

A pé, claro. 

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