Há provas que são uma experiência de vida divina. O Cruce é uma delas.
Autor: Ricardo Almeida
Vídeo: MONT BLANC | CCC UTMB® 2015
A que eu pretendo fazer – agora já com pontos o suficiente para me inscrever no sorteio com mais chances de ganhar – é outra prova, a OCC, com 55km.
A região, a data e o clima, no entanto, são os mesmos.
Dá para ficar ansioso antes mesmo de se inscrever para o sorteio??
Acho que Mont Blanc é assim.
Oi Suunto
Adeus, Garmin.
Ninguém pode me acusar de não ter tentado.
Tentei com o Forerunner 620, que quebrou e me fez passar por um kafkiano processo de assistência técnica.
Insisti e comprei o Fenix 2 por conta da bateria e tive o mesmo problema. Foram esperneadas no suporte, súplicas via Facebook, gritos via ReclameAqui até ter um novo relógio entregue.
Durou uma prova e cerca de 2 meses e o mesmo defeito decidiu aparecer.
Chega.
Comprei um Ambit3 na esperança de ser um casamento mais duradouro.
E vamos às maratonas!
Tenho uma relação esquisita com a Maratona de São Paulo.
Foi minha primeira maratona, lá em 2012. Estava com febre, nariz entupido, dor de cabeça e nenhum preparo físico para encarar o que acabou sendo 5 horas da mais pura tortura. A baixa de energia foi tamanha que nem consegui comemorar direito: por vezes me pego considerando a Maratona do Rio, feita poucos meses depois, como a minha primeira. Do ponto de vista de aproveitamento, pelo menos, a orla carioca certamente foi melhor do que o asfalto paulistano.
Depois disso acabei participando de mais algumas edições. Nunca fui tão apaixonado pela prova – e por motivos que considero justos. A organização da Yescom é sofrível, a largada é tumultuada até o extremo e o público apoiando é praticamente nulo. Mas nada é pior do que o percurso: em uma cidade com tantos atrativos históricos quanto São Paulo, enfiar milhares de corredores na cotidiana e tediosa USP de sempre e evitar trechos como a Paulista é algo que simplesmente não me entra na cabeça. É como se o evento fosse feito só para constar ao invés de ser encarado como um atrativo de potencial turístico como tem as maratonas de Nova York ou Chicago.
Mas, enfim, é o que se apresenta. É a oportunidade de correr 42km em um percurso demarcado, com hidratação e em pleno domingo.
Nesse ano, serão duas oportunidades: a de abril, tradicional no calendário, e a Golden Run, entre o primeiro e segundo semestre, que tende a ser mais organizada.
Me inscrevi em ambas.
Como tenho um casamento no feriado de abril, ainda não estou certo de conseguir chegar a tempo na primeira maratona – mas tentarei. No mínimo será uma oportunidade de ouro para eu reencontrar meus amigos de Comrades que provavelmente estarão fazendo seus últimos longões antes de embarcar para Durban.
A maior esquisitisse da relação com a prova? Ela é, provavelmente, a que menos gosto de todo o calendário de corridas – mas a que mais participo!
Checkpoint: Business as usual
Às vezes, a sensação de realização vem de onde menos se espera.
Voltei de São Bento do Sapucaí feliz pelos 50Kms na majestosa Serra da Mantiqueira, mas com o corpo mastigado pelas pouco mais de 10 horas de trajeto. Se a ideia era encarar a prova como um treino, então a semana posterior – esta – deveria ser uma espécie de volta ao normal, com um tempo de recuperação muscular mínimo.
E foi exatamente isso que aconteceu.
No final das contas, o domingo acabou fechado com 80km rodados, incluindo três longões de 20, 31 e 17, respectivamente, e praticamente emendados. Cansaço? Claro: mas dentro dos limites do esperado.
O pace, ainda mais lento que pretendo que fique em mais algumas semanas, já se acelerou um pouco; a motivação veio a toda.
Ainda falta muito tempo para o Caminhos de Rosa, é fato. Mas o treino parece estar já muito bem engatado. E foi daí que a sensação de realização apareceu: nenhuma relação com prova, medalha o tempo de conclusão de nada, mas sim com uma transição absolutamente fluida, perfeita, para o estado normal de treino pesado.
Business as usual
Indomit SP já está no passado. Apesar dos aprendizados, com uma boa notícia colhida ontem: no final das contas, mesmo tendo estourado o tempo em 11 minutos, a organização me considerou concluinte e acabei ganhando os três pontos para Mont Blanc – ufa!
Agora é seguir viagem – ou melhor, seguir no treino rumo aos sertões em agosto.
E não dei muito sossego para o corpo essa semana. Sim, as dores no corpo que permaneciam me geraram a prudência de evitar os 10K previstos para a terça – mas, como acabei me sentindo zerado no dia seguinte, encaixei 10 a mais ao longo da semana. E hoje, pressionado por um compromisso às 10, levantei às 5 para rodar 30K.
Não tenho problema de acordar às 5 – até gosto, por incrível que pareça. A cidade fica vazia, o silêncio impera e todos os caminhos parecem mais abertos. O problema é a escuridão – demais para ir correndo atravessar a Marginal ou perambular pelo centro que, sem a luz do sol, fica tomado por zumbis.
Conclusão? Fui pro Ibirapuera! 4 voltas grandes pela trilha somada à ida e volta faziam o tempo perfeito. Só que faziam, também, uma espécie de tédio perfeito.
Como conseguirei rodar provas de 6 ou 12 horas em pista, uma de minhas metas futuras, não tenho ideia: mas a última volta foi percorrida com direito a xingamentos e a uma quase – quaaaaaaase – desistência.
Treinamento para a alma, talvez? Se for, que bom que acabou concluído.
Amanhã tem mais.
Ou, como se diz no jargão corporativo, “business as usual”.
(Que bom que, nesse caso, isso significa testemunhar cenas como essas abaixo):
Vídeo: KTR Campos do Jordão Oficial
Saudades da Serra da Mantiqueira…
Vídeo: ÖTILLÖ – The Swimrun World Championship
Alternar corrida em trilhas com natação nas gélidas águas do norte europeu: isso sim é desafio.
Já tinha ouvido falar desse “esporte exótico” por aqui, mas esses vídeos são entusiasmo puro.
Quem sabe um dia?
A lição do menosprezo
Eis uma lição que aprendi na Indomit São Bento do Sapucaí: menosprezar provas faz mal.
Quando me inscrevi, a ideia era apenas ter uma espécie de treino de luxo, uma etapa relativamente simples no caminho até os 140km dos sertões mineiros em agosto.
A semana que me levou até os 50K não teve nenhum milímetro de diminuição de ritmo ou volume – foi uma semana normal, por assim dizer.
Ignorei a altimetria acumulada de 3,450m: o máximo de subida que treinei ficou no Cruce, lá no distante mês de fevereiro.
Quando cheguei em São Bento não sabia direito sequer o horário da largada de tão despreparado que estava. O resultado foi óbvio: penei muito mais do que deveria ter penado.
Cheguei até o final, é verdade: mas certamente poderia ter feito o mesmo em um estado menos cadavérico.
Prova é prova – mesmo que seja parte de um treinamento. E uma prova da Indomit carrega no sobrenome a certeza de desafios que estão longe de serem meras brincadeiras.
O que dizer agora? Lição aprendida!
Beleza vicia
Já no domingo, horas depois de chegar em casa de São Bento do Sapucaí, me peguei vasculhando sites em busca de uma próxima ultra.
Fiz isso escondido, acrescento: ser visto em casa entre gemidos de dor buscando uma próxima prova massacrante poderia ser interpretado como sinal de indiscutível loucura, talvez me rendendo um passeio até o manicômio mais próximo. Era prudente evitar.
Depois de um tempo, no entanto, entendi melhor o que estava acontecendo. É simples: beleza vicia.
Não há pontadas de dor nas coxas mastigadas pelos 3.500 metros de subida ou pelas unhas buscando fugir dos seus respectivos dedos que superem um único suspiro de paisagem maravilhosa. Mesmo nos momentos mais difíceis, como chegar ao primeiro cume ou serpentear sem água por um improvável bananal parece, aos olhos atuais, uma frugalidade.
A falta de água não deixa memória: o bananal com suas folhas abafadas tentando, inutilmente, esconder as montanhas, deixa.
A lembrança do esforço se esvai antes mesmo dar dor: a imagem da serra se exibindo, com seu verde clorofilático, em um show quase erótico, fica.
E são essas imagens, essas cenas e sensações, que praticamente ordenam os dedos a passear por sites buscando a próxima serra, as próximas gotas de suor endorfinado, as próximas linhas de largada.
Sim, beleza vicia.
Não vou dizer aqui que seja um vício saudável. Talvez nenhum seja, é bem verdade – mas passar 10, 15 ou 20 horas correndo sem parar certamente está ali pertinho de alguma droga pesada.
Mas, já que não mata, o que se há de fazer senão se entregar de peito, alma e pernas a toda essa beleza que cisma em se traduzir em percursos improváveis?
Que venha mais beleza. Que venha uma próxima prova.






