Os detalhes no Caminho

E eis que, quando chego em casa, há um envelope do Caminhos de Rosa me esperando.

Pode parecer um detalhe – mas sempre acreditei que o que encanta mesmo é sempre o detalhe, a atenção às pequenas emoções geradas, a construção gradual da expectativa. Foi exatamente isso.

Recebi um livreto do Caminhos de Rosa com direito a dedicatória manual do Zumzum, idealizador e diretor da prova, e informações que vão de dados técnicos do percurso e regulamento a trechos das histórias do Guimarães Rosa passadas por aquelas bandas.

Devorei o livreto.

Me empolguei com a perspectiva de correr 140km nos calcanhares de um dos maiores mestres da nossa literatura, de ver o que o inspirou, de viver um Brasil tão diferente do que estou habituado.

Já comecei a contar o tempo que falta. 

(E isso porque a prova é só na segunda quinzena de agosto!)

  

Checkpoint: Areia movediça

Fiz outra tentativa hoje. Estava sol, um calor senegalês, o percurso à frente tinha estradas de terra, morros e vistas, e podia rodar o suficiente para, quem sabe, soltar mais o corpo.

Essas últimas duas semanas foram como correr na areia movediça. Se exagerasse na dose, acabaria afundando em dores generalizadas pelo corpo; se cedesse e descansasse todos os dias, a sensação de estar enferrujado apenas pioraria. Precisava achar algum tipo de equilíbrio, se situação limítrofe entre me manter ativo mas não atropelado, respirando rápido mas não esbaforido, suado mas não encharcado.

Hoje foi mais ou menos isso. Não digo que estou perfeito – mágicas são mais raras do que deveriam. Mas rodei os 10K sorvendo vistas, sol e calor, com AC/ DC puxando a endorfina e aquele cheiro de mato que sempre, sempre ajuda.

Terminei inteiro – muito melhor do que ontem e do que nos últimos dias. Terminei também fechando mais de 50K na semana, apenas levemente a mais que na semana passada e, portanto, somando volume como maneira de me salvar da areia movediça.

Ainda estou nela, aparentemente: seria ingenuidade partir pra um treino completo, como se nada tivesse acontecido. Mas estou – também aparentemente – muito mais a solto do que estava, já enxergando dias melhores no horizonte.

   
 

Ferrugem que não passa

Saco.

Tudo ainda anda travado. Musculatura esquisita, pernas doendo, articulações reclamando mais, muito mais do que deveriam. 

Saí para 20K hoje na região de Taubaté, onde vim passar o final de semana. Consegui completar 16 – e ainda assim com o pace de um cágado sonolento!

Na falta de uma solução mais imediata, tirei fotos. Quem sabe vê-las não ajuda a convencer as pernas de que está mais que na hora de parar de reclamar?

   
 

De volta ao Ibirapuera

Não vou mentir: estava sim cansado, com a musculatura meio dolorida e os olhos pesados. Mas a vontade de voltar à ativa foi maior: saí no final da tarde e me esbaldei em 20km pela trilha que circunda o Ibirapuera.

Teve um pouco de tudo: audiobook entoando histórias de lugares distantes, pôr do sol colorindo o obelisco e o lago, casais se encontrando (sob todos os aspectos) e um caminho vazio, livre, aberto, feito de terra ocre temperada por galhos e pequenas poças denunciando a chuva dos últimos dias.

Parecia que o parque estava me esperando.

Ainda bem que apareci. Foi como se tanto eu quanto ele – o Ibirapuera – tivéssemos ficado aliviados.

  

Ainda não

O despertador tocou às 5:15. 

Levantei, ainda que com algum repúdio por parte das pálpebras, me arrumei e desci. 

Ajustei o relógio.

Ignorei a garoa.

Apertei os olhos em um esforço de deixar para trás o sono.

Dei os primeiros passos.

Era pra ser algo simples, cotidiano: uma volta pela pista do Ibirapuera no piloto automático. Não funcionou: joelho direito protestou, tornozelo mostrou-se insatisfeito e toda a musculatura empacou, deixando claro que não pretendia se soltar por nada no mundo.

Não tive alternativa: desisti, dando meia volta ao chegar na 9 de Julho e transformando 11K em 5.

Placar final: motivação em 75%, disposição em 50%. 

Conclusão: ainda não estou pronto como gostaria. 

  

Checkpoint: A zona cinzenta

Há uma espécie de zona cinzenta depois que se realiza alguma grande meta. 3, no caso: Indomit, BR (ainda que como apoio) e Cruce aconteceram em um impressionantemente curto período de 3 meses. 

Nessa última semana, todas as dores e incômodos acumulados em meses de treinamento decidiram aparecer e se instalar no corpo. Sem problemas: dei a ele alguma folga, saindo apenas levemente para alguns trotes mais regenerativos. 

Nessa última semana, um sono digno de picadas da mosca de Tse-Tse dominou as manhãs; uma estranheza em testemunhar o trânsito paulistano se instalou no semblante; uma facilidade de respirar, silenciosamente, um ar meio orgulhoso, impulsionou os pulmões. 

Semanas depois do que consideramos como grandes realizações pessoais são feitas para cimentá-las no peito, para nos mostrar que a vida é feita desses momentos singulares pelos quais tanto batalhamos. São períodos sagrados que, talvez infelizmente, acabem sendo reverenciados por nós mesmos em uma silenciosa solidão. São períodos catárticos, de consolidação de mudanças de visão de mundo, em que não se deve desperdiçar um único átomo de esforço em uma direção que não seja a do autoentendimento. 

Semana que vem? Provavelmente ainda estarei na mesma zona cinzenta, aproveitando-a, cultivando-a e, sobretudo, digerindo-a. 
Enquanto isso, talvez esteja na hora de revisitar as provas de 2016 e ver em qual ou quais me encaixo. 

Daqui a pouco será hora de começar tudo de novo.