Cuspindo na história

O treino de hoje foi mais político do que físico.

Essa semana tem uma volumetria menor: as últimas 3 foram crescentes e, no dia 2, logo ali no horizonte, tenho 50Ks que prometem ser duríssimos (por carregarem a marca da Indomit) lá em São Bento do Sapucaí.

Hoje tinha cerca de 20km para rodar. 

Fui pela Paulista, que ainda traz eletricidade pura no ar, manifestantes acampados em frente à FIESP e bandeiras do Brasil penduradas em todos os cantos. 

De lá, subi e desci as ladeiras do Paraíso e do Cambuci. Rodei o belíssimo Parque da Aclimação. Segui adiante. 

Meu destino: o Ipiranga. 

Dois locais, especificamente. O primeiro foi no complexo do Palácio, incluindo o Monumento da Independência, onde o corpo do D. Pedro I descansa atrás de uma porta pichada com cheiro de urina. Uma lástima. 

De lá, na lateral, uma casa de taipa resiste ai tempo. Era uma pequena venda na época de D. Pedro – e foi lá que, minutos antes de dar o grito do Ipiranga, ele teve que parar para se “aliviar” de uma incômoda diarreia e ainda trocar de calça com um camponês por ter… digamos… “manchado-a”. 

De lá fui para outro lugar: o Instituto Lula, ironicamente vizinho do Palácio.

Naquele discreto prédio, guardado por mais seguranças que o Mausoléu da Independência, o símbolo de uma era está se esfacelando em meio a uma podridão muito mais fétida que as calças de D. Pedro ou o odor do seu último local de descanso. 

Parei em frente ao Instituto. 

Cuspi na calçada. 

Poucas vezes um gesto gerou tanta endorfina.

Tirei ainda algumas fotos – mas apenas do complexo do Museu. Se é para registrar parte da nossa história em uma corrida, que seja algo que inspire orgulho, não nojo.

Na volta, percorri a Av. D. Pedro I, me engendrei pelo centro velho e, desviando de drogados e mendigos que denunciam o calamitoso estado do país e dessa cidade que tanto amo, cheguei em casa.

22km libertadores.

   
    

Publicidade

Trilha Urbana: Da Sé ao Ipiranga

No domingo passado, decidi mudar a rotina e correr pelo centro da cidade – mais precisamente pela região da Pinacoteca e Luz. A experiência em si foi tão incrível que decidi repetir a dose no longão deste último sábado, alternando apenas o roteiro para desbravar um pouco mais dessa cidade que eu tanto amo.

Pois bem. O começo foi uma subida direta da Bela Cintra até a Paulista, cruzando-a, pegando a Consolação e descendo em direção ao centro velho. A primeira meta era o Teatro Municipal, um dos mais belos prédios da cidade e que logo foi alcançado. Dei uma volta, momento no qual um certo orgulho bateu por viver aqui.

Municipal

Teatro Municipal

Olhei o roteiro programado na noite anterior e segui em direção ao Viaduto do Chá, um dos símbolos da industrialização da cidade. Mais um pouco e me deparei com o antigo prédio do BANESPA, próximo à prefeitura, que se erguia em meio a outros arranha-céus sóbrios no estilo Gotham City.

BANESPA

Prédio do BANESPA

À minha frente se estendia o Mosteiro de São Bento, um dos palcos de tantos eventos históricos que São Paulo já abrigou. Assim como boa parte do centro, seu estilo quebrava a paisagem de prédios gigantes contrastando com mendigos nos chãos. Muitos mendigos, aliás.

Mosteiro

Mosteiro de São Bento

A outra parte do centro, que fiz no domingo passado, era tomada por putas, cafetões e viciados; esse parecia reduto dos moradores de rua. Mais calmo e menos perigoso – mas decididamente mais decadente.

Próximo ao Mosteiro, a paisagem muda completamente: entra-se no Pátio do Colégio, marco zero de São Paulo e cercado por uma antiga igrejinha e muitas casinhas coloniais antigas, algumas inteiras, outras cedendo ao tempo.

Patio do Colegio

Pátio do Colégio

PrediodoPatio

Região do Pátio do Colégio

Mais um pouco e, de repente, o cenário muda de novo. Dessa vez, ergue-se à minha frente a majestosa Catedral da Sé, com palmeiras formando uma espécie de caminho santo e mais mendigos fazendo do solo as suas casas.

CatedralSe

Catedral da Sé

Se

Região da Sé

A beleza e a tristeza parecem conviver em uma harmonia quase intrigante no centro. Faz parte do roteiro, acredito.

Da Sé, era hora de tomar uma reta e mudar de zona. Segui ladeira abaixo e acima, passei por uma parte do bairro da Liberdade e continuei.

Liberdade

Liberdade

Meu destino era o Ipiranga, um dos mais antigos bairros onde dois marcos se apresentam: o riacho onde a independência do Brasil foi decretada por D. Pedro I e o Palácio impressionante erguido às suas margens.

No caminho – uma avenida inteiramente margeada por árvores e com alguns casarões antigos – o Palácio já pode ser visto. Amarelo, longo, imponente, ele deixa clara a força da realeza que um dia habitou por essas terras.

Na chegada do Parque da Independência, um monumento belíssimo, onde parte dos restos mortais de D. Pedro I descansam (apenas o seu coração está fora, na cidade do Porto), pontua a paisagem. Pontua não: exclama. Alto.

MonumentoIndependencia

Monumento da Independência

Ele abre caminho para um parque incrível, muitissimamente bem conservado, que se estende até as escadarias do palácio. Percorri o parque, entrando em uma de suas laterais para ver uma casinha de pau a pique bem antiga que parecia perdida por lá. Pelo que li, era uma venda usada por tropeiros (e pelo próprio Imperador) quando vinham para São Paulo. À época, nada daquilo era parte de um centro urbano: a cidade estava longe ainda, lá pelos lados da Sé que, a essa altura, já estava a quilômetros de distância.

Casa_PqIndependencia

Casa de Pau a Pique no Parque da Independência

PalacioIpiranga3

Palácio do Ipiranga

PalacioIpiranga2

Palácio do Ipiranga

PalacioIpiranga

Palácio do Ipiranga

Voltei da casa e subi as escadarias. Ao fundo do Palácio há uma pequena trilha margeada de bambus – algo quase exótico de tão contrastante. Peguei a trilha, respirei fundo e deixei o Ipiranga.

Meu destino agora era a Aclimação.

Todo aquele local é recheado de morros: de repente, subidas íngremes e descidas fortes viraram comuns. Planos eram inexistentes, bom para o condicionamento e para o treino.

Depois de subir, descer, subir e descer, cheguei no Parque da Aclimação. Um oásis com um lago no meio e uma quantidade de verde tão intensa que, por um minuto, esquece-se de que se está no meio de uma das maiores metrópoles do mundo.

ParqueAclimacao

Parque da Aclimação

Lá no Parque, uma inconveniência: a bateria do meu celular acabou, levando consigo o mapa que me guiava. Tudo bem: estava agora dependente das placas de sinalização.

Confesso que me perdi um pouco nas ladeiras mas, depois de algum tempo, fiz meu caminho de volta pela Paulista e até a minha casa.

Estava finalizada a trilha. E quer saber? Recomendo a todos. Há tantos segredos nas grandes cidades, tantas paisagens que acabamos ignorando por hábito que um pouco mais de atenção acaba sendo até mesmo inspiradora.

Deixo o meu trajeto abaixo para quem quiser – mas com um pequeno alerta: por algum motivo, o Strava teve problemas e me “roubou” 2,5km no começo. Perceba que o ponto de largada e de chegada estão distintes no mapa quando, em realidade, foram o mesmo local. Bom… é só considerar a chegada como ponto de largada e um total percorrido de 22,5km, aproximadamente.

Strava

22,5km de muita, muita inspiração deixada nas ruas de Sampa.