Maratona em uma segunda à noite

Mudei os planos. Ao invés de espalhar a quilometragem pela semana por conta da impossibilidade de rodar o longão no sábado, dia em que me mudo, decidi fazer isso ontem.

Assim, saí imediatamente depois do trabalho para a rua, girando pela cidade. Claro: o frio intenso e a escuridão da noite mais longa do ano certamente não ajudaram – mas tudo sempre pode ser encarado como uma aventura a mais.

Saí de casa. Desci a Sumaré. Dei a volta no Allianz Parque. Cruzei os trilhos da Estação de Trem Água Branca. Subi até o Jardim das Perdizes, onde dei outra volta. Saí, cruzei o viaduto e margeei o Memorial da América Latina. Fui até o Parque da Água Branca, onde dei duas voltas. Saí. Voltei até a Sumaré. Subi até a Brasil e, de lá, peguei a Groenlândia. Margeei o Ibirapuera por fora uma vez. Entrei. Dei duas voltas por dentro. Saí. Subi a 9 de Julho até a Paulista. Fui até a Augusta e a desci até a Tietê.

Cruzei. Cheguei.

Melhor: apesar do cansaço que sempre bate com uma maratona, devo dizer que a quantidade que tenho feito está começando a me fazer encará-las como cotidiano. Não só terminei inteiro como rodei em um pace melhor do que tenho feito meus treinos de 15 ou 20K: 5’49″/km.

Quando cheguei em casa, claro, já estava alta noite. Foi o tempo de respirar, tomar um banho e desmaiar, embora a adrenalina tivesse empurrado o sono para depois da meia noite. 

Nesse intervalo de tempo, já deitado e sentindo o tilintar dos músculos rearranjando-se nas pernas, me peguei quase maravilhado com essa quebra de rotina: “Uma maratona rodada em uma noite qualquer de segunda. Deveria fazer coisas assim mais vezes…”

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Lidando com a adaptabilidade

O dia ainda não havia caído e tudo indicava um entardecer daqueles bem vermelhos, secos, intensos.

Coordenei meu dia no trabalho para conseguir sair a tempo de pegar aqueles últimos raios de sol, sempre tão bem vindos quando se quer respirar alívio quanto a qualquer coisa. Deu certo: no horário programado, estava na rua.

Cortei a Santo Amaro, cruzei a IV Centenário e, em minha frente, o velho Ibiraquera parecia dar boas vindas com aquele sorriso de quem está à espera faz algum tempo. Dava tempo ainda de pegar a trilha, aproveitando o pôr do sol entre os verdes e os lagos.

E tudo parecia perfeitamente sincronizado… até que um vento súbito me pegou de surpresa. Olhei para os lados: folhas pareciam voar, ágeis, na horizontal.

O vento assobiava nervoso, agitado, quase elétrico.

Pequenos mosquitos pareciam voar desnorteados em torno das luzes nos postes.

E, no lago, pequenas gotas começaram a se fazer onipresentes.

A garoa tensa durou apenas alguns segundos e logo se transformou em tempestade. A água, aliás, parecia vir com tamanha força do céu que até o lago parecia mais seco que o ambiente em si.

Olhei para os lados: os corredores que estavam por ali há apenas alguns instantes pareciam ter evaporado. Era apenas eu no parque inteiro – eu e a chuva torrencial. Aproveitei.

O fim do dia de ontem não teve pôr do sol vermelho, mas teve algo ainda melhor: uma tempestade sem aviso prévio que expulsou todo mundo e deixou o Ibiraquera inteiro para mim. Corri livre, ensopado, alternando trilha com asfalto para evitar quedas e bebendo cada gota de endorfina que parecia estar sendo produzida pelo tempo em vez de pelo corpo.

Foi extasiante.

E, da mesma forma que começou, a tempestade parou: de repente.

Os corredores voltaram às ruas, a noite se abriu, as nuvens sumiram.

Voltei para casa.

O simples ato de correr, às vezes, nos faz entender que podemos até não controlar o tempo – mas conseguimos nos adaptar e aproveitar, com toda a intensidade do mundo, qualquer forma que ele decidir impor sobre nós. Adaptabilidade, aliás, talvez seja a maior das lições das trilhas.