Os detalhes no Caminho

E eis que, quando chego em casa, há um envelope do Caminhos de Rosa me esperando.

Pode parecer um detalhe – mas sempre acreditei que o que encanta mesmo é sempre o detalhe, a atenção às pequenas emoções geradas, a construção gradual da expectativa. Foi exatamente isso.

Recebi um livreto do Caminhos de Rosa com direito a dedicatória manual do Zumzum, idealizador e diretor da prova, e informações que vão de dados técnicos do percurso e regulamento a trechos das histórias do Guimarães Rosa passadas por aquelas bandas.

Devorei o livreto.

Me empolguei com a perspectiva de correr 140km nos calcanhares de um dos maiores mestres da nossa literatura, de ver o que o inspirou, de viver um Brasil tão diferente do que estou habituado.

Já comecei a contar o tempo que falta. 

(E isso porque a prova é só na segunda quinzena de agosto!)

  

Salve a tecnologia!

Os puristas que me perdoem, mas correr é muito, muito mais intenso por conta da tecnologia.

E não digo isso por conta de Garmins ou Stravas – embora eles também tenham seus imensos méritos. Digo isso por conta dos iPhones, iPods, Androids e demais devices sonoros.

Uma coisa é sair de casa às 5:30 da manhã em pleno inverno, atravessando a cidade escura e solitária sem saber sequer se o céu trará raios de sol ou gostas de chuva nos próximos minutos; outra é rodar por mundos paralelos enquanto se corre.

Se é para passar horas na rua, afinal, que se permita à mente viagens maiores do que o horizonte visível. No meu caso, isso significa plugar algum audiobook e percorrer o Ibira ouvindo histórias de lugares distantes, lendas das selvas africanas, relatos de velhas guerras buscando novos futuros. 

Nesses últimos dias, isso tem significado ouvir V. S. Naipaul, um indo-caribenho que, dentre outras pérolas, presenteou o mundo com A Curva no Rio, uma história passada entre a selvageria do interior da África e o ideal de civilização em alguma capital local logo após as guerras por independência travadas em todo o continente. Não vou entrar no mérito da história aqui, claro – mas o fato de poder atravessar oceanos e décadas e ficar imerso em um universo tão à parte é simplesmente fenomenal.

Salve os Deuses da literatura, da tecnologia, da inovação. E salve, claro, esse que é o mais solitário, mais simples e, ao mesmo tempo, mais inspirador dos esportes: a corrida.

  

Corra pelo sertão e litaratura no incrível Caminhos de Rosa

Na quinta-feira, 24 de setembro de 2015, um grupo de ultracorredores partirá para uma daquelas aventuras inesquecíveis que só quem ama as longas distâncias experimenta. 

Nesse caso não basta apenas amar a distância: é necessário estar REALMENTE preparado para ela. Serão 263km cortando o sertão mineiro e seguindo a mesma rota que Guimarães Rosa percorreu e onde tirou inspiração para sua obra prima, Grande Sertão: Veredas

Cada pedacinho de chão lá do norte mineiro, com temperaturas variando de 18 a escorchantes 44 graus, dará aos corredores a oportunidade de viver na pele as letras de um dos maiores gênios que o Brasil já deu ao mundo. 

Paisagens? De chãos talhados a lagos secos, de vidas a ermo a esperanças pairando pelos ares, de suor em cada pedaço azul do céu a noites estreladas como se estivesse flutuando pelo universo: assim deve acontecer a nova edição do Caminhos de Rosa, uma prova icônica organizada pelo André Zumzum e que merece a atenção de todos. 

Destaco a organização porque foi o próprio Zumzum que, como voluntário, organizou a Ultra Estrada Real com uma maestria absoluta, fazendo aquela “prova independente” ser melhor organizada do que muitas, mas muitas provas oficiais mundo afora. 

O que, então, se deve esperar? Dificuldades extremas, um calor infernal, história e literatura s emetamorfoseando em vistas inesquecíveis e muita, muita brasilidade. 

Quer saber mais? Clique aqui, na imagem abaixo (de uma foto tirada do percurso) ou vá ao link http://caminhosderosa.com.br. Se, se tiver coragem de se inscrever, boa sorte! Não estarei lá esse ano – mas certamente participarei em alguma edição futura!!!