Achando a roça no meio da cidade

Já no começo da corrida percebi um galo cantando alto, cortando toda e qualquer possibilidade de concentração no audiolivro. 

Um pouco mais adiante, galinhas se certificavam que seus pintinhos não se perdessem pelo êrmo da roça, sempre aterrorizado por gatos e seus olhares famintos. 

O cheiro de estrume de cavalo era quase onipresente, resultado dos estábulos encostados em um dos cantos da fazenda.

Fazenda? 

Quem lê essas primeiras frases imediatamente imagina que essa corrida se passou em alguma cidade do interior. Negativo.

Esse é o cenário do meu novo “lar”: o Parque da Água Branca, um parque absolutamente urbano encrustrado no meio de São Paulo. É também um dos motivos que tanto amo essa cidade: poder correr alguns metros e já se sentir em outra dimensão é, sem dúvidas, sensacionalmente incrível!

Maratona em uma segunda à noite

Mudei os planos. Ao invés de espalhar a quilometragem pela semana por conta da impossibilidade de rodar o longão no sábado, dia em que me mudo, decidi fazer isso ontem.

Assim, saí imediatamente depois do trabalho para a rua, girando pela cidade. Claro: o frio intenso e a escuridão da noite mais longa do ano certamente não ajudaram – mas tudo sempre pode ser encarado como uma aventura a mais.

Saí de casa. Desci a Sumaré. Dei a volta no Allianz Parque. Cruzei os trilhos da Estação de Trem Água Branca. Subi até o Jardim das Perdizes, onde dei outra volta. Saí, cruzei o viaduto e margeei o Memorial da América Latina. Fui até o Parque da Água Branca, onde dei duas voltas. Saí. Voltei até a Sumaré. Subi até a Brasil e, de lá, peguei a Groenlândia. Margeei o Ibirapuera por fora uma vez. Entrei. Dei duas voltas por dentro. Saí. Subi a 9 de Julho até a Paulista. Fui até a Augusta e a desci até a Tietê.

Cruzei. Cheguei.

Melhor: apesar do cansaço que sempre bate com uma maratona, devo dizer que a quantidade que tenho feito está começando a me fazer encará-las como cotidiano. Não só terminei inteiro como rodei em um pace melhor do que tenho feito meus treinos de 15 ou 20K: 5’49″/km.

Quando cheguei em casa, claro, já estava alta noite. Foi o tempo de respirar, tomar um banho e desmaiar, embora a adrenalina tivesse empurrado o sono para depois da meia noite. 

Nesse intervalo de tempo, já deitado e sentindo o tilintar dos músculos rearranjando-se nas pernas, me peguei quase maravilhado com essa quebra de rotina: “Uma maratona rodada em uma noite qualquer de segunda. Deveria fazer coisas assim mais vezes…”

Trilha urbana: Sumaré, Jardim das Perdizes, Parque da Água Branca e Minhocão

Há um pequeno novo parque no centro de São Paulo, ainda com árvores novas e pouco sombreado, que dá o tom do bairro que está surgindo em seu entorno: o Jardim das Perdizes.

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O bairro em si ainda é um embrião: prédios residenciais, torres comerciais, shopping e hotel ainda estão sendo erguidos. Apenas o parque está efetivamente aberto e correr nos seus pouco mais de 1km é como testemunhar o nascimento de um novo pedaço da metrópole justamente em uma de suas áreas mais antigas: o bairro da Barra Funda.

Não dá para fazer um longão em um parque tão pequeno, claro – e por isso o Jardim das Perdizes é apenas o começo do percurso. Ou meio.

Afinal, chegar lá inclui subir até a Dr. Arnaldo, descer até a Sumaré e correr pela faixa do canteiro central – perfeita para o esporte – passando ainda pelo novo Estádio do Palmeiras.

Depois de lá dá para esticar ainda até o Parque da Água Branca, nas proximidades. Esse é, talvez, o mais exótico dos parques paulistanos por ser estabelecido em torno de construções muito bem cuidadas que datam de 1929, quando ele foi inaugurado como centro de exposições e estudos zootécnicos.

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Assim, passa-se por um estábulo (que, hoje, abriga algumas feirinhas gastronômicas), por um museu, por espaços de leituras, por um parquinho de diversões e muito mais. Tudo isso com eventuais galinhas cruzando o percurso como se estivessem em alguma fazenda no interior do estado.

Relembrando: estamos no centro de São Paulo.

O Parque da Água Branca não é gigante – mas é maior, claro, que o Jardim das Perdizes. E um percurso incluindo os dois, ligados ainda pela Sumaré e pelo Minhocão.

Pois é: aos domingos, aproveitar o Minhocão fechado para trânsito para voltar para casa é a opção perfeita.

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Resultado? Em um único percurso consegue-se cruzar uma via fantástica – a Sumaré – ver uma parte da cidade nascer, passar por um parque com ares de fazenda interiorana e terminar subindo o icônico Minhocão.

Nada mal para um domingo qualquer.

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