Fazer um bate-volta pro Rio é sempre um exercício mental

É difícil negar que o Rio de Janeiro seja uma das cidades mais bonitas do mundo. Para quem curte qualquer tipo de esporte, então, ela praticamente exala energia por todo canto: na orla de Copacabana, Ipanema e Leblon, na Tijuca, no aterro, na Lagoa, na Barra.

Daí a dificuldade.

Quando venho a trabalho para cá, costumo ficar apenas o dia: chego de manhã cedo, a ponto apenas de ver o sol brilhar sobre o Pão de Açúcar pela janelinha do avião, passo horas em reuniões e volto no final da tarde, quando pessoas mais felizes estão começando a devorar os calçadões com seus tênis.

Treinar a mente? Só ter que fazer o corpo a obedecer a rotina e entrar no avião, conscientemente deixando para trás uma paisagem ridiculamente convidativa como a do verão carioca, já garante força de vontade suficiente para completar qualquer ultra de 100 milhas!

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Mirantes de Arrayanes

A primeira corrida de 2015 tinha mesmo que ser memorável.

Ontem, sacudi a poeira do Reveillon logo cedo e saí às 7:30 para o Bosque de Los Arrayanes, em um dos extremos de Villa La Angostura. Não sabia muito o que encontraria ou mesmo se conseguiria entrar no bosque uma vez que era um Parque Nacional com horário de abertura mais tarde.

Ainda assim, fui. E não me arrependi nada.

A manhã estava absolutamente azul, sem uma única nuvem no céu e com picos brancos nas montanhas por conta da neve que caiu na noite de ano novo.

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O caminho em si já era um presente, passando por uma estrada cercada de pinheiros gigantes, cruzando uma igrejinha de pedra do começo do século XX e desembocando em uma baía de águas cristalinas.

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Em um canto, uma placa indicava a entrada do bosque. Estava mesmo fechado mas, sem correntes no portão, foi fácil ser seduzido pelo visual e desobedecer as regras.

Mais para dentro placas sinalizavam caminhos opostos: o bosque para a esquerda e dois mirantes para a direita. Subi para os mirantes.

Foram alguns quilômetros de subida bem íngreme, com trilhas bem marcadas serpenteando a montanha. Me arrependi de não ter levado os poles – mas nada que um pouco mais de força de vontade não resolvesse.

Aos poucos, depois de algumas curvas, os pinheiros foram ficando mais escassos e a vista começou a se desacortinar. Deslumbrante.

Os mirantes dão para a Baía Mansa e pra a Baía Brava, separadas pelo igualmente belo Ístmo de Quetrihue. Ao fundo, os lagos se estendem por toda a paisagem; no horizonte, picos nevados – incluindo os três que já havia subido (Cerros Belvedere, Inacayal e Bayo), davam um toque de magia; em cima, o azul intenso do novo céu de 2015 completava a tela.

Anos podem se passar, mas dificilmente em me esquecerei dessas paisagens andinas.

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Cheguei a ficar um tempo por lá, de pé, só com a montanha e a vista. Respirei, pensei, repensei. E voltei.

Voei morro abaixo com um senso de realização forte, compatível com a beleza que acabara de testemunhar.

Quando cheguei na base, estiquei ainda pelo outro caminho, rumo ao bosque, mas descobri que ele seguia apenas por 700 metros: por risco de desabamento, os Arrayanes poderiam ser alcançados apenas pelos mirantes, seguindo adiante ao invés de voltar.

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Por um lado, bateu uma certa frustração; por outro, no entanto, foi uma bela desculpa para que eu voltasse ao local antes do fim da viagem.

Checkpoint 7: Montanhas e trilhas

Semana com viagem a trabalho nunca é fácil: no mínimo, há uma semi-impossível conciliação entre uma infinidade de tarefas novas, locais, com o cotidiano que nunca dá trégua.

Mas, mimimis à parte, há também a possibilidade de explorar novos caminhos. Esse foi o ponto alto da semana: desbravar as trilhas de Paraty, com ou sem vistas, mata adentro, bebendo paisagens que deixam claro o motivo de toda essa transição do asfalto para a terra.

Aliás, é impressionante como a rua fica perde parte de seu encanto já depois das primeiras montanhas que se sobe.

Falando da semana em si, a quilometragem foi menor do que a média das anteriores – mas nada que não estivesse planejado. Depois de uma espécie de escadinha na volumetria, esses dias estavam programados para dar uma aliviada nas pernas e permitir que a musculatura digerisse melhor o que havia enfrentado. Não sei o quão efetivo isso foi dadas as mudanças de cenário (e altimetria), mas veremos nos próximos capítulos.

Esse mês tem prova nova: a Indomit, em Bombinhas, e já devo me focar mais para ela. Terei um papo com o Ian na terça sobre isso, ajustando as planilhas e fazendo um checkpoint geral de todo o processo de treino até agora.

Enquanto isso, amanhã é dia de descansar um pouco para começar uma semana que promete ser bem agitada!

Gráficos abaixo:

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A vista do alto da montanha

Cruzar uma montanha é revigorante em qualquer circunstância – destacando dias de céu azul contrastando com o verde forte e úmido da Mata Atlântica.

Mas a trilha de ontem ficou devendo algo importante: uma bela vista de cima. Quando cheguei ao topo, afinal, estava cercado por mata fechada e alta, praticamente me impedindo de “sentir” o cume.

Quis evitar isso hoje e me informei com amigos em Paraty antes de me embrenhar pela mata de novo. Indicaram outro caminho, saindo da estrada Paraty-Cunha e cruzando a Estrada do Condado. Lá há um portão semi-aberto com uma placa dizendo “Birds Paraty”. E setas: indicações para toda uma diversidade de trilhas levando ao cume.

Segui sem pensar duas vezes. As trilhas estavam mais secas mas com trechos mais técnicos e íngremes. Não havia mais ninguém por perto – perfeito quando se quer sentir melhor um lugar.

Alternando subidas com corridas, fui seguindo indicações e bebendo cada um dos cenários, com direito a sons, cheiros e toda uma profusão de cores. Passei por uma estrutura de madeira, alta, feita para se observar pássaros; segui em frente. Me guiei pelas subidas – afinal, elas sempre levam a lugares mais altos.

Até que, de repente, uma pedra gigante se colocou no caminho com uma escada de madeira indicando que ali era o ponto de chegada.

Subi.

E, de cima, com um suspiro de susto bem vindo, vi toda a cidade de Paraty estendida como um tapete entre o mar e as montanhas.

Impressionante.

A preocupação com pace, tempo e qualquer outra futilidade evaporou e eu simplesmente parei e fiquei lá por alguns instantes, fotografando e bebendo a vista.

Em lugares assim, o que faz alguém preferir correr no asfalto?

Difícil, quase impossível de compreender.

Na volta, diversão pura: poucas coisas são mais empolgantes do que descer uma trilha voando, saltando galhos e trotando a uma velocidade além do plausível.

Quando cheguei de volta à base estava ainda tão entusiasmado que rodei um pouco mais pela Paraty-Cunha, voltei e corri pela Rio-Santos até entrar na cidade e dar o dia por encerrado.

Comigo, trouxe imagens no IPhone e na mente que se somam no tipo de experiência perfeita que dá mais sentido ao próprio ato de correr.

Sensacional.

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Douro Ultra Trail: infos, fotos e percurso

Ontem à noite a equipe organizadora do Douro Ultra Trail atualizou o site com algumas informações sobre a prova, mapas novos e um mar de fotos.

Não posso mentir: realmente ainda estou com um pouco de medo de encarar 80km de trilhas pelas montanhas, somando 4,5 mil metros de ganho altimétrico.

Mas, aos poucos, esse temor está se convertendo em ansiedade. Basta ver as imagens do percurso, aliás, e isso fica bem fácil.

Os 80km incluem atravessar a região do Rio Douro, possivelmente a parte mais bela de Portugal, justamente na época de colheita de uvas para o vinho. Inclui cruzar a magnífica Serra do Marão passando por aldeias antigas e atravessando pontes feitas pelos romanos. Inclui ver algumas das paisagens mais marcantes de toda essa região da Europa, mesclando natureza a história em um equilíbrio perfeito.

A essa altura faltam poucas semanas. 2 meses, para ser exato, já que a largada será no dia 13 de setembro.

E o coração já começa a palpitar mais rapidamente à mera lembrança da prova…

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