Pelo lado de dentro

Não consegui “descansar” ontem: já pela manhã troquei o day-off por 10K entre a vila e a praia, desbravando territórios e paisagens novos. Difícil convencer a mente de ficar quieta, desistindo de comandar as pernas, quando se está em cenário tão convidativo.

Mas queria variar um pouco, deixar as trilhas de areia fofa para trás nem que fosse por um punhado de tempo. Há mais para se ver no Nordeste do que areia e mar, afinal.

Hoje cedo, com 15K de meta, tomei o rumo da vila de Fortim. Peguei a pequena estrada de areia que saía do hotel e fui até o asfalto por uma reta só. Era cedo, antes das 6:30, e tudo parecia uma espécie de versão diurna, clara, da mais densa noite. Nenhuma alma atravessava o caminho e o silêncio era cortado apenas pelo assobio do vento e chacoalhar das árvores.

Na primeira vila, uma igrejinha antiga imobilizava o tempo. Sua pintura era tão caricaturalmente gasta que, somada às casinhas pobres no entorno e aos distantes latidos de vira-latas, desenhava um cenário absolutamente sertanejo.

FullSizeRender

Atravessei e segui em frente, pelo asfalto. Ainda era cedo mas, mais longe do litoral e da brisa, o calor começava a apertar. No caminho, campos abertos pontilhados apenas por árvores mais resistentes à aridez desenhavam o horizonte. Uma ou outra cedia suas preciosas sombras para casebres pobres, com as portas entreabertas deixando à mostra uma escuridão úmida com ares de eternidade.

IMG_0275

Mais adiante, os primeiros sinais da vila de Fortim apareciam em forma de menos campados e mais casas – todas, no entanto, no mesmo estilo centenário, como que inspiradas em uma arquitetura portuguesa que qualquer um ali dificilmente conhecia. As casas, a vila, as pequenas praças e as igrejas pareciam ter sido plantadas naquele cenário há tanto tempo quanto o próprio mundo.

Depois de uma praça com um busto dourado de alguém que deve ter enriquecido a partir da miséria alheia – único motivo pelo qual monumentos são erguidos no interior nordestino – um velho mirante se prostrava, igualmente abandonado. Fui até lá: a vista era de tirar o fôlego.

Dois banquinhos sentavam sob a sombra de árvores frondosas, olhando atentamente ao Rio Jaguaribe que, lá longe, cortava dunas de areia branca e desembocava no mar azul. Impressionante.

IMG_0274 IMG_0273Não sentei nos banquinhos, mas fiquei ali, parado, quase que me eternizando na paisagem.

Depois saí.

Uma velha sertaneja varria sua calçada, tirando a mesma areia que, minutos depois, certamente voltaria carregada pelo vento. Bares já começavam a abrir, juntamente com mercadinhos e portas que entregavam à vila crianças em busca de diversão.

IMG_0272

Era uma terça-feira qualquer perdida no final de julho: quente, úmida, com ares de cotidiano naqueles interiores. A vida, de uma vagarosidade impressionante, começava a andar enquanto eu corria de volta para o hotel.

Estava na hora de entrar no ritmo da metrópole ditado pela Internet e pela interminável lista de tarefas que incluíam apresentações, conference calls via Skype, pilhas de emails e Whatsapps para dar conta.

A aceleração do dia-a-dia paulistano parecia, àquela altura, impressionantemente distante da realidade – mas já me chamava em alto e bom som.

O dia que faz tudo valer a pena

Às vezes, quando viramos uma esquina no meio de uma trilha ou erguemos a cabeça, nos deparamos com paisagens que dificilmente sairão da retina. São essas vezes, infelizmente menos comuns do que se costuma sonhar, que fazem corridas em locais pouco cotidianos valerem a pena.

Ontem foi um desses dias.

Acordei sozinho, sem despertador, por volta das 5:30 da manhã – e já saí do quarto bêbado com o cenário. Uma praia que beirava o infinito se estendia em minha frente, pontilhada apenas por jangadas cearenses espalhadas pelo areal e, lá no fundo, atrás de falésias vermelhas, um conjunto de torres eólicas.

Corri pela praia, que ostentava uma maré baixíssima que fazia o chão parecer um espelho ocre ilustrando o céu inatacavelmente azul. Fui por uns 6, 7km até chegar no Rio Jaguaribe e segui margeando-o. O cenário cedeu, ficando mais parecido com um mangue, e barcos ainda adormecidos pareciam ansiosos para carregar turistas para a outra margem, onde ficava Canoa Quebrada.

Ainda assim, segui até onde consegui: parei apenas quando um cachorro furioso decidiu avançar sobre mim, me fazendo entrar com tudo no rio, o que certamente gerou uma carga de adrenalina eletrizante. Continuei um pouco dentro do rio até sair do seu alcance e voltei para a areia. Estava na hora de mudar de rota.

Entrei à esquerda por uma ladeira invadindo um pequeno povoado, daqueles que mistura pobreza com o ar bucólico que apenas o nordeste guarda. Passei por uma igrejinha típica, de uma vila típica, com pessoas típicas varrendo o chão. Tudo era tão típico que parecia até cenário de novela. Não era.

Fui mais algum trecho por ela até decidir tomar uma trilha de areia fofa que parecia margear o oceano. Sob o calor já escaldante, aquele momento pertencia ao suor e ao ácido láctico que cismava em reclamar.

Pelo menos até que os arbustos subitamente ficaram menores e o horizonte inteiro se abriu.

Se abriu não: se impôs em forma de susto visual, roubando cada gota de concentração para si. Estava rodeado por campos secos, dunas, mar e céu azul, todos pontilhados apenas por um farol distante e grandes pedras vermelhas como o fogo. A paisagem era tão incrível que foi difícil até mesmo entendê-la: entre passos, ficava olhando atentamente a tudo e tentando gravar na memória cada átomo de pura beleza.

Tirei fotos, parei, respirei fundo. Corri de um lado para outro, tentando alcançar vistas mais belas como se fosse possível. E pior: era. A cada morro, uma nova cena se abria, intensa, forte.

Fiquei até aqueles segundos antes do cansaço.

A volta, já pela praia, poderia ter sido pelo asfalto de alguma periferia qualquer: estava com tudo aquilo tão gravado na memória que nada mais, nem o calor ou o sol, nem o mar, nem o cansaço e nem mesmo a perspectiva de repetir o percurso inteiro faria qualquer diferença. Minha retina estava irremediavelmente manchada pela beleza.

Foi uma das corridas mais incríveis da minha vida.

   
    
    
    
 

Checkpoint: Hoje, só gráficos

Não há nada além deles que poderia escrever hoje: ainda estou impressionado com as paisagens impressionantes pelas quais corri pela manhã aqui no Ceará.

Só amanhã para conseguir escrever mais sobre elas…

Enquanto isso, apenas uma observação: para que conseguisse analisar melhor a evolução, cortei um pouco os gráficos para que iniciassem no começo de junho deste mês. O resto está todo aqui, armazenado para uma análise de longo prazo quando esta se fizer necessária.

Screen Shot 2015-07-26 at 7.02.51 PM

Screen Shot 2015-07-26 at 7.03.18 PM

Buscando a paisagem “errada”?

Esse será o cenário para a semana que vem inteira:

  
Perfeito, não? Praia calma, águas refrescantes e aquele clima zen que só o nordeste consegue entregar ao país.

É nessas horas que descobrimos o quanto corredores devem mesmo ter problemas. 

Usei o Google Street View na região que estarei, no litoral cearense, e eis o que apareceu: 

  
É mais ou menos em ruas de terra assim, castigadas pelo sol inclemente e beirando paisagens que se situam entre a miséria e o bucólico, que correrei nos próximos dias. 

Curiosamente, estou muito mais empolgado com esse novo território para correr do que com qualquer praia. 

Vai entender…

Inundação

Acho que nunca, em nenhum outro momento, tomei tanta chuva quanto agora à noite. 

Quando saí para correr, já nas primeiras horas da noite, o céu até parecia claro. Um friozinho leve, quase imperceptível, aliviava os passos e embalava a corrida. O parque estava vazio, o que dava uma sensação de liberdade até maior – além de impregnar o horário de rush de uma sexta com um tom estranho, quase exótico. 

Quando terminei a primeira volta, uma ou outra gota pontuou o chão. De leve. Finas. Separadas por metros. 

Continuei para a segunda volta – queria fechar 15K hoje. 

Na metade da segunda volta, a água decidiu desabar. 

Relâmpagos iluminaram o céu. 

Trovões simularam fogos de artifício dignos de finais de Copa do Mundo. 

Pingos grossos pareciam capazes de furar o asfalto, raivosos, estressados. Em um determinado momento, parecia que os Deuses haviam despejado seus baldes sobre o Ibirapuera. 

Apertei o passo, agora preocupado com a capacidade da braçadeira de manter seco o celular. Pelas ruas, puro caos: rios margeavam as ruas, sacos de lixo atravessavam bueiros, carros buscavam escapar de enchentes. Na Estados Unidos, cruzei de um lado a outro saltando obstáculos como se estivesse em uma corrida de aventura. 

Na Bela Cintra, a força das águas descendo a ladeira quase me derrubou uma, duas, três vezes. 

Estávamos inundados: a cidade e eu. Na verdade, era tanta água que seria difícil nos distinguir: éramos um só morro de massa disforme no caminho das cachoeiras urbanas. 

Mas fui, me movendo como podia. Com cautela para evitar passos em falso, caindo em buracos camuflados, mas ainda assim com a pressa de quem quer terminar logo. 

Depois de alguns minutos, terminei. 

Entrei no prédio mais molhado do que se tivesse morrido afogado. Olhei para o relógio: meta cumprida. 

Olhei para o celular: funcionando. 

Respirei fundo. 

Encerrei o dia.

  

Emendando noite com dia

Ontem acordei empolgado. Estava inteiro, intacto e com sede da rua. 

Tinha uma reunião no Shopping JK, nas redondezas da Faria Lima, que terminaria entre 18:30 e 19:00. 

Na programação, tinha uma hora incluindo alguns tiros para acelerar a musculatura. Mas 1 hora era pouco. 

Saí do Shopping tomando o rumo do Ibirapuera em uma sessão improvisada de 1h30 com 3×15′ de tempo run. Voei pela avenida e por duas voltas ao redor de um Ibirapuera frio, escuro e curiosamente deserto. Foi bom: pouca gente equivale a mais espaço. 

Cheguei tarde em casa. Cansado pela intensidade do treino, mas inteiro. 

Por conta da viagem no sábado, teria treino também no dia seguinte – hoje – à noite. Mas não deu. 

Ou melhor: deu demais. Acordei às 6:00 com uma empolgação em alta e tempo de sobra – só precisaria sair para o trabalho às 9. 

Voltei ao parque, mais uma vez para uma sessão de 1h30, embora sem os tempos de ontem. Peguei o sol nascendo no caminho, cortando a Groenlândia, e os primeiros raios na trilha do parque exalando aquele cheiro de manhã incrível. 

Não vou mentir: emendar um treino à noite com outro na manhã seguinte cansa – mas canaço faz parte. E, desde que não desmotive, desestimule ou lesione, faz bem. Cheguei em casa às 8, pronto para começar o dia com a endorfina pulsando forte nas veias. 

E, curiosamente, pensando já no treino de amanhã…

Às vezes nem sabemos o que ou como uma determinada explosão de motivação surge – mas, sempre que isso acontece, é importante agarrá-la como se não houvesse amanhã e exaurir cada gota de energia possível. 

Suar, afinal, faz um bem inacreditável. 

  

‘Finding Traction’ disponível online

Faz tempo – muito tempo – que eu quero ver o filme ‘Finding Traction’, com a corredora Nikki Kimball. Em linhas gerais, é um documentário que narra a jornada dela pelos 440km das Green Mountains, nos EUA.

Claro: tudo o que costuma acontecer em uma ultra – mesmo as “pequenininhas” – aparece de maneira concentrada aqui. Inspirador.

E agora disponível no Youtube.

Para quem quiser ver, é só apertar o ‘play’ abaixo.

Diverta-se:

Checkpoint: Sobre mochilas de hidratação, centro de gravidade e biomecânica

Nada melhor que um giro de desbravamento por alguma cidade, praia ou montanha para estabilizar corpo e mente. E por estabilizar, neste sentido, entenda-se esfriar a cabeça, aquecer o peito e deixar o corpo em estado mais sólido. 

Ainda não estou 100% daquela dor no joelho direito – mas agora já posso chamá-la de um leve incômodo que desaparece na medida em que passos são dados na rua. Principalmente, aliás, quando estou sem a mochila de hidratação. 

Li em algum lugar que mochilas tem esse lado negativo, de forçar uma espécie de quebra na biomecânica e atrapalhar o delicadíssimo equilíbrio que se traduz em um centro de gravidade claro. Confirmei isso ontem, depois da (inspiradora) corrida pela Mooca e centro de São Paulo. No total, fiz apenas o equivalente a uma meia maratona – mas pausas para fotos e para checagem do mapa fizeram o tempo se estender por cerca de 3 horas. Resultado: no período da tarde, quando o corpo já estava frio e livre de qualquer resíduo de ácido láctico, o tal incômodo (que não dava as caras faz dias) voltou a me visitar.

Pensei bastante antes de correr hoje…. mas o dia estava tão azul, tão convidativo, que fui guiado quase que espiritualmente até o tênis. Para a minha surpresa, não senti nem vestígio de dor. Foi o suficiente para me levar à conclusão relacionada ao uso da mochila. 

Bom… mas essa conclusão, verdade seja dita, não me serve de nada: em longos percursos, usá-la é algo simplesmente obrigatório. Terei apenas que redobrar a atenção quando o fizer, garantindo que ela meio que seja parte integrante do corpo, por assim dizer. 

Correndo e aprendendo :-)

   
 

Mooca: Correndo pela Era Industrial de Sampa

Tudo bem que o plano era fazer 30km em 3 horas… mas quem se importa?

A ideia mesmo era desbravar a pé uma região de São Paulo que, exceto por uma ou duas incursões de carro no passado, permanecia um mistério para mim: a Mooca.

E, assim, saí Paulista afora programando um giro antes pelo Parque da Aclimação. Os objetivos lá eram três: aproveitar os primeiros raios de sol cortando um céu azulíssimo em um lugar realmente lindo; acostumar os olhos às pequenas casinhas da região, já com ares da década de 50 ou 60; e evitar passar pelo Glicério, perigoso demais mesmo pra aquelas horas.

De lá, entre uma e outra ladeira, passei pela D. Pedro I, já próximo do Ipiranga, Cambuci e, de repente, estava atravessando trilhos de trem. Uma avenida imensa de trilhos, diga-se de passagem, o que alertava para a chegada na Era Industrial de São Paulo. 

  
Estava na Mooca.

De lá, cruzei algumas ruas e me deparei com o Teatro Arthur Azevedo – uma construção com ares de 1960, meio acinzentada e ainda sólida.  

 
Segui pela Paes de Barros. Havia uma rua ali famosa por ter mantido as típicas casas de operários e imigrantes italianos, a Henrique Dantas. Cheguei nela no exato instante em que velhas moradoras, provavelmente amigas de décadas, se despediam na porta de casa. 

   
   
Perfeito. A rua parecia sair de um filme de época, intocada, colorida, meio enferrujada. 

Mas precisava seguir. De lá, passei no velho e tradicionalíssimo estadio do Juventos na Rua Javari, outro símbolo da imigração italiana, e por incontáveis galpões industriais.

   
   
Tudo ali, incluindo um museu destinado à imigração à beira de outro conjunto de trilhos que ainda contavam com uma Maria Fumaça, respirava décadas de 40, 50, 60. Era a base, por assim dizer, da origem das fortunas modernas paulistanas. 

  
E correr por ali foi cruzar o tempo.

Voltar, ainda por cima, me faria refressar o calendário ainda mais. Segui pelo centro, atravessando um viaduto que deixava à mostra, lá em baixo e de longe, a Baixada do Glicério. Colorida, perigosa, mendigada, traficada, populosa. Até deu vontade de mergulhar naquele caos por alguns instantes – mas preferi escutar o juízo e voltar.

Tomei o caminho da Sé, passando pelo Centro Histórico, cortando a Avanhandava e tomando a Augusta.

   
 
Estava em casa e 3 horas já haviam se passado. Mas a quilometragem? Bem…. entre pausas para fotos e para conferir o Google Maps, mal cheguei aos 21km!

Sem problemas: a distância se compensa amanhã. Hoje, no entanto, foi dia de deixar entrar pálpebras adentro memórias de uma São Paulo que nunca vivi, em tempos passados e lugares distantes, mas que me deixarão fascinados por muitos e muitos anos.

Há que se amar essa metrópole.

(Clique para acessar o mapa interativo)