Checkpoint: Curtindo a jornada

Depois da semana de descanso, que venha a intensa. Volumetricamente, aliás, bem intensa, ao menos pelos meus parâmetros: foram quase 95km, o mais que fiz desde o Cruce.

A “fórmula”, ao menos até agora, está funcionando: como comecei fresco, novo, realmente fechei o domingo impressionantemente inteiro – mesmo considerando uma quase-maratona ontem e uma quase-meia hoje.

Pelas próximas duas semanas o ritmo será igual ao desta. Imagino que chegue ao término da última ansioso pela semana de descanso – mas só esperando para ver.

Há algo de sensacional nisso tudo: o próprio ato de testar um modelo novo de treino, registrando semana a semana seus resultados no corpo, me deixa tão empolgado quanto se estivesse correndo uma ultra.

A jornada, por vezes, pode ser mais interessante que o destino.

Aumentando os longões na companhia de nobres espíritos

Em algum momento, afinal, chegaria o dia em que o volume de treino subiria para o compatível com a meta de 140K.

Bom… chegou. E, enquanto eu nutria algum receio quanto a treinos superiores a 4 horas, acabei esquecendo de como esse tempo todo sozinho com os passos faz bem.

E como fez. Primeiro, pela companhia: enquanto seguia rumo à USP e circundava seu percurso, os últimos capítulos do audiolivro Um Conto de Duas Cidades, de Dickens, me mantinham ocupado entre a tensão da Consiergerie e a exclamação da guilhotina revolucionária. 

Ele acabou, no entanto, antes da corrida. 

Fiquei um tempo sorvendo o final enquanto cruzava a ponte até o meu segundo destino, o Parque Villa-Lobos. A São Paulo daquelas bandas é outra cidade: arborizada, esportizada, despoluída nos mais diversos aspectos. Mas, entre passadas e pequenas rajadas de vento que pareciam acordar as folhas, senti vontade de alguma nova história. 

Histórias viciam; o tempo proporcionado pelos longos treinamentos de ultra são a agulha perfeita.

Parei e olhei o iPhone: havia um audiolivro baixado e ainda intacto, agoniado para começar a soprar suas palavras ouvido adentro. Era a hora perfeita.

Meia dúzia de cliques depois e estava saindo do parque e subindo a Cerro Corá ouvindo o Grande Gatsby. Outro tempo, outro continente, outra dimensão – mas o mesmo efeito de me surrupiar o pensamento para muito além de qualquer mero percurso.

E assim – com apenas uma ou outra parada para foto de paisagens urbanamente exuberantes, fiz meu caminho pela Heitor Penteado, Paulista, descendo a Brigadeiro, cruzando a Lorena e subindo de volta a Bela Cintra.

O relógio exibia 10:30 da manhã quando terminei os quase 40km rodados. Estava levemente cansado, claro – mas ainda imerso nos universos da Paris revolucionária e Nova York do seu primeiro surto desenvolvimentista. 

Era hora de pausar as histórias.

De respirar.

De olhar em volta.

De começar o dia.

Vídeo: Caminhos de Rosa, parte 1

Recentemente, o André Zumzum, Diretor de Prova do Caminhos de Rosa, segmentou o documentário que fez no ano passado em 4 pequenos vídeos.

Já estou em pleno treinamento para a prova e com um nível poderoso de motivação. Nesses momentos, todo e qualquer material – fotos, vídeos, depoimentos etc. – é sempre bem vindo.

E, como há tempo até lá, vou sorvendo esse conteúdo aos poucos, um de cada vez, exatamente como costumamos correr ultras.

O primeiro segue abaixo: dá para sacar a força histórica e o calor intenso em cada cena.

Que venha agosto!

 

 

 

O outro lado do treinamento

Dizem que uma ultra se corre mais com a alma do que com o corpo.

Concordo, embora o corpo seja essencial para uma travessia com tantos quilômetros, vilas e cenários no caminho. Ainda assim, por melhor preparado que se esteja fisicamente, o nos permite engolir quilômetros decididamente não são as pernas.

Estas já estão em pleno treinamento para o Caminhos de Rosa com planilhas montadas, metas estabelecidas e controles rígidos pelo caminho. 

Agora, no entanto, é hora de preparar o coração e a mente.

É hora de mergulhar no sertão de Guimarães Rosa. 

É hora de deixá-lo entrar pelos olhos e fixar-se na alma, de onde sairá a meu socorro – assim espero – quando tudo mais falhar entre o Morro da Garça e Cordisburgo.

Hoje começa o treinamento dos olhos, do coração, da mente, da alma.

E não há planilha melhor para isso, claro, do que esse guia mestre.

Checkpoint: A calmaria que antecede a tempestade

Leve de verdade. É a primeira vez que reduzo tão drasticamente o volume de treino durante o ciclo de preparação de uma ultra. 

O objetivo: dar um pouco de tempo ao corpo para que ele se “cure” entre um micro-ciclo e outro, claro. Se está funcionando? Só o tempo dirá. 

No total, rodei pouco mais de 50K essa semana – bem menos que os 90 da anterior. Destes 50, metade foram entre ontem e hoje, uma concentração que talvez mereça ser repensada uma vez que as pernas acusam um cansaço incompatível com o que eu esperava para o final de domingo. 

Ainda assim, inegavelmente, estou fechando a semana bem mais light do que o fiz na semana anterior. Espero, também, que melhor preparado: os próximos 21 dias serão pesados, com uma média de 90-95K por semana. 

Faz parte, claro. Estranho seria rodar pouquinho e esperar completar os 140K do Caminhos de Rosa, sob o sol do sertão e com a aridez poeirenta como paisagem, inteiro. 


 

15km improváveis

Um casamento me levou para uma praia improvável: Itapoá, no litoral de Santa Catarina. 

O improvável foi sensacional. 

Com temperatura acima dos 30 graus, céu sem uma única núvem para manchar o azul, saí para 15km pela areia firme, quebrada apenas por um ou outro riacho adoçando o mar a partir do verde do outro lado. 

Tinha tudo que eu mais gosto: calor, sol, visual e um vazio daqueles que força a mente a viajar e o peito a se encher. 

Tinha também um mergulho bem vindo acompanhado de uma ultra bem vinda nadada salgada, um vai-e-vem que chegou a dar tontura por conta das marolas que balançavam o corpo. 

Nem parecia real, aliás: no dia anterior eu estava em São Paulo; na mesma noite de hoje, já escrevo este post da minha casa em meio à selva cinza da metrópole. 

Tanto melhor: o improvável ganha tons de sonho quando ocorre em um intervalo tão curto de tempo. 

Para contrastar – mesmo porque contrastes são perfeitos para marcar bem os acontecimentos – pretendo rodar mais 15km amanhã por um cenário oposto: algo como Barra Funda ou região da Luz, no centro velho. 

Algo que troque o ar cristalino soprado pelo mar pelas ondas cinzas da história paulistana.

Algo que troque a ingenuidade da praia pela malandragem da cidade grande. 

Algo que me permita digerir melhor no corpo essa viagem mental que foi correr, em um dia como outro qualquer, na mais improvável das praias para um baiano radicado em São Paulo. 

Improvável e, acrescente-se, absolutamente perfeita.