O outro Tempo

Tempo é algo extremamente relativo para quem corre. 

Para qualquer outra pessoa, o dia costuma ser dividido, a grosso modo, em dois grandes pedaços: um apressado, feito de tarefas, prazos e compromissos profissionais, e outro doméstico, quando se começa a cuidar do outro lado – o mais importante, diga-se de passagem – da vida. 

Entre um e outro, no entanto, há tempo para se criar um novo pedaço de Tempo. 

Digo mais: a meu ver, é o Tempo mais sagrado de todos por ser absolutamente egoísta, por ser exclusivamente seu e feito para que se curta a si mesmo. Ele não costuma começar promissor: o despertador soando às 5 da manhã dificilmente empolga. Mas, aos poucos, acaba-se cedendo à expectativa de se aproveitar esse Tempo. 

Aos poucos, roupas vão se trocando, portas vão se abrindo e, de repente, você está lá, só, de frente para uma rua vazia iluminada apenas pelos primeiros tímidos raios de sol. 

Você segue. 

Passos ritmados, fone ecoando alguma coisa desimportante qualquer. A vida passa em revista, com o dia atual servindo de marco entre o passado recente e o futuro distante. O pensamento viaja por projeções esculpidas sobre a vida alheia de outros corredores, de outros cotidianos, de outras possibilidades. 

Cruzando um portão, o asfalto se transforma em trilha e os prédios, em árvores. Tudo muda. Os raios do sol, mais lineares e nítidos, parecem desenhar cores pioneiras nos troncos enquanto  mente segue viajando sabe-se lá por onde. O ritmo vai mudando: tempo runs, intervalados, trotes, todas as modalidades se alternam prendendo o corpo a alguma coisa que lembre um planejamento prévio. A mente fica indiferente: tudo o que ela consegue fazer é aproveitar aquelas cenas, aqueles cheiros, aquele calor maravilhoso que assa a pele sob um céu já permanentemente azul. 

Tudo é incrível. 

E tudo dura pouco mais de 1h30. 

A extensão desse Tempo, desse momento intermediário entre os períodos normais, é relativamente pequena. Ainda assim, parece gigante por ser o único não dividido ou compartilhado com absolutamente ninguém além de si mesmo e da própria imaginação. 

Depois dessa corrida que beira o surreal, cruzar o portão de casa para começar o primeiro dos Tempos normais é como iniciar um novo dia.

Um novo dia no mesmo dia – mas devidamente dotado de uma espécie de paz interior que poucos conseguem sequer entender. 

  

Aqueles insuportáveis 60km do meio

Toda ultra tem, claro, os seus desafios. Para mim, pelo menos, o maior deles acontece naquele período morno, monótono, que normalmente se estende entre os km 55 e 65 de uma prova de 80 ou 90km.

Ambas as Comrades foram assim. A Douro Ultra trail foi assim. A Ultra Estrada Real foi assim.

Não há um desafio técnico, uma montanha mais tensa a ser escalada, rios caudalosos a serem cruzados. Não há nada além da nossa mente se perguntando se segue ou se pára.

Para falar a verdade, o que chateia é justamente esse “nada”, essa sensação de se estar em algum lugar entre o começo empolgante e o fim extasiante, espremido entre o sol e a terra e com um prospecto de insuportabilidade da travessia. É quando se alcança o ponto mais baixo, quando aquele lugar escuro na mente parece guiar o corpo e ditar as decisões.

A alternativa? Seguir em frente. Fixamente. Constantemente. 

Atravessar esse vale escuro, depressivo, dure o quanto durar, até o outro lado.

Neste momento, a vida parece estar imitando o esporte: estou nesses malditos 60km.

Dependendo do que ocorra, tudo pode mudar. Pode ser que o governo caia, dando uma guinada nas perspectivas de curto prazo de qualquer empresário brasileiro, a esta altura já meio saturados de lidar com tanto cavalo de pau e adversidade.

Pode ser que a crise se acentue ainda mais, forçando medidas mais drásticas na condução dos negócios. Pode ser que não, embora essa possibilidade pareça mais remota. 

Pode ser que a própria crise permita surgir oportunidades interessantes, daquelas que jamais apareceriam em momentos de euforia em que se está mais concentrado em aproveitar a abundância do que em garimpar raridades na escassez. Pode ser que não, que essas oportunidades sejam, na verdade, miragens geradas pelo estopor da realidade.

Pode ser que seduções do além-mar gritem mais alto e puxem, como um ímã, mudanças pessoais radicais na minha vida. Pode ser que me mude. Pode ser que não.

Pode ser.

Pode ser.

Pode ser.

Essa insistência de possibilidades que se mantem equilibradamente remotas e, ao mesmo tempo, no mesmo espectro de viabilidade, cansa. Indefinições geram exaustão. 

A alternativa? Assim como no esporte, só me resta uma: seguir em frente. Fixamente. Constantemente.

  

O que faz valer a pena

Mesmo com tanto calor e umidade, com percursos improvisados por estradas sem acostamento, com despertares horas antes do sol pensar em nascer… mesmo com tudo isso, correr em lugares diferentes vale pelas cenas novas, maravilhosamente estranhas, que as pálpebras colecionam.

Há coisas que dificilmente sairão da mente – como esse caminho que fiz nos 20K de hoje de manhã. Ainda bem.

   
  

Post curto

Acordar às 5 da manhã, brigando contra o despertador, não faz um sorriso abrir no rosto de ninguém. Depois que se acorda e sai, no entanto, é difícil não ficar feliz com a decisão ao se testemunhar algo assim:

  
Correr, principalmente ultras, é precisamente lidar com esse tipo de conflito.

Vida de soldado

A adrenalina de um dia de pico na selva publicitária de São Paulo, onde vivo, fica um tempo percorrendo artérias e veias. Impede que se relaxe, impõe ao instinto de sobrevivência uma capacidade de concentração multitarefa, exige onipresença e, aos poucos, mói os sentidos.

Não vou dizer que não goste desse estilo de vida: trilhar os meandros de um mercado tenso e ultracompetitivo é um desafio cotidiano perfeito para qualquer um que sinta prazer, por exemplo, correndo ultras.

Mas, assim como em ultras, há momentos em que picos se alternam com vales, em que a adrenalina de se ter conseguido vencer algum obstáculo inesperado com um golpe de pensamento e uma supersincronizada agilidade tática cede ao cansaço.

Depois de nem sei quantas horas coordenando uma verdadeira guerra em fronts paralelos, cheguei em casa depois de todos terem dormido.

Comi em silêncio, acalmando a memória recente. Não me preparei para o dia de hoje – era tempo de encerrar o ontem. Apenas.

Troquei de roupa.

Deitei cuidadosamente, mais silencioso que o tédio.

De imediato, fiquei imóvel esperando o sono que não queria vir. 

Acabou vindo.

Aos poucos.

Mas de forma decisiva.

Pelo menos até o próximo soar do despertador, às 5:15 da manhã – apenas poucas horas depois das pálpebras terem fechado.

Sem problemas: era hora da corrida. 

E há melhor maneira de se preparar para qualquer coisa do que acordar antes mesmo do sol, quando toda a cidade ainda dorme, e testemunhar, sob suor e passadas, uma cena dessas?

  
Decididamente não.

Poucas coisas nos preparam melhor para uma batalha do que uma boa dose de suor e endorfina antes dos primeiros tiros. 

Que venha o dia.

Gravando a última impressão

Mar e dunas ontem, cidade hoje. Por algum motivo, há qualquer coisa que sempre me encantou em pequenas vilas que parecem congeladas no tempo.

Fora algumas anomalias urbanas superpopuladas, repletas de violência e miséria pútrida, o interior nordestino é essenclamente cheio delas. 

A região do pontal não é exceção.

Saí hoje tão cedo que a lua cheia ainda reinava absoluta no céu que apenas começava a se riscar com os primeiros tons de azul claro. Era sábado, dia mais parado que os já calmíssimos habituais, mas algum movimento se ensaiava. 

Mulheres de vestido de renda varriam areia para longe de suas varandas, homens olhavam o sol que sempre viam com um ar de tedioso espanto, crianças e cachorros faziam os primeiros barulhos do dia. 

A pobreza da região era óbvia – mas era também resignada, calma, quase que conivente com sua própria falta de perspectiva. 

Era uma pobreza de tudo: dinheiro, conforto, futuro, vocabulário. Curiosamente, ela se equilibrava com o outro extremo: a abundância de paisagens, de dunas, de oceano, de azul do céu e de vida que cismava em proliferar naquele naco abandonado do mundo.

No caminho, estradas se abriam em frente a igrejas de todas as faces cristãs, ruelas se esgueiravam por entre céu e terra, carnaúbas se erguiam do mato, brisas teimosas quebravam, ainda que por instantes, o já insuportável calor nordestino.

Olhei para tudo aquilo diversas vezes: para os rostos castigados mas leves dos locais, para as casas mal pintadas, para as pracinhas bucólicas e para toda a natureza que se sobressaía superlativa. 

Gravei cada milímetro na mente.

Era essa a última impressão que queria levar de volta para São Paulo amanhã.

   
   

De costa a costa no Pontal

Despedidas tem que ser feitas em alto estilo, claro. Em grande parte, os últimos quilômetros corridos serão sempre os mais frescos na memória, quer por motivos óbvios quer por terem sido corridos em meio a um turbilhão de pensamentos ecoando entre os ouvidos, todos mesclando saudades com momentos de altos e baixos passados nas trilhas.

Meu último dia não foi hoje – será amanhã. Mas, hoje, decidi fazer 21K rodando pelos dois lados do Pontal.

Primeiro, saí ainda cedo e com maré começando a baixar pelo trecho oeste. Repeti o caminho de ante-ontem, absolutamente deserto e na companhia apenas de mar e dunas. Decidi variar e, por pura diversão, troquei trechos de areia dura por mais e mais dunas, escalando-as e correndo para baixo como se tivesse 10 anos de idade. Fiz isso uma, duas, três, várias vezes. Até que os Vibrams, que me acompanharam em toda a viagem, ficassem tão cheios de areia que seria necessário parar para recalçá-los.

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Com o sol já ardendo, busquei refúgio em uma das casinhas de palha feitas para abrigar jangadas. Foi uma boa ideia: abrigado por uma sombra providencial e banhado por uma brisa divina, pude erguer os olhos e enxergar, à minha frente, um mar de um azul vibrante brilhando sob o céu. Naquele pedaço de segundo tive a certeza de que estava imerso em uma daquelas cenas que o cérebro escolhe jamais esquecer.

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Com um suspiro, limpei o tênis e segui. A maré já estava mais baixa, o que facilitou a corrida e me fez desistir de cortar por um trecho fora da praia para evitar uma região mais cheia de pedras. Fui por elas mesmo, me equilibrando e alternando saltos como se estivesse dançando sobre o acaso.

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Já na outra ponta, prossegui, passando o hotel e seguindo no sentido leste.

A praia, agora com maré bem baixa, parecia outra: o mar brilhava diferente, o cenário parecia mais árido e campos com um toque de sertão se abriam a cada morro. Em um determinado ponto precisei sair das areias e subir uma pequena falésia para atravessar uma zona mais “impassável”. De cima, o velho farol vermelho pontuava um horizonte aberto como poucos, feito de vegetação rasteira, de cactus  e de uma eventual duna.

Fui até o farol cortando o mato e enfrentando a areia fofa. O solo se alternava: virava terra vermelha queimada, depois branca rochosa, depois mato, depois duna. Todos os solos do mundo pareciam conviver ali – ao menos até a beira do pequeno forte que abrigava a luz.

Nele, uma escada interrompida parecia um dia ter servido ao propósito de levar pessoas ao seu interior em algum momento do passado. Pulei algumas pedras e, usando as mãos, consegui chegar ao primeiro degrau. Subi até o topo apenas para sentar e tomar o último gole de água apreciando mais uma vista memorável. Que incrível essa região ainda praticamente intocada pela civilização, ainda deserta, ainda pura sob tantos aspectos! Que incrível todo esse estado do Ceará, certamente um dos mais belos do Brasil!

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Olhei para o Garmin: estava na hora de retornar. Fiz o caminho de volta à base mas, em vez de seguir pela praia, decidi ir por dentro para viver um pouco mais daquela paisagem sertaneja, quente, forte.

A ideia foi perfeita: de repente, me deparei com uma estrada de areia inteiramente margeada por cactus gigantes! A impressão deixada foi tamanha que tive que parar e andar um pouco apenas para sorver aquela cena com a atenção que ela merecia: nem nos meus sonhos imaginei me deparar com algo assim.

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Dali em diante foi uma reta só.

Cheguei de volta ao hotel no segundo que o relógio bateu 21km: perfeito. Ainda eram 8:30 da manhã e o dia inteiro se estendia como promessa.