Que as trilhas e asfaltos me recebam bem

Os próximos 3 meses, estimo, serão de plena guerra. Teremos confusões envolvendo o ministério do Lula, as tentativas de barrar a Lava-Jato, delações premiadas, articulações para o impeachment, o impeachment em si. Enquanto isso, o mercado inteiro aperta os cintos e se segura esperando por melhores ventos e temendo os desastres que insistem em se colar a rupturas ideológico-político-sociais como as que estamos vivendo.

Resultado: do lado de cá das trincheiras, estou trabalhando dobrado, pintado e pembado para a guerra. Cada dia é uma batalha. Cada dia seguinte é uma estratégia. 

Cansativos, esses tempos. Mas confesso: estão sendo de uma adrenalina absolutamente empolgante. 

Só preciso mesmo é que as trilhas e asfaltos me recebam bem nos começos e finais de dia. 

Esses momentos de inspiração endorfinada somada a alívio de estresse tem sido fundamentais para a sobrevivência. 

  

Vida de soldado

A adrenalina de um dia de pico na selva publicitária de São Paulo, onde vivo, fica um tempo percorrendo artérias e veias. Impede que se relaxe, impõe ao instinto de sobrevivência uma capacidade de concentração multitarefa, exige onipresença e, aos poucos, mói os sentidos.

Não vou dizer que não goste desse estilo de vida: trilhar os meandros de um mercado tenso e ultracompetitivo é um desafio cotidiano perfeito para qualquer um que sinta prazer, por exemplo, correndo ultras.

Mas, assim como em ultras, há momentos em que picos se alternam com vales, em que a adrenalina de se ter conseguido vencer algum obstáculo inesperado com um golpe de pensamento e uma supersincronizada agilidade tática cede ao cansaço.

Depois de nem sei quantas horas coordenando uma verdadeira guerra em fronts paralelos, cheguei em casa depois de todos terem dormido.

Comi em silêncio, acalmando a memória recente. Não me preparei para o dia de hoje – era tempo de encerrar o ontem. Apenas.

Troquei de roupa.

Deitei cuidadosamente, mais silencioso que o tédio.

De imediato, fiquei imóvel esperando o sono que não queria vir. 

Acabou vindo.

Aos poucos.

Mas de forma decisiva.

Pelo menos até o próximo soar do despertador, às 5:15 da manhã – apenas poucas horas depois das pálpebras terem fechado.

Sem problemas: era hora da corrida. 

E há melhor maneira de se preparar para qualquer coisa do que acordar antes mesmo do sol, quando toda a cidade ainda dorme, e testemunhar, sob suor e passadas, uma cena dessas?

  
Decididamente não.

Poucas coisas nos preparam melhor para uma batalha do que uma boa dose de suor e endorfina antes dos primeiros tiros. 

Que venha o dia.