Bosque Los Arrayanes

Com a placa apontando para o Bosque Los Arrayanes em mente, já que na corrida anterior havia voltado a partir de lá sem prosseguir, fui para o meu penúltimo dia de trilhas na Patagônia.

Para otimizar tempo, dessa vez, fui de carro até a entrada do Parque Nacional e comecei a partir de lá. Não tinha ainda certeza da distância mas sabia que não faria todo o percurso, somando 24km.

E, assim, comecei pelo mesmo caminho do dia anterior, subindo sem parar até os mirantes. Não cheguei até eles: logo na placa que indicava o bosque segui por outra subida e depois por uma descida bem íngreme. Estava já em territórios inexplorados.

Logo de início um mirador abria a vista do nascer do sol nos Andes, com o lago se estendendo feito um tapete espelhado refletindo as montanhas e os primeiros raios se luz. Vai demorar para eu me desacostumar desses inícios inspiradores de corrida por aqui.

Guardei a imagem na cabeça (e em uma foto) e segui. Reto, sempre em frente, mesclando tantas ondulações de percurso que fizeram o altímetro do Garmin desistir de qualquer precisão.

Uma vez no bosque, as paisagens ficam mais homogêneas: fileiras de pinheiros e árvores gigantescas se alinham dos dois lados da trilha, cobrindo parte do céu e deixando apenas o suficiente de luz entrar pelas suas copas para pintar os troncos de dourado.

De curva em curva, novos tons iam sendo revelados pelo sol, exigindo uma diminuição no pace para um simples (porém fundamental) ato de contemplação.

Pace. Se tem um efeito colateral desse período aqui nos Andes é a diminuição sistemática do ritmo. Afinal, toda corridinha inclui centenas de metros de subida, forçando tanto períodos de caminhada que eles se tornam mais a regra que a exceção. Aqui definitivamente não é o lugar certo para que gosta de velocidade – mas, mesmo para esses, eu ainda arriscaria dizer que a mudança de ares e estilos certamente faz bem.

Estou curioso para saber qual o resultado disso em um próximo intervalado que fizer lá no Ibirapuera. Será que voltarei anos no tempo e precisarei recuperar todo o ritmo? Ou que essa espécie de descanso aos músculos de velocidade gerarão um efeito contrário? Ou será que, dado o pouco tempo, nenhuma mudança significativa terá ocorrido? Só na semana que vem para saber.

Enquanto isso, já era hora de voltar quando o relógio apitou 6km.

A propósito: a falta de sincronia do Garmin com as marcações de km na trilha beiravam o ridículo, assim como o registro altimétrico que deveria ser – mas não foi – sincrônico, já que fiz a mesma rota de ida e retorno.

Bom… exceto pelas minhas planilhas e meus gráficos, quem se importa?

Do km 6 (ou 7) tomei o rumo da saída e fiz de novo todo o trecho do Bosque, subindo até a região dos mirantes e descendo até a entrada.

Uma vez lá dei uma esticadinha até uma praia em frente ao ístmo que havia subido nos últimos dias. O paredão rochoso, coberto de pinheiros, se esticava sozinho lago adentro criando um efeito espelhado absolutamente impressionante. É uma das cenas que levarei comigo desse lugar tão incrível.

A viagem agora está chegando ao fim.

Esses dias na montanha estão, aos poucos, recalibrando o organismo e enchendo o sangue da energia necessária para enfrentar 2015.

Tenho ainda uma meia para fazer e completar os 80km da semana – e pretendo deixar isso para a estrada mesmo, fazendo um bate-volta até a Praia do Espelho – um lago escondido por aqui e com uma beleza estonteante.

Mas isso será para o fechamento da viagem – e abertura oficial de 2015.

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Mirantes de Arrayanes

A primeira corrida de 2015 tinha mesmo que ser memorável.

Ontem, sacudi a poeira do Reveillon logo cedo e saí às 7:30 para o Bosque de Los Arrayanes, em um dos extremos de Villa La Angostura. Não sabia muito o que encontraria ou mesmo se conseguiria entrar no bosque uma vez que era um Parque Nacional com horário de abertura mais tarde.

Ainda assim, fui. E não me arrependi nada.

A manhã estava absolutamente azul, sem uma única nuvem no céu e com picos brancos nas montanhas por conta da neve que caiu na noite de ano novo.

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O caminho em si já era um presente, passando por uma estrada cercada de pinheiros gigantes, cruzando uma igrejinha de pedra do começo do século XX e desembocando em uma baía de águas cristalinas.

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Em um canto, uma placa indicava a entrada do bosque. Estava mesmo fechado mas, sem correntes no portão, foi fácil ser seduzido pelo visual e desobedecer as regras.

Mais para dentro placas sinalizavam caminhos opostos: o bosque para a esquerda e dois mirantes para a direita. Subi para os mirantes.

Foram alguns quilômetros de subida bem íngreme, com trilhas bem marcadas serpenteando a montanha. Me arrependi de não ter levado os poles – mas nada que um pouco mais de força de vontade não resolvesse.

Aos poucos, depois de algumas curvas, os pinheiros foram ficando mais escassos e a vista começou a se desacortinar. Deslumbrante.

Os mirantes dão para a Baía Mansa e pra a Baía Brava, separadas pelo igualmente belo Ístmo de Quetrihue. Ao fundo, os lagos se estendem por toda a paisagem; no horizonte, picos nevados – incluindo os três que já havia subido (Cerros Belvedere, Inacayal e Bayo), davam um toque de magia; em cima, o azul intenso do novo céu de 2015 completava a tela.

Anos podem se passar, mas dificilmente em me esquecerei dessas paisagens andinas.

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Cheguei a ficar um tempo por lá, de pé, só com a montanha e a vista. Respirei, pensei, repensei. E voltei.

Voei morro abaixo com um senso de realização forte, compatível com a beleza que acabara de testemunhar.

Quando cheguei na base, estiquei ainda pelo outro caminho, rumo ao bosque, mas descobri que ele seguia apenas por 700 metros: por risco de desabamento, os Arrayanes poderiam ser alcançados apenas pelos mirantes, seguindo adiante ao invés de voltar.

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Por um lado, bateu uma certa frustração; por outro, no entanto, foi uma bela desculpa para que eu voltasse ao local antes do fim da viagem.