Derrotado por uma esquina

Verdade seja dita, já acordei questionando se sairia ou não naquelas ainda escuras 6 horas da manhã. Estava cansado de um dia cheio, com algumas leves mas persistentes dores na musculatura pelo treino puxado de ontem e, sobretudo, com preguiça. Muita preguiça.

Mas aí vieram os planos de corridas futuras, a visão da necessidade de treinamento e até os últimos capítulos do audiobook que ouço durante o percurso. Finalmente, com meia dúzia de palavrões, levantei, me vesti e saí.

O céu ainda estava seco, a rua convidativa e a voz do narrador já ecoava pelos ouvidos, levando a mente para terras distantes. Saí.

Fui seguindo meu caminho tradicional, que deveria ser mais leve hoje, sem muita mudança no humor e me autoelogiando por ter conseguido trocar a cama pela rua. Estava bem, fluindo calmo, quase flutuando pelo asfalto sendo levado pelos dramáticos momentos-chave da história cuspida pelos fones quando, de repente, um semáforo teimoso cismou em ficar vermelho na esquina da 9 de julho. Parei.

Ao parar, a musculatura que estava levemente dolorida reclamou mais.

A preguiça escalou todo o corpo, do tornozelo aos ombros, como se fosse um lodo grudento me prendendo no lugar.

Os olhos pediram para descansar.

O clímax da história se foi, perdendo-se em alguma monotonia desavisada.

O céu começou a lançar raios de chuva fortes, espessos, raivosos.

Olhei para a minha frente: ainda tinha metade do caminho. Voltei.

Fiz o percurso de volta quase que fugindo da chuva, me prendendo ao caminho mais curto, desviando poças e torcendo para que quilômetros virassem metros. Não sei bem o que aconteceu mas, de repente, foi como se um sonho tivesse se transformado em pesadelo, como se fugir para a segurança da minha casa fosse mais importante do que qualquer coisa, racional ou não. A cada passo, as dores pareciam ganhar mais terreno e a chuva ficava mais espessa. A cada passo, temia que a distância me pregasse uma peça e crescesse sem aviso. A cada passo, a preguiça parecia dominar mais o meu corpo e os meus movimentos.

Até que cheguei.

Quase assustado, atravessei o portão da garagem e subi de volta ao apartamento. Estava exausto.

O apartamento, no entanto, estava idêntico: todos ainda dormiam, as luzes ainda estavam apagadas e o único som era o do relógio de ponteiro da cozinha marcando o ritmo como que para deixar claro que o universo estava em sua mais perfeita ordem. Até a chuva lá fora parecia ter dado uma trégua, se transformando em uma levíssima, quase imperceptível, garoa.

Na verdade, a única coisa diferente no cenário inteiro era eu, que ali estava quando deveria estar dando voltas no parque. Desencaixado, me deixei levar pelo restante de dor e cansaço, pelas pálpebras pesadas, pelos suspiros daquela tristeza leve trazida pela desistência, e desabei de volta na rotina que começaria nas próximas horas.

Manhã estranha essa em que uma esquina me derrotou de maneira tão avassaladora, decisiva.

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Salve a tecnologia!

Os puristas que me perdoem, mas correr é muito, muito mais intenso por conta da tecnologia.

E não digo isso por conta de Garmins ou Stravas – embora eles também tenham seus imensos méritos. Digo isso por conta dos iPhones, iPods, Androids e demais devices sonoros.

Uma coisa é sair de casa às 5:30 da manhã em pleno inverno, atravessando a cidade escura e solitária sem saber sequer se o céu trará raios de sol ou gostas de chuva nos próximos minutos; outra é rodar por mundos paralelos enquanto se corre.

Se é para passar horas na rua, afinal, que se permita à mente viagens maiores do que o horizonte visível. No meu caso, isso significa plugar algum audiobook e percorrer o Ibira ouvindo histórias de lugares distantes, lendas das selvas africanas, relatos de velhas guerras buscando novos futuros. 

Nesses últimos dias, isso tem significado ouvir V. S. Naipaul, um indo-caribenho que, dentre outras pérolas, presenteou o mundo com A Curva no Rio, uma história passada entre a selvageria do interior da África e o ideal de civilização em alguma capital local logo após as guerras por independência travadas em todo o continente. Não vou entrar no mérito da história aqui, claro – mas o fato de poder atravessar oceanos e décadas e ficar imerso em um universo tão à parte é simplesmente fenomenal.

Salve os Deuses da literatura, da tecnologia, da inovação. E salve, claro, esse que é o mais solitário, mais simples e, ao mesmo tempo, mais inspirador dos esportes: a corrida.

  

Checkpoint: Restart

Com motivação em alta, madruguei hoje para correr por São Paulo. 

Paraty havia ficado para trás e não minto que, durante todo o trajeto de volta, fiquei observando as montanhas do litoral norte paulista caçando trilhas com os olhos e desejando estar perdido nelas. Perfeito: isso confirmou apenas que o mais importante dos ingredientes deste esporte, a empolgação, estava em alta. 

Não foi difícil decidir acordar às 5:30, com um céu nublado ainda escuro e um frio de 11 graus, e rodar pela cidade. Por locais diferentes dos habituais, diga-se de passagem: Barra Funda, Parque da Água Branca, um Minhocão que em instantes serviria de percurso para alguma prova de 10K qualquer, toda a região do centro sujo porém belo da cidade, incluindo Bolsa de Valores, Edifício Martinelli, prédio do Banespa, Municipal etc., subida da Brigadeiro, virada da Paulista, um corte pelo pequeno mas charmoso Parque Trianon e, enfim, encerrando na porta de casa. 

21km em que fiquei curtindo cada passo e ladeira, dividindo a concentração entre pensamentos sobre novos projetos e um audiobook incrível de V.S. Naipaul, A Curva no Rio. 

Cheguei revigorado. 

Agora mal posso esperar para engatar a semana que vem com uma motivação arrebatada para todas as frentes da vida. 

  

Reencontrando a corrida

Tirei quase toda a semana para descansar: não corri segunda, terça, quarta ou quinta. Em todos esses dias, acordei com uma espécie de fadiga acumulada que nunca havia sentido antes. 

Coxas doíam, pés reclamavam, pálpebras insistiam em permanecer fechadas nas primeiras horas da manhã e a motivação simplesmente não se fazia presente. Entendi o recado: estava na hora de descansar mesmo. 

E descansei, sem estresse ou ansiedade, sem agonia, sem pressão, sem nada. Até hoje. 

Estou na minha “peregrinação anual” para Paraty por conta da Flip, evento que minha empresa participa já por 5 anos consecutivos. E Paraty…. bom… digamos que Paraty não seja exatamente o Ibirapuera. 

Encravada no meio da belíssima Rio-Santos, essa cidade colonial é um convite para qualquer um que curta a natureza se esbalde em todas as suas ofertas. E, assim, entendi a viagem como uma espécie de instrução para que eu acordasse mais cedo, calçasse o tênis e saísse. 

Saí antes do sol nascer, ainda com tudo escuro, cambaleando pelas ruas de pedras incertas até o asfalto. Não minto: as dores permaneciam da mesma maneira que estavam antes e minha mente já começava a cortar o plano original e me mandar voltar para casa antes dos 10km. Deixei ela de lado e segui, tomando a direita na estrada. Os passos cansados estavam lentos, pesados, tão escuros quanto a madrugada que insistia em desafiar as horas e permanecer por ali pelo céu. 

Até que, em uma curva que deixava à mostra a cidade de Paraty de um lado e as montanhas de outro, raios vermelhos decidiram romper a noite e decretar um novo momento. 

  
Naquele instante, como que a passe de mágica, todo o cansaço desapareceu, as dores evaporaram e a vontade insana de correr, que aparentemente estava de férias, voltou. 

Mudei o plano: ao invés de voltar para casa, tomaria a trilha pela montanha em frente à cidade, no trecho final da Estrada Real. 

Recuperei do fundo do cérebro o caminho até a trilha e, depois de me perder umas duas ou três vezes, me encontrei. E subi. 

Fui cortando a mata úmida, aparentemente abandonada faz tempo, aproveitando cada milímetro da montanha como se fosse um presente divino. Brinquei com o pace, acelerando em alguns trechos mais do que o bom senso aconselharia. Ali não era lugar para bom senso. 

Em um determinado ponto, me deparei com uma plataforma feita para se observar pássaros. Subi pela escada, tirei uma foto e desci de volta: não era ali que queria chegar. Vasculhei a mata mais um pouco e achei a trilha certa, seguindo adiante. 

  
Nem demorei muito: logo em frente encontrei uma pedra grande com algun degraus podres levando ao cume. 

Subi. 

E, de lá do topo da montanha, respirei fundo com pulmões e olhos. 

Correr era precisamente aquilo: fugir do lugar-comum, do cotidiano, da cidade, das tarefas. Era sair caçando uma trilha velha por uma montanha abandonada sem a certeza de onde chegar. E era, sobretudo, chegar a uma vista absolutamente maravilhosa, de uma beleza tamanha que dá até uma certa culpa por não ser compartilhada com mais ninguém. 

Fiquei alguns instantes ali, apenas olhando, e dei meia volta. 

No retorno, claro, fiz questão de correr a todo vapor pelas descidas íngremes da encosta. Se a paixão havia sido recuperada no caminho até o cume, a rota para a base seria feita à base de diversão. 

Perfeito para encerrar a corrida. E mais perfeito ainda para começar o dia: ainda era, afinal, 8:30 da manhã.

   
   

Vendo

É fim de tarde e o avião decola de Joinville, Santa Catarina. 

Pela janela, toda uma paisagem de morros verdes iluminados por aqueles últimos raios de sol do dia, meio amarelo-avermelhados, se abre. Só uma coisa passa pela minha cabeça no mesmo instante em que as preocupações do cotidiano evaporam: “deve haver uma infinidade de trilhas ali por baixo”. 

Tento espremer os olhos e olhar com mais atenção, mas apenas uma ou outra veia ocre, mais para estrada de terra do que para trilha, pode ser vista a distância. Ainda assim, dá para imaginar cada passo dado cortando as montanhas, cada visual colecionado pelas córneas, cada gota de endorfina pulsando pelas veias. 

O mundo fica melhor quando sabemos aproveitá-lo. 

Se vivemos em uma grande cidade como São Paulo, explorar parques e vias em busca de qualquer que seja o desejo é algo relativamente fácil. Basta pegar alguma programação cultural pronta na Internet, entrar em um taxi ou metrô e aproveitar o que a cidade deixou mastigado para você. E acredite: as grandes cidades costumam deixar muita coisa mastigada para quem quiser aproveitá-las, de opções turístas a esportivas, de ofertas culturais a ambientes perfeitos para se curtir o mais autêntico ócio. Cidades grandes pensam pelos seus habitantes. 

É diferente de pequenos povoados, de trechos de terra abandonados, de praias escondidas ou montanhas isoladas. Antes de me apaixonar pelas trilhas, eu costumava enxergar cada pedaço inexplorado do mundo como um grande e entediante “nada”. 

Isso mudou. 

Dificilmente deixo de enxergar ao menos alguma opção de qualquer coisa quando olho, hoje, o que antes entendia como “nada”. Na verdade, parece que o vazio que existia foi magicamente preenchido por um “tudo”, por veias de natureza praticamente implorando algum tipo de desbravamento. Dá até uma certa dó ver as montanhas do alto de um avião sem poder descer para explorar cada milímetro selvagem que elas proporcionariam.

Não que eu queira trocar a vida de uma cidade grande por um estilo mais interiorano: sempre fui apaixonado por grandes metrópoles e o mar de opções proporcionado pelas suas selvas de concreto, na minha opinião, abre mais horizontes que qualquer paraíso intocável. Afinal, se viemos ao mundo para aproveitá-lo em sua completude, quanto mais opções melhor. 

Mas há um quê de preenchimento, de percepção de mundo, que nasceu das minhas primeiras corridas nas trilhas. É como se o mundo tivesse subitamente ficado mais rico.

Há menos nada e mais emoção, menos vazio e mais adrenalina, menos tédio e mais opções em cada canto de terra esparramado na frente dos olhos. 

Há mais vida a ser sorvida pelos olhos. 

Correr é definitivamente o melhor óculos que se pode conseguir. 

  

Longão na madrugada

Hoje foi dia do primeiro longão realmente longo depois da África: 30K em ritmo de cruzeiro, soltos, arejados. Com um fator a mais: como eu precisava estar em casa às 8:30, os primeiros passos foram dados em plena escuridão, às 5:30.

Tem um lado bom de sair com tudo escuro: as ruas parecem suas, o silêncio predomina e é como se toda uma aura de concentração praticamente se impõe sobre a mente. Isso sem contar, claro, com a maravilha que é testemunhar os primeiros raios de sol se serpenteando por entre as folhagens das tantas árvores no caminho! É, em minha opinião, o melhor período para correr.

Exceto em dias de longões durante invernos.

Sim, porque infelizmente não vivemos no mais calmo e seguro dos países e cruzar a cidade em busca de trilhas mais escondidas em plena escuridão não costuma ser a melhor das ideias. Em casos assim, há que se tomar as rotas mais conhecidas.

Assim o fiz. Comecei indo de casa até o Parque do Povo, onde dei 5 voltas até amanhecer. Entrar lá já foi complicado: me esgueirei por entre uma fresta na grade e corri quase todo o tempo em uma escuridão absoluta. Tropeçar, aliás, quase virou rotina. 

Depois segui até o Ibirapuera, fazendo uma volta pela trilha e outra pela pista. Um percurso que costumo gostar muito, diga-se de passagem – mas que perde um pouco a graça em dias que a rotina deve ser deixada de lado.

Por sorte encontrei o Nishi, já em pleno treino para Mont Blanc, que dividiu a segunda volta comigo. Dividiu com força, aliás: foram 3km rápidos o suficiente para que meus bofes quase ficassem no caminho!

E entre ruas, papos e planos, fomos cada um pelos nossos caminhos: ele se concentrando nas montanhas de Chamonix e eu repassando o dia que teria pela frente.

Depois de 30,3km a um pace médio de 5’53″/km, cheguei tão inteiro que até me surpreendi.

Acho que foi resultado de ter matado as saudades dessas sempre incríveis horas sequenciais sobre pés ritmados. No final, o percurso em si importa menos que os caminhos que conseguimos desenhar em nossas cabeças durante qualquer longão.

  

Lidando com a adaptabilidade

O dia ainda não havia caído e tudo indicava um entardecer daqueles bem vermelhos, secos, intensos.

Coordenei meu dia no trabalho para conseguir sair a tempo de pegar aqueles últimos raios de sol, sempre tão bem vindos quando se quer respirar alívio quanto a qualquer coisa. Deu certo: no horário programado, estava na rua.

Cortei a Santo Amaro, cruzei a IV Centenário e, em minha frente, o velho Ibiraquera parecia dar boas vindas com aquele sorriso de quem está à espera faz algum tempo. Dava tempo ainda de pegar a trilha, aproveitando o pôr do sol entre os verdes e os lagos.

E tudo parecia perfeitamente sincronizado… até que um vento súbito me pegou de surpresa. Olhei para os lados: folhas pareciam voar, ágeis, na horizontal.

O vento assobiava nervoso, agitado, quase elétrico.

Pequenos mosquitos pareciam voar desnorteados em torno das luzes nos postes.

E, no lago, pequenas gotas começaram a se fazer onipresentes.

A garoa tensa durou apenas alguns segundos e logo se transformou em tempestade. A água, aliás, parecia vir com tamanha força do céu que até o lago parecia mais seco que o ambiente em si.

Olhei para os lados: os corredores que estavam por ali há apenas alguns instantes pareciam ter evaporado. Era apenas eu no parque inteiro – eu e a chuva torrencial. Aproveitei.

O fim do dia de ontem não teve pôr do sol vermelho, mas teve algo ainda melhor: uma tempestade sem aviso prévio que expulsou todo mundo e deixou o Ibiraquera inteiro para mim. Corri livre, ensopado, alternando trilha com asfalto para evitar quedas e bebendo cada gota de endorfina que parecia estar sendo produzida pelo tempo em vez de pelo corpo.

Foi extasiante.

E, da mesma forma que começou, a tempestade parou: de repente.

Os corredores voltaram às ruas, a noite se abriu, as nuvens sumiram.

Voltei para casa.

O simples ato de correr, às vezes, nos faz entender que podemos até não controlar o tempo – mas conseguimos nos adaptar e aproveitar, com toda a intensidade do mundo, qualquer forma que ele decidir impor sobre nós. Adaptabilidade, aliás, talvez seja a maior das lições das trilhas.

  

Deixando o estresse no caminho

Sabe quando se tem um dia para lá de complicado, com uma somatória insana de problemas e um desfecho digno de filme de terror? É impossível deixar esse acúmulo de problemas no caminho do trabalho para casa. 

Problemas no trabalho normalmente significam noites mal dormidas, estômagos que cismam em ficar tensos, mente que metamorfoseia qualquer mínimo desafio em barreiras intransponíveis. No passado, minha forma de lidar com problemas assim era “simples”: deixar o corpo cozinhar até transbordar. E, no passado, o corpo transbordou: cabei na mesa de cirurgia para retirar metade do meu fígado. 

Hoje, ainda bem, há uma opção mais fácil: a rua. 

Acordei cedo, por volta das 5, e decidi deixar o estresse ao longo do caminho. Claro: como o estresse era grande, o caminho também deveria ser. 16km que não estavam programados e que se iniciaram por volta das 5:15 da manhã, ainda antes de qualquer sinal de claridade de um sol que provavelmente nem pensava em acordar. 

Não fiz tiros, não me apliquei metas e nem controlei o tempo. Nem relógio eu levei. 

Simplesmente corri até a vontade acabar. 

Cortei a noite de casa até o parque, entrei com aquela precaução de quem não enxerga o solo escuro, cruzei o vento e passei por outros corredores tão compenetrados quanto eu. 

No fone, um podcast qualquer cuspia alguma história que eu mal prestava atenção. Mas a mantive ligada: de alguma maneira, ouvir zunidos de vozes ecoando entre os ouvidos estava me fazendo bem. 

Cheguei a pensar em pegar a trilha do lado de fora do parque na segunda volta: trilhas, mesmo as mais levinhas, sempre fazem um bem colossal. Só que ainda estava escuro e, sem lanterna, seria uma receita certa para acidentes indesejados. 

Sem problemas: dei outra volta. E parei. 

Respirei. 

Fundo.

Algumas vezes. 

A mente, então abarrotada de pensamentos espremidos como se estivessem em um trem indiano, de repente se viu vazia. Perfeito. 

Voltei para casa rejuvenescido, inteiro, intacto, novo. 

O estresse do dia anterior ficou lá atrás, no asfalto. O do dia corrente estava ainda por vir já nas próximas horas. 

Mas tudo bem: àquela altura, estava já preparado para matar qualquer novo leão. 

  

Uma história de desistência e autoconhecimento na Comrades 2015

Quando alguma prova grande termina, é normal vermos a Web recheada de casos de sucesso e de “lendas” formadas pelos quilômetros amontoados. É muito raro, no entanto, lermos relatos de desistências, de abandono de provas e metas. 

Nessa Comrades, um grande amigo meu abandonou a prova no km 65 depois (da insanidade) de chegar em Durban apenas às 17:00 do dia anterior, com 5 horas de fuso na cabeça e todo um cansaço mesclado à ansiedade que fez da sua mera presença na linha de largada algo difícil de se conceber. 

Ele escreveu um relato, que reproduzo abaixo, que acaba narrando uma história de autoconhecimento e humildade – ambos conhecimentos tão (ou até mais) essenciais para corredores de ultra quanto saber comemorar as vitórias. 

Para vencer, preparação e autoconhecimento

Decidi que faria a back-to-back logo após a primeira Comrades, em 2014. Devido a fatores diversos, os treinos não foram tão fortes quanto deveriam, mas persisti, fiz a maratona de Santiago como qualify e, mesmo com a panturrilha estourada, me senti pronto. 

Devido ao trabalho viajei um dia antes para Durban, ou seja, embarquei às 23h da sexta, após uma semana bem puxada na empresa. Cheguei no sábado às 17h, depois de 24h de avião com 2 conexões. Entre jantar e jet lag, consegui descansar umas 6h, pois o frio na barriga me fez perder o sono e às 4 da manhã já não consegui mais dormir.

Às 5:25 estava na baia F ouvindo o hino africano, shosholoza, carruagens de fogo. O galo cantou 3 vezes e o tiro da largada anunciava 87 Km. Como neste ano havia mais corredores que o habitual, os primeiros Km’s foram bem tumultuados, lotados e com alguns trechos em que você era obrigado a caminhar e seguir o ritmo da grande massa.

Após alguns tropeços aqui e acolá, perdi minha água batizada com uma “vitamina” anti-fadiga que havia até treinado para tomar a cada 15km, (e combinado com a minha noiva Cláudia para repor no km 60). Quando percebi fiquei um pouco assustado e chateado, mas não tinha outra opção há não ser “keep running”.

Os primeiros 45km foram de subida, o calor era esperado e, por volta das 10h, já dava para sentir que ele seria forte. No Km 30 comecei a sentir muito meu tornozelo (pela primeira vez na vida). O calor me obrigava a passar em todos os postos e já recorrer à Coca-Cola desde cedo em busca de açúcar. Precisava comer algo, mas só percebi que havia comida no caminho depois da metade da prova. Dores nas costas apareceram em uma intensidade maior do que imaginava ser possível.

Sabia que o momento mais difícil viria entre os 45km e 70km (entre 11 e 14h) e que deveria tentar fixar um pace razoável, lidar com as dores, manter hidratação e me alimentar. Cheguei a beber mais água que deveria – mas o que me pegou forte foi o cansaço mental. Tentei acompanhar dois ônibus (turma que corre com uma meta específica de tempo), mas os perdi nos postos de água com o acúmulo de corredores.

Em vários momentos da prova você vê pessoas de todos os tipos e com situações diferentes da sua. A partir do km 40 já era comum ver pessoas apagadas (ao lado da estrada, em macas, nas vans médicas já lotadas de desistentes). Isso vai minando a sua mente e, ao mesmo tempo, mostra que humildade e preparação em todos os sentidos fazem a diferença.

Consegui encontrar a Cláudia (minha noiva) no Km 58, onde ela me entregou uma nova dose anti-fadiga e fez uma boa massagem nas costas e tornozelo. Mas a parte mental estava fraca: pensava em como desistir, queria desmaiar, queria que o carro do corte me alcançasse, enfim, procurava algo maior do que eu mesmo para me derrubar. Não encontrava e, com isso, as lágrimas vieram umas 3 ou 4 vezes.

Comecei a fazer contas e pensei: “se mantiver um pace de 8, 9 ou 10, será que consigo?” 

Mas eu não conseguia: me perdia nos resultados. Usei o celular e mesmo com a conta feita não conseguia raciocinar se era ou não possível.

Após o km 60 percebi que o anti-fadiga não ia mais funcionar: estava além do meu limite.  Fisicamente o tornozelo me impedia de correr mais de 400m; o excesso de líquido me forçava a tentar vomitar, gerando dores adicionais; a mente ficava mais fraca.

Até que, no km 65, joguei a garrafa de água fora revoltado com a derrota que sofria para mim mesmo. Mãos no joelho, uma longa subida e muitas lágrimas encerraram ali meu sonho da back-to-back, mesmo com várias pessoas de fora gritando para que eu não parasse, entoado frases como “you are a hero, keep moving, well done, don’t stop”. 

Mas não encontrava mais forças.

Meu último pensamento: “estou a ponto de apagar ou me lesionar mais a qualquer momento, eu preciso saber diferenciar a persistência da burrice, sou atleta de fim de semana e não profissional”. Enquanto esperava a van para ser “resgatado”, esses 30min foram de lágrimas e imaginação sobre como seria entrar no corredor da chegada pela segunda vez, com tanta gente incentivando e comemorando. Esse sonho, ao menos por enquanto, foi adiado.

Eu não consegui completar a segunda Comrades. Lidar com isso após a corrida é difícil, mas ao mesmo tempo é motivador para continuar treinando, conhecendo melhor meu corpo e cuidando tanto do físico quanto do psicológico: a vitória vem na preparação. Corrida, afinal, é algo que faz parte de mim e me ajuda em vários momentos da vida.

I love running <3.  


– João de Andrade

  

A semana pós-meta

Há uma sensação incrível de missão cumprida sempre que conseguimos bater alguma meta importante.

É como estou desde que retornei da África do Sul trazendo comigo a medalha back-to-back da Comrades, indubitavelmente a prova mais “mágica” e contagiante que já participei na vida.

Ela foi no domingo passado, há menos de uma semana – mas o corpo já está aproveitando o que se pode chamar de “louros” em treinos descompromissados e desplanilhados pelo parque. Saí para 11K na quarta, já plenamente recuperado, e fiz mais 13K no feriado de ontem. Sábado tem longão e domingo, regenerativo. Uma espécie de rotina se mantém – mas de forma mais suave, descansada, do que antes. Ao menos para a mente.

Esse descanso, para mim, não significa ficar jogado no sofá: significa apenas poder correr de acordo com o ritmo do corpo, sem nenhum tipo de pressão ou controle, sem nenhuma meta assustando a mente. Significa apenas fazer uma das coisas que mais amo na vida: correr.

E, entre uma passada e outra, começar a pensar em próximas metas, em próximas provas.

Por hora, tenho apenas os 100K da Indomit planejados para novembro… mas a vontade de inserir o calendário com pelo menos mais uma ultra já começa a bater. Quais seriam? O que há planejado por essas bandas? Quais oportunidades podem ser aproveitadas?

Começarei a buscar essas respostas entre hoje e amanhã, caçando desafios pela Web enquanto monto a minha própria planilha uma vez que estou órfão de treinador. Estava com saudade de cuidar de mim mesmo neste sentido.

E estava também com saudade de aproveitar esse período pós-meta de pura endorfina correndo solta pelo sangue.

corredor