El Cruce: Os camps

Escrito nas montanhas argentinas em 13/02/2016

Difícil falar do segundo dia sem antes falar da primeira noite no camp. 

Frio e chuva dominaram a paisagem. Não que tenha sido aquela chuva torrencial, mas foi uma garoa fina, gelada e permanente que durou até o dia raiar. No camp em si, a infra acabou nos deixando o mais próximos possível do confortável: havia churrasco a qualquer hora, café, uma tenda de relax, uma específica oara se recarregar as baterias dos relógios e barracas até que confortáveis. 

Neste ponto eu dei MUITA sorte: em um acesso de pão-durice no ato da inscrição, não reservei uma barraca só para mim e fui designado pela organização uma outra pessoa com quem dividiria. Isso significaria espaço apertado e dois dias dividindo barraca com alguém que, como eu, estaria por muito tempo sem banho e com suor.

Mas a palavra-chave aqui é “dividiria”. Meu companheiro acabou não vindo e a barraca – ainda bem – ficou só para mim!

E olhem que espaço:

   
    
  
  

El Cruce: Dia 1

Escrito na beira no Lago Lácar, ao lado de Hua Hum, fronteira da argentina com o Chile, em 12/02/2016

Terminada a primeira maratona, era hora de rememorá-la.

Tarefa fácil, já que o percurso era incrivelmente lindo, com trilhas deliciosamente suaves e vistas embasbacantes – tudo ainda somado àquele clima de ultras que se vê desde a largada:

  

Não digo que tenha sido fácil: em qualquer circunstância, uma maratona de montanha é sempre uma maratona de montanha. Essa, que chegou a 44km com mais uns 1.200m de subida, não seria diferente.

Ainda assim, parece que foi. Há, afinal, uma diferença entre esforço e percepção de esforço. Quando se está em terreno “virgem”, com vistas alucinantes, em uma prova icônica cruzando a cordeilheira dos Andes até pisar no Chile, a percepção é menor.

E fica ainda melhor quando temos uma primeira experiência de vida de camping em plena prova, com direito a churrasco de chão na chegada, tenda de relaxamento e um rio cristalino (embora ridiculamente gelado) para tomar “banho” (ou algo próximo disso).

Pontos memoráveis:

Percurso, claro. Não haveria de ser diferente.

As descidas em trilha, principalmente da primeira montanha. Foi tão intensa quanto descer uma ribanceira no ponto morto – e, por isso mesmo, deliciosa. Não me lembro de ter voado tanto em algum trecho antes como nesse.

As filas. Fica como o único ponto baixo: pedir licença para passar nos single tracks que empacavam sem nenhum motivo concreto era o mesmo que solicitar passagem a uma parede. No final, só consegui correr solto mesmo quando pedia licença e seguia antes da resposta.

O camping. Sensacional. Nunca imaginei que fosse algo assim tão perfeitamente organizado.

O rio. Tomar banho em um rio andino que desce das montanhas é revigorante como poucas coisas!

Bom… por enquanto, é só. Apesar deste post ir ao ar apenas no domingo, ele está sendo escrito de dentro da minha barraca ao término do dia 1. Hora, portanto, de deixar os pés para cima e descansar: amanhã tem mais prova – incluindo o começo real das subidas às montanhas “de verdade”!

   

  

  

  

  

  

  

    
    
    
    
 

Vídeo: Dia 2 do Cruce

Faltam minutos para eu largar – mas pelo menos deu para conferir o vídeo do que será meu segundo dia, gravado nos calcanhares dos que começaram a ultra anteontem.

O terceiro, ao que parece – e que também é considerado o mais bonito por ser rodado na alta montanha – ficará como um mistério muito bem vindo para mim.

E vambora que os Andes aguardam!

Em 60 minutos.

Em 60 minutos, deixo a minha sacola com roupas e mantimentos para os campings na organização do Cruce. 

A partir desse momento, ficarei apenas com roupas e equipamentos para largar às 08:20 de amanhã, 12/02.

A partir desse momento, o Cruce efetivamente começará para mim. 

E, como não poderia deixar de ser, a ansiedade parece espessa ao ponto de impedir que eu consiga raciocinar além desses mesmos 60 minutos. 

Pela previsão do tempo, teremos 3 dias mais frios e com chuvas entre os finais de tarde e noite. Durante os percursos, no entanto, o céu claro deve reinar, abrindo caminho para vistas que certamente serão memoráveis. 

Pelo que vi na Internet dos grupos de corredores que já largaram, houve certamente muito mais sorrisos do que sofrimento estampado em seus semblantes. Bom sinal. 

Pelo que estou sentindo nos rostos de todos os corredores que ainda se preparam, incluindo os três novos amigos brasileiros que fiz aqui (Márcio, Francisco e Reginaldo, todos largando junto comigo), o desejo de se teletransportar até o dia de amanhã é generalizado. Ô, tempo que não passa quando queremos que ele voe!

Exceto por estas poucas conclusões ou previsões, não sei de mais nada. Não sei sequer se conseguirei postar alguma coisa de lá das montanhas, embora a lógica diga que não. Se for o caso, atualizo o blog quando voltar, no domingo, recheando-o com fotos e descrições mais próximas da realidade do que do imaginário. 

Enquanto isso, o que fazer? Não há remédio: sentar aqui, com um olho na sacola e outro nos ponteiros aparentemente congelados do relógio. 

Por 60 longos minutos.

   
 

Vídeo: Como foi o primeiro dia que me aguarda

O título do post pode parecer um paradoxo gramatical – mas ele está certo. Explico: há 3 levas de largadas no Cruce, todas fazendo o mesmo percurso: o primeiro dia, ontem, foiçara a elite/ avançados; o segundo, hoje, será para duplas; e o terceiro, sexta, será para amadores (me incluindo aí).

E, como eles estão filmando cada uma das etapas e disponibilizando praticamente em tempo real na web, deu para sentir como será o meu primeiro dia. E, aparentemente, apesar de ser o dia mais longo (com 40K), ele será relativamente tranquilo, sem trilhas técnicas e com um percurso tão “corrível” quanto maravilhoso. Será uma espécie de boas vindas, creio.

Veja abaixo:

 

 

Caiacando pelo Lago Lácar

Enquanto há horas disponíveis e não há tarefas a serem feitas… que tal um rolê de caiaque por 4 horinhas pelo Lago Lácar?

Dá para usar músculos diferentes dos que precisam descansar (embora eu tenha feito um regenerativo básico de 5K hoje), conferir as águas cristalinas do lago com direito a trutas saltando, ver as montanhas de outro ângulo e, enfim, somar uma experiência diferente dos Andes. 

Perfeito! Duvida? Veja as fotos:

   
    
    
   

Abertura do El Cruce: God save the Queen?? :-)

De repente, uma mão me puxou e me perguntou algo em um espanhol tão rápido que, meio que no susto, apenas respondi “si, claro!”.

Em 5 minutos estava em uma fila indiana segurando uma bandeira gigantesca da… Inglaterra! Aparentemente, eu e 32 outros corredores desfilaríamos logo depois da banda militar homenageando os 33 países presentes no Cruce.

Bom… nunca me achei exatamente parecido com um inglês… mas encarnei de tal maneira que até um ‘God sabe the Queen’ acabou saindo da minha boca :-)

Fiquei até procurando compatriotas para falar sobre a família real, mas acho que só tinha eu mesmo de britânico nos arredores. Ou isso ou – claro – a ‘nossa’ típica discrição impediu os demais súditos de Elisabeth de aparecerem!

Assim, seguindo tambores rufando no meio da praça e sendo parte acidental do evento, acabei absolutamente contagiado de adrenalina da abertura do Cruce 2016. Não que tenha sido tarefa difícil: o palco era ao ar livre, tendo montanhas, lago e um céu azul-turquesa como pano de fundo, com direito a um telão de led e um rock’n’roll entre as falas dos organizadores para ninguém botar defeito. 

Apresentaram a elite – e confesso que estar próximo de ídolos como Marco de Gasperi e François D’Haene foi “tieticamente” empolgante – detalharam a infra e fecharam com um vídeo daqueles feitos de pura palpitação cardíaca. 

A empolgação foi tamanha que, quando terminaram os eventos, a praça inteira de San Martin virou uma versão rock de Carnaval, com gente pulando ao som dos Stones e entoando gritos de euforia pura!

Quer jeito melhor de abrir uma prova dessas??

   

  
 

A retirada do kit: organização que impressiona

Confesso que a fila que dava a volta ao quarteirão não me animou muito – mas há coisas que nenhuma organização consegue impedir.

Fora isso, fiquei embasbacado com o nível da organização.

E não só pelo uso de email e Facebook como ferramentas organizacionais, a exemplo do cronograma com as etapas abaixo – mas pelo desenrolar absolutamente tranquilo de cada uma das três etapas:

  
1) Acreditação

No espaço de convenções de um hotel, retira-se uma senha de acordo com o “status” (argentino, estranheiro, estrangeiro com saldo a pagar etc.). Feito isso, deve-se aguardar por poucos minutos até que a senha apareça em um painel. Na dúvida, uma atendente com microfone também reforça os números da hora.

Chamado, recebe-se um crachá que deve ser utilizado nas demais etapas, o número da barraca (no meu caso, ficarei na 131), paga-se o montante devido e se retira o formulário da imigração chilena, que precisará ser apresentado assim que se cruzar a fronteira no primeiro dia. 

Feito isso, que não dura mais que poucos minutos, deve-se ir a um endereço vizinho para pegar o chip.

  

2) O chip e o kit

A primeiro coisa que se pede na “segunda fase” é o preenchimento do formulário de imigração chilena. E tudo é facilitado: eles tem caneta – algo raro em situações assim – e gente que sabe responder a perguntas relacionadas às burocracias alfandegárias.

O formulário fica com a organização na entrega do chip – e o crachá de controle é perfurado em um local pra dizer que a etapa está “cumprida”.

  
  

Atravessando o ginásio, retira-se a sacola – fantástica, diga-se de passagem.
Junto com ela, meias, kits de comidas, casaco polar e camiseta. Nunca recebi tanta coisa, com tanta qualidade, em uma corrida!

Material retirado, se vai a outro canto do ginásio para tirar uma foto. Essa é importante: vincula o número de peito ao Facebook, permitindo que quem quiser acompanhe o progresso durante a prova.

Pronto. Depois disso, pode-se passar a qualquer hora no ginásio para retirar um retrato.

  

3) Entrega da bolsa montada

É a última e mais óbvia parte – mas a que requer mais atenção. A bolsa deve receber todo o equipamento e roupas para os campings e ser deixada em um terceiro endereço, também perto dos outros.
Agora, portanto, é hora de fazer as malas – ainda que com bastante antecedência.

  

Primeiro giro

Mesmo completamente só aqui em San Martin – ainda não encontrei nenhum corredor brasileiro por estas bandas – e sem nada para fazer durante o dia, coloquei o despertador para as 6 da manhã.

Não foi masoquismo: queria sentir o clima nas primeiras horas e ver o sol nascer nos Andes. Excelente ideia, acrescento.

Saí para um trote leve, de 10K, nos arredores da vila. Não busquei trilhas ou nada do gênero: apenas segui a estrada morro acima, evitando que criatividades excessivas no mapa acabassem me cansando além da conta.

Sem nenhum compromisso com tempo ou agenda, quem ganhou o presente mesmo foram os meus olhos. Já havia corrido por aqui no passado, quando passei o ano novo na “vizinha” Villa la Angustura – mas paisagens assim são sempre, sempre bem vindas de volta.

Aos poucos, acabei vendo o céu sair do azul escuro para o colorido, do colorido para o claríssimo, do claríssimo para o azul turquesa. Ao fundo, as montanhas (infelizmente sem neve) se erguiam em uma demonstração de poder inquestionável. Na base, pequenas chácaras se estendiam por quilômetros, sendo cortadas apenas por eventuais casinhas de madeira que pareciam ter sido retiradas de um desenho animado.

O clima não estava quente – nem de longe. Aliás, eu arriscaria dizer que peguei uns 12 ou 13 graus ao sair do hotel, mesmo com o sol brilhando.

Há maneira melhor de começar um dia?

Não.

Ao todo, essa uma hora foi absolutamente revigorante, animadora, inspiradora. O problema é que ela só durou uma hora: ainda tinha o dia inteiro pela frente.

Pois bem: logo que cheguei de volta, me vesti de ingenuidade e fui ao centro pegar o meu kit. Eu e todos os outros 2,5 mil corredores, aparentemente.

Fila? Acho que nem o INSS tinha tanta gente esperando parada! Mudança de planos: deixei o kit para a tarde. Era hora de descobrir o que fazer amanhã, no que resolvi me inscrevendo em um passeio de 4 horas de caiaque pelos lagos amanhã cedo. Sim, deve ser cansativo – mas pelo menos será para os braços, não para as pernas.

Ainda tinha outra tarefa pendurada: o trabalho. Uma viagem como essas consome alguns dias úteis e, ao menos para mim, é impossível deixar o trabalho de lado e considerar tudo como férias (por mais bem vindas e merecidas que sejam, acrescento).

Entre trabalho, trote e posts, portanto, acabei comendo toda a manhã e parte da tarde. E é neste ponto que estou: sentado em um café, martelando o teclado no blog enquanto o projeto que acabei de montar é uploadado para o dropbox e passado adiante. A boa notícia é que, como a produtividade sempre voa com a absoluta falta de interrupções, acabei adiantando tanta coisa que o resto do dia de hoje e todo o amanhã está vazio.

Nova tarefa pela frente, portanto: preencher o tempo. Só espero que não seja com a fila da entrega do kit que, a esta altura, já deve estar menor! :-)