Vídeo: Indomit São Paulo/ São Bento do Sapucaí

Taí o vídeo de uma das corrida mais duras e belas que já fiz. Se alguém estiver pensando em um desafio sensacional pela inigualável Serra da Mantiqueira, recomendo fortemente. 

Até porque, provavelmente, esse é um que eu repetirei em 2017!

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fbombinhasrunners%2Fvideos%2Fvb.289838951129935%2F990101871103636%2F%3Ftype%3D3&show_text=0&width=560

Indomit São Paulo Ultra Trail: Relato da prova

Tenho para mim que poucos lugares no Brasil são tão maravilhosos quanto a Serra da Mantiqueira. Seu verde clorofilático, suas montanhas, a majestosa Pedra do Baú e as pequenas cidades que polvilham a paisagem, encrustrando-se entre os vales, se somam em um cenário ímpar, inesquecível.

Foi por isso que me inscrevi na Indomit São Paulo. Por isso, claro, e pelos 3 pontos que cruzar a linha de chegada me daria para a UTMB.

Cruzei a largada já encantado com a paisagem de São Bento do Sapucaí – principalmente quando começamos s subir e deixamos a névoa que encobria a manhã para baixo.

Tudo era tão bonito que difícil foi não parar para tirar fotos e simplesmente respirar a Mantiqueira.

Pelo menos até determinado ponto.

Em algum momento lá pelo km 15, comecei a ouvir muitas preocupações quanto ao tempo de corte no km40 ena prova em si. Olhei pra o relógio e para cima.

Nas outras Indomit que participei, o terreno encharcado transformou as tantas trilhas técnicas em um pesadelo. Nessa, praticamente não havia trilhas técnicas e tudo estava relativamente seco – mas as dificuldades foram outras.

O calor, por exemplo, batia facilmente os 35, 37 graus. E isso não era nada perto da altimetria insana: os 3.500 metros de subida em 50K eram crueis. Árduos, áridos, gerando cenas com direito a corredores encostados em algum paredão vomitando seus estômagos para tentar manter guardadas as almas.

Em um determinado ponto, o coração disparava incerto, remexendo as entranhas inteiras. Onde achava sombra, parava para respirar e descansar uns minutos. Mas não muito: pela primeira vez na vida me senti pressionado por um cut-off e sabia que fotos e descansos deveriam ficar para uma outra prova.

Nesses momentos de cansaço extremo uma outra dificuldade se abateu: a falta de água. A temperatura engolia as mochilas de hidratação com uma sede insana, quebrando sem dó o planejamento da organização. Pelo menos 3 ou 4 dos 10 postos estavam secos quando eu passei, forçando os corredores a seguirem em frente bebendo apenas a força de vontade. Um deles foi especialmente marcante: o do corte no km40, depois de uma interminável subida. Passando por ele, um grupo de 5 ou 6 corredores estavam sentados no meio do estradão perguntando a quem passava se eles tinham água para compartilhar.

Eu ainda tinha alguns goles e, assim, fomos dividindo a sede por uns 3 ou 4km (de mais subida sob o sol, claro).

Os meros 15 minutos de folga com que eu tinha passado no corte do km40 foram evaporados pela força do sol e da altimetria. Àquela altura, muitos corredores haviam ficado no corte ou desistido e eu já duvidava se conseguiria chegar antes das 10h de prova – principalmente depois que me deparei com um trilha estilo vala, onde correr era impossível. Fui lento, tentando recuperar um pouco o organismo remexido e aproveitando cada milímetro de sombra e descida. 

Funcionou: depois de uns 3km, estava inteiro. O tempo, no entanto, já era inimigo.

Corri o quanto pude, usei os poles para forçar velocidade nas subidas, parei o mínimo possível. 

Quando cruzei a linha de chegada já havia estourado o tempo: 10h11m31s. 

Ainda assim, alguma compaixão deve ter acometido os organizadores que me deixaram cruzar, penduraram a medalha no meu peito e me entregaram a camiseta de Finisher. Se esses 11 minutos me tirarão os 3 pontos para Mont Blanc ainda não sei – mas espero que não.

Descobrirei no futuro próximo.

O balanço da prova? Linda como poucas, dura como menos ainda, com algumas falhas da organização mas, ainda assim, altamente recomendável. Altamente.

Com ou sem pontos, mesmo com o cansaço e os miseráveis 11 minutos e 31 segundos, testemunhar esse percurso foi, por si só, algo inesquecível.

Tão inesquecível que, embora ainda com as dores do dia seguinte, já ouso dizer que são grandes as possibilidades de eu voltar no ano que vem.

(Só espero que eles aumentem esse tempo de corte para que pelo menos possamos parar em alguns pontos para aproveitar a paisagem, esse sim o ponto mais alto da prova!)

   
    
 

Chuva, chuva, chuva

Essas últimas duas semanas deveriam ser as mais secas e quentes do sudeste ao menos no último ano. Eu nem pediria tanto: ficaria feliz apenas com a falta de chuva. 

Mas não: os Deuses, aparentemente, curtem sincronizar as suas águas com o calendário da Indomit. Comigo, pelo menos, foi assim nos 42K de Bombinhas e nos 100K da Costa Esmeralda. 

A Indomit São Bento do Sapucaí, ao que tudo indica, será tanto corrida quanto nadada. 

Cheguei até a questionar a ida – a perspectiva de escorregar e de tentar me equilibrar em rios de lama me dá uma preguiça digna de Macunaíma. 

Mas aí tem os pontos. Os tais 3 pontos que essa prova me garantirá para a OCC, em Mont Blanc, no ano que vem…

Haverá outras oportunidades para somá-los? Certamente. Provavelmente. 

Mas, em um ano complicado em que o calendário de viagens para corridas ficou invariavelmente mais escasso, melhor garantir do que esperançar. 

Águas, nos veremos no sábado.

   

Encerrando (ou começando) a BR135+

Enquanto escrevo do (bem vindo) conforto da minha própria casa já de volta a São Paulo, ainda devem haver corredores caçando suas recompensas pela Serra da Mantiqueira. A BR135+ ainda está em curso, afinal, até os próximos 20 minutos. 

Eu, no entanto, já encerrei esta que espero ser apenas a primeira jornada por lá. E digo isso por um motivo simples: nunca, nem em meus mais alucinados sonhos, imaginei uma prova tão majestosa aqui no Brasil. As imagens que registrei por lá foram uma expressão do que há de mais incrível aqui em nosso país: da exuberância quase fosforescente da mata que cobria as montanhas até as montanhas em si, seus riachos, o vibrante azul do céu e os aventureiros buscando emoções. 

E que aventureiros. Absolutamente doidos, acrescentaria – o que só serve para ressaltar o tom elogioso. Em que outro evento, afinal, se poderia encontrar um rasta correndo com uma panela de arroz na mão, comendo em movimento para não perder preciosos minutos? Ou um pai e uma filha duplando no percurso mais sádico da prova, de 260km? Ou gringos assumindo o papel de bandeirantes e desbravando os sertões brasileiros? Ou o olhar feroz, comprometido, quase predador, da Cláudia Souto, que devorou o podium dos 217? Ou os outros tantos corredores – incluindo um cadeirante (!!!) – que, cada um a seu modo, apareceram por lá para escrever as histórias mais importantes: as suas próprias? 

Incluo nesse rol de herois, obviamente, a Zilma Rodrigues, atleta para quem servi de apoio e pacer e que traçou os 217k em 46h36, encarando dor, mal estar e, obviamente, momentos de êxtase daqueles que só se encontra quando a endorfina domina mente e corpo. O orgulho que tenho dessa corredora é sem paralelos.

Para mim, foi uma corrida diferente. Foi a primeira prova em que o meu papel não era o de cruzar a linha de chegada, mas sim apoiar, acompanhar, ditar ritmo. É curioso esse negócio de dar suporte. Cansa talvez quase tanto quanto correr – mesmo porque, quando não se está na estrada com a atleta, se está organizando nutrição e hidratação, dirigindo, iluminando os caminhos nas noites escuras da mata. 

Mas há todo um outro lado – o lado de poder correr sem pressão ou compromisso consigo mesmo. Para mim, foi uma ultra diferente: somando os trechos que fiz, acabei correndo 84km nesses dois dias. 84km onde descobri novas coisas sobre mim mesmo, enfrentei também meus próprios demônios e sorvi cada instante daquela paisagem. 

De uma forma diferente, acabei testemunhando uma BR135+ mesclando um olhar de forasteiro a um ganho de experiência de corredor. Como tudo que é diferente, valeu pelo tanto que me ensinou. 

De fato, escrevo do conforto da minha casa apenas horas depois de voltar da linha de chegada, em Paraisópolis. Mas a saudade que já bate da BR135+ é forte como uma ordem gritando para mim que, um dia, não escaparei de traçar eu mesmo esses tantos quilômetros grandiosos que desenham a espinha dorsal da belíssima Serra da Mantiqueira.

PS: meus parceiros de suporte, Charlston e Luana, foram fundamentais para garantir essa memorável experiência. Sorte a minha de ter participado de um time desses.

PS2: 48 horas sem dormir fazem um estrago no nosso fuso-horário interno!

   
    
    
    
    
    
      

         

 

Programação da BR 135+: Divisão de trechos com pacers e metas

21 de janeiro de 2016, 5:53 da manhã. Hora de organizar o carro e partir para a largada. 

Ontem à noite já definimos a nossa programação, distribuindo trechos entre os 3 pacers e deixando o mínimo possível de momentos em que a Zilma percorrerá sozinha. Há dois pontos de preocupação: o começo, entre os km 76 e 97 (da Serra dos Lima ao povoado de Crisólia), que teve estragos grandes causados pela chuva dos dias anteriores (incluindo queda de pontes e um lamaçal bíblico); e a noite, que a organização do evento impõe a necessidade constante de pacers. 

  1. Nossa divisão foi feita assim: 
  2. O primeiro trecho (19km), de São Joao da Boa Vista a Águas da Prata, será percorrido solo;
  3. Eu assumo daí por 23km, incluindo subida e descida do Pico do Gavião;
  4. Os 18km até Andradas serão percorridos solo pela Zilma;
  5. A “zona tensa”, com 18km entre a Serra dos Lima e Crisólia, será feita junto com o Charlston;
  6. Nova corrida solo, de Crisólia a Ouro Fino, com pouco mais de 6km;
  7. Luana assume de Ouro Fino até a marca da terceira maratona, somando mais 23km;
  8. Daí será a minha vez novamente, indo de lá até Tocos do Moji (24km), já durante a noite;
  9. De Tocos do Moji até Estiva, mais 21km, Charlston assumirá o manche;
  10. De Estiva a Consolação, mais 19km, será a vez de Luana;
  11. Finalmente, de Consolação a Paraisópolis, os últimos 22km que fecharão a prova, será a minha vez. 

Há, claro, margens relativamente folgadas de erro nessa programação. A mais óbvia: a soma de todas essas distâncias dará 212km, sendo que a prova tem 217km. Onde foram parar os 5km de diferença? Nem ideia. A organização oficial parece ter desconsiderado-os. 

Por outro lado, há também o fato da prova ser corrida em estrada de terra e em uma zona cheia de “buracos” na comunicação com os satélites. Nesse sentido, 5km de diferença acaba até sendo pouco. 

De toda forma, estamos bem cobertos, com a maior parte dos trechos correndo em duplas e o suporte do carro em praticamente todo o percurso. Me parece que isso é o máximo que uma equipe novata de apoio conegue chegar – e estou bem confiante em tudo. 

Vamos ver o que acontece ao longo dessas próximas horas!

A título de curiosidade, essa programação incluirá as seguintes distâncias percorridas por cada pacer: 

  • Ricardo:  69km
  • Charlston: 39km
  • Luana: 42km
  • Total de km corridos acompanhados por pacers: 150km

Nossas metas:  

  • Meta A: 32 horas
  • Meta B: 36 horas
  • Meta C: 40 horas
  • Tempo limite estabelecido pela organização: 60 horas (sendo que a ampliação frente às originais 48 horas foi anunciada ontem, no congresso técnico)

Boa sorte a todos nós!