Checkpoint: O alívio da linha de chegada

Descidas são sempre sagradas.

O corpo entra no próprio ritmo, os membros parecem se soltar, a velocidade flui na mesma medida em que o cansaço vai ficando para trás.

Essa semana começou cheio de subidas. Subidas daquelas íngremes, técnicas, de assaltar o fôlego. Houve dias no trabalho que eu mal sabia se conseguiria sobreviver até o Natal, tamanha a exaustão.

Mas fui em frente. De alguma maneira consegui encaixar os treinos planejados. De alguma maneira consegui sobreviver à segunda, à terça, à quarta.

E, de alguma maneira, a semana passou.

Ainda não estou de férias – ao menos não oficialmente. Mas agora, tudo está mais fácil, mais leve.

Melhor: a semana terminou com duas sensacionais corridas que conto depois, em outro post: um pelo centro no fim de tarde chuvoso desse último sábado e outro na montanha, entre amigos, subindo o Pico do Urubu.

Que esse período de final de ano dure ainda muitos dias. Preciso miito do descanso mental tanto para aliviar o cansaço de 2015 quanto para me preparar para 2016.

   
 

Checkpoint: Escalando de volta

Nem cansaço, nem gripe, nem más notícias ou viagens de meio de semana. Há horas em que simplesmente precisamos dar um basta em desculpas internas, virar a página e começar um novo capítulo.

Missão cumprida. 70km rodados na semana, com o bônus de incontáveis subidas por escadas no trabalho e na escada. 

Não nego o cansaço, claro – mas ele não é nada perto dessa sensação de uma semana finalmente bem fechada, trazendo esperadíssimos bons prospectos para o restante deste mês de dezembro.

   
 

Checkpoint: Fluidez

Há algo que acompanha a dor e a recuperação muscular depois de uma ultra intensa: a sensação de liberdade. 

De repente, a planilha parece meio vazia. Não que a falta de alguma prova no curto horizonte seja algo bom, ao menos para mim: gosto de ter uma meta para dirigir os treinos, um objetivo qualquer a perseguir. Mas, de vez em quando, é muito bom não ter absolutamente nada estruturado. 

Ontem, saí para uma volta descompromissada na USP com direito a trilha e calor. Hoje, preferi sair no final da tarde para pegar a trilha do Ibirapuera com aquela luz meio fosca, típica de final de domingo, formada por um clima tão ameno quando o dia. 

Em ambos os dias, já na porta de casa, liguei o Spotify em uma playlist de leve, daquelas que parecem ter sido costuradas cirurgicamente para se gerar fumaças entorpecentes, e saí fluindo ladeira abaixo. 

Fluidez. 

Não há palavra melhor para descrever essas duas primeiras corridas pós-Indomit. 

Sim: os ossos ainda doíam um pouco, a musculatura ainda não estava 100% recuperada e mesmo o fôlego não estava perfeito. Mas descobri que, em esportes de endurance, recuperação é consequência, não causa. 

E o que a gera nem sempre é o descanso puro: ao contrário, é conseguir encaixar corpo e mente naquele estado zen que praticamente define a corrida do ponto de vista holístico. É ter ao menos um par de minutos respirando a leveza da endorfina, sentindo a brisa passar, cheirando a mata, ouvindo o dia, tocando as folhas com as mãos semiabertas. 

Absorvendo vida.

Esse estado recupera o corpo mais que qualquer tempo de descanso, mais que qualquer remédio. E encontrá-lo é sempre, sempre encontrar a mais pura perfeição.

Agora é hora de pavimentar um novo caminho rumo ao Cruce.

   
 

Correndo a Indomit 100K

Doeu – mas isso é meio óbvio.

Falemos, portanto, do que não é.

Largando à meia noite e mergulhando na lama


Isso, por si só, não é tão incomum em ultra mais longas. Mas a grande questão da Indomit é que ela é conhecida pela dificuldade técnica de suas trilhas – algo que só piorou com o as chuvas bíblicas que caem sobre todo o estado de Santa Catarina há mais de um mês.

Para ser justo com São Pedro, ele até deu uma trégua: a noite estava linda e clara e o amanhecer na Costa Esmeralda foi realmente sensacional. Mas… claro… toda a água que caiu permaneceu no chão, encharcando as trilhas.

Muitas trilhas. A primeira série delas, de mais ou menos uns 7km, me tomou mais de 2 horas. Não dá nem para dizer que eram single tracks: estava mais para “single muds”. Lama e água desciam feito cachoeira de todo canto, transformando subida e descida em um desafio por si só. Já nos primeiros metros tomei minha primeira queda, ouvindo um estalo desconfortável do pulso esquerdo.

Depois, em muitas outras, o corpo fez questão de se apoiar na mesma mão, deixando-a dolorida até o final da prova.

Curiosamente, a iluminação em si não foi o problema. Aliás, arrisco-me dizer até que o escuro ajudou: com a visibilidade restrita ao chão imediatamente abaixo dos pés, a mente não via o qiue estava por vir e encarava tudo com mais “esperança”. Ainda bem: daí até o final da primeira série de trilhas, mais difícil de todo o percurso, seria tudo ultra sinistro.

O alívio

Depois dessa série, um alívio: os próximos 30km, aproximadamente, seriam de estrada de terra com um pouco de asfalto. Seguimos, respirando melhor e curtindo mais cada passo noturno. Tudo, claro, estava no mais puro breu: mas passar pela noite foi uma das descobertas positivas para mim: a adrenalina realmente consegue aniquilar o sono.



 E, claro, fechar a distância da maratona beirando o amanhecer foi também um bom sinal: se mantivesse o mesmo ritmo, conseguiria completar a prova lá pelas 15:00.

Ledo engano.

Trilhas infinitas

A partir daí, todo o percurso passou a ser uma mescla de trilhas técnicas com trechos em praia e em estradas de terra. Nenhuma outra trilha foi igual à primeira série – ainda bem. Mas a quantidade e a duração delas foi, aos poucos, massacrando a mente.

Lá pelos 60K estava no meu momento mais baixo. Lembro de ter cruzado com o Rodrigo João, que estava fazendo a prova de 50K, e que me perguntou se eu estava bem. Imaginei que deveria estar parecendo um cadáver.

Para isso servem os postos de controle – todos, diga-se de passagem, perfeitamente organizados. Sentei, liguei para casa, tomei uma Coca, respirei… e saí.

Aos poucos fui recuperando o ânimo e, antes que me desse conta, estava correndo solto pelas areias das praias. O visual deslumbrante, contrastando o verde da mata com o azul do céu e do mar, ajudaram bastante. Claro.


  
    

A Macaca

Uma das metas era chegar no Posto de Controle do Atlântico, no km 77, último grande PC do percurso. Sentei, tomei mais uma Coca e segui. Mais à frente, uma trilha nova esperava: a Macaca.

Essa, no entanto, foi mais ao meu estilo: teve muita subida e descida, mas tudo seco e recompensado com um visual inacreditável no topo. Pausa para foto e para respirar. Àquela altura, minha previsão de tempo já havia evaporado e estava simplesmente dando um passo depois do outro.

 
Mas, claro, como era hábito da Indomit, havia uma surpresa mais para a frente: o fim da trilha da Macaca emendava com outra trilha, bem mais enlameada e sinistra. Segui.

Escorregando, mas segui.

Ao final, praia.

Corri.

Estava exausto, mas segui adiante como única alternativa.

Nas trilhas, os quilômetros parecem se recusar a passar: anda-se por horas e, quando se confere o GPS, parece que se está no mesmo lugar.

Mais para a frente, um outro posto de controle pequeno me permitiu recobrar o ar. Estava em uma nova zona baixa, com fome e exausto. Tomei uma sopa salvadora que eles serviam, engoli uma Coca e segui adiante.

O último trecho

Dali para a frente, os apoios falaram que seria apenas praia e estrada de terra.

Mentiram. Por surpresa, uma nova trilha entre Bombas e Porto Belo, com cerca de 2km, estenderia a sua lama sob nós. Foi uma espécie de golpe quase fatal: ela trouxe um mau humor que só foi aliviada pelo papo com os outros corredores, todos igualmente exaustos de trilhas.

Mas, eventualmente, tudo chega ao fim.

A trilha terminou em uma estrada de terra que, por sua vez, emendou no asfalto. Parei no último PC, faltando 5km, e sentei.

Lá, no entanto, o corpo começou a dar sinais de esgotamento: senti frio, comecei a tremer e a ficar muito, muito fraco. Se permanecesse sentado por mais alguns minutos, eu sabia que não conseguiria retornar à prova – e não havia passado por tanto para desistir nos últimos 5km.

De repente, me levantei, olhei para frente e comecei a correr.

Alcancei um grupo de corredores – incluindo o Nélio, leitor do blog que me reconheceu sabe-se lá como – com quem fui até o final. Batendo papo com eles, todo o mal estar sumiu: de alguma forma eu havia me recuperado plenamente. Estava conversando normalmente, sem frio e até com menos dores.

E, tirando uma ou outra subida, fomos trotando até o final, engolindo o que faltava de asfalto e praia até ver o pórtico e cruzá-lo como se fôssemos os maiores heróis do dia.

Talvez para nós, aliás, tenhamos mesmo sido. No total, fechei os 100K em 21:07:26, meu recorde de tempo em uma prova.

Cheguei exausto, faminto e com dores generalizadas, destacando coxas e pés – mas muito mais forte do que imaginava. Provavelmente precisarei de uns dias a mais para entender esse longo, longo dia que se passou – mas tê-lo vencido foi, para mim, verdadeiramente marcante.

Pros e contras?

Antes de mais nada, vale reforçar que a organização foi realmente incrível. Mesmo com uma mudança de percurso no mesmo dia da largada por conta de condições técnicas (e, dado que eles mantiveram a primeira série de trilhas, nem dá para imaginar como estava o trecho que substituíram), tudo estava perfeitamente marcado.

Havia postos de apoio mais que o suficiente, o abastecimento estava redondíssimo e a segurança estava reforçada (apesar dos trechos de trilha inegavelmente perigosos).

Mas, ao menos na minha opinião, a dificuldade foi exagerada. Talvez pelas condições em si de cada trilha, ter tantas assim dos primeiros aos últimos quilômetros foi um pouco demais, algo estampado nas faces tanto dos corredores que chegaram até o final quanto dos tantos que desistiram pelo caminho.

Ainda assim, recomendo esta prova para quem quiser – desde que tenha claro que estará enfrentando uma dificuldade realmente colossal.

Como lidar com a imprevisibilidade

Se tem uma palavra que define bem corrida de montanha, ela é “imprevisibilidade”. Pode-se trabalhar como quiser no preparo, montando um treinamento “perfeito”, juntando o kit ideal, calculando os tempos nos pontos de controle com a exatidão de um matemático… Mas, ainda assim, as chances de erro são grandes.

E por quê? Porque, no final das contas, sempre dependemos da caprichosa vontade de Pachamama, também conhecida como Mãe Natureza. 

Me preparei para uma corrida longa, técnica e relativamente seca neste final de semana. Ela será longa e técnica – mas quis Pachamama que fosse também quase tão úmida quanto o oceano. Fazer o quê?

No começo, entrei em pânico: checava o Wearher Channel diariamente, acompanhava notícias da região, repassava o kit por horas a fio. Lama e eu, afinal, nunca nos demos muito bem.

Mas, com o tempo, acabei me ligando de uma coisa fundamental: ninguém está me forçando a nada. Me inscrevi nos 100K da Indomit Costa Esmeralda porque quis, comprei passagem e hospedagem sozinho e estou embarcando para Santa Catarina com os meus próprios pés. 

E, por mais que corredores de ultra sempre persigam o desafio, a superação e coisas do gênero, no final buscamos a mesma coisa que todo mundo: diversão. 

Largarei à meia noite da sexta pra o sábado para cruzar a Mata Atlântica, descobrir vistas novas, cair e levantar, me sujar feito uma criança, ficar ensopado e, espero, rir muito. 

Levei um tempo para aprender essa primeira lição, mas fico feliz que a tenha aprendido a tempo: a melhor maneira de lidar com a imprevisibilidade do tempo é sempre ter em mente que, no final das contas, só viemos mesmo ao mundo para nos divertir.

Que as quase 20 horas de prova sejam inesquecivelmente divertidas.

  

Os zumbis nas trilhas noturnas do Ibiraquera

Na semana passada eu troquei o longo do sábado de manhã pela sexta à noite. Foram dois motivos: desenferrujar a headlamp, que será usada na Indomit neste próximo final de semana, e livrar a manhã do sábado para outras coisas que precisava fazer.

E, assim, saí do trabalho já com tudo escuro rumo ao parque. Não dá para dizer que o Ibiraquera é um lugar selvagem, claro: trata-se de um grande parque urbano, com trilhas absolutamente domesticadas e apenas um ou outro obstáculo pelo caminho. Ainda assim, é uma experiência sensacional para quem quer variar.

Os cheiros são outros, os sons são outros e a sensação de se estar na mata é imbatível. Só que há outras curiosidades tipicamente urbanas em uma trilha assim.

A minha primeira volta foi basicamente uma repetição de trechos que costumo fazer de dia: incluiu uma área mais deserta atrás da horta e um cotovelo perto de um dos portões principais (veja no mapa abaixo).

À noite, no entanto, concluí que esses trechos são dominados por… ZUMBIS! Não achei outra maneira de descrever os seres que lá estavam: de 5 a 10 indivíduos sem camisa, andando sozinhos de um lado para o outro na mais completa escuridão. Nenhum falava ou murmurava: eles simplesmente se afastavam de mim sempre que a lanterna iluminava o local.

Não havia movimentos agressivos e nem mesmo olhares desconfiados: estavam apenas ali, como se tivessem brotado do solo, vivendo com a mesma intensidade que uma planta. Dá para imaginar?

Bom… nenhum dos zumbis tentou me comer mas, por via das dúvidas, cortei esses trechos nas últimas duas voltas.

Para quem estiver a fim de uma aventura noturna no meio da cidade, recomendo o Ibira fortemente – mas que fique aqui o alerta. Afinal, quem sabe os zumbis não fiquem com fome e queiram te devorar em alguma oportunidade qualquer??

Vai saber…

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