O treino

Ontem, quando estava olhando a planilha de treino para me entender melhor com ela, percebi que estava testando na pele uma das máximas do Kilian Jornet, de que volume se deve considerar sempre por semana e não por dia. 

Nessa minha caminhada até os 140K, o meu maior longão de todos será de 50K – bem menos, proporcionalmente, do que usei para treinar para os 100K da Indomit, os 90 de Comrades ou qualquer outra prova. Suicídio? 

Não minto que um certo medo da programação já começa a subir à espinha. 

Por outro lado, nunca tive tanto volume concentrado quanto agora. Semanas com mais de 100K são rotina, assim como correr pelo menos uma maratona a cada 7 dias seguida de 10 milhas ou de uma meia. E não nego: estou, hoje, muito mais forte do que no começo do treino, há alguns meses. 

É aqui que entra a questão: confiar no corpo, que está deixando claro que está mais preparado do que jamais esteve, ou na mente, que começa a questionar com algum atraso todo o modelo colocado em prática? 

O problema da escolha entre a confiança e o medo é que ela não é (e nem nunca será) racional, consciente. Será uma dúvida que me acompanhará a cada quilômetro empoeirado do sertão mineiro no dia 19 – e será um desafio a mais a ser enfrentado. 

Ultras para distâncias desconhecidas são assim mesmo: o desafio maior reside justamente nas suas interrogações. 

Aumentando os longões na companhia de nobres espíritos

Em algum momento, afinal, chegaria o dia em que o volume de treino subiria para o compatível com a meta de 140K.

Bom… chegou. E, enquanto eu nutria algum receio quanto a treinos superiores a 4 horas, acabei esquecendo de como esse tempo todo sozinho com os passos faz bem.

E como fez. Primeiro, pela companhia: enquanto seguia rumo à USP e circundava seu percurso, os últimos capítulos do audiolivro Um Conto de Duas Cidades, de Dickens, me mantinham ocupado entre a tensão da Consiergerie e a exclamação da guilhotina revolucionária. 

Ele acabou, no entanto, antes da corrida. 

Fiquei um tempo sorvendo o final enquanto cruzava a ponte até o meu segundo destino, o Parque Villa-Lobos. A São Paulo daquelas bandas é outra cidade: arborizada, esportizada, despoluída nos mais diversos aspectos. Mas, entre passadas e pequenas rajadas de vento que pareciam acordar as folhas, senti vontade de alguma nova história. 

Histórias viciam; o tempo proporcionado pelos longos treinamentos de ultra são a agulha perfeita.

Parei e olhei o iPhone: havia um audiolivro baixado e ainda intacto, agoniado para começar a soprar suas palavras ouvido adentro. Era a hora perfeita.

Meia dúzia de cliques depois e estava saindo do parque e subindo a Cerro Corá ouvindo o Grande Gatsby. Outro tempo, outro continente, outra dimensão – mas o mesmo efeito de me surrupiar o pensamento para muito além de qualquer mero percurso.

E assim – com apenas uma ou outra parada para foto de paisagens urbanamente exuberantes, fiz meu caminho pela Heitor Penteado, Paulista, descendo a Brigadeiro, cruzando a Lorena e subindo de volta a Bela Cintra.

O relógio exibia 10:30 da manhã quando terminei os quase 40km rodados. Estava levemente cansado, claro – mas ainda imerso nos universos da Paris revolucionária e Nova York do seu primeiro surto desenvolvimentista. 

Era hora de pausar as histórias.

De respirar.

De olhar em volta.

De começar o dia.

Back to backs no caminho do Cruce

Agora eu respiro back-to-backs. Daqui até o começo de fevereiro, meus dois objetivos de treinamento são me habituar a correr sobre pernas cansadas e me manter confortável em subidas e descidas. 

O segundo objetivo é relativamente tranquilo: os dias de trilha e morro em Niterói deram um gás perfeito que está sendo mantido tanto pelos percursos que tenho traçado em Sampa quanto pelas escadarias que inseri no meu cotidiano. 

O primeiro não chega a ser exatamente difícil: tudo, afinal, é sempre uma questão de hábito. Mas é um tipo de treinamento diferente, muito diferente do que estou habituado. 

Tomemos essa semana. Em tese, eu teria uma sessão de 15km na terça e duas de 10km na quarta e na quinta. Seria o normal, fechado por um longão no sábado e mais uns 15km no domingo. Mudei isso. 

Mantive os 15km na terça – mas juntei os outros dois dias no mesmo e, ontem, rodei 20. Cansou bem mais, obviamente – mas confesso que estou começando a me sentir mais confortável com esse acúmulo de sessões back-to-back. Dor, afinal, é sempre resultado de percepção que, por sua vez, é sempre algo relativo. 

Ainda assim, não dá para descuidar do fato de que back-to-backs são um risco à parte: treinar em pernas cansadas aumenta riscos de lesões por forçar uma quebra na biomecânica e impor uma sobrecarga anômala. Para evitar cair dessa corda bamba, inseri um dia de descanso a mais: hoje e amanhã serão dedicados à mais pura regeneração. E confesso que acordar com a certeza de que o descanso será bem vindo foi muito, muito positivo. 

Aproveitemos os days-off: sábado tem longão de novo.