Que comece a semana

Bastou um isolado trovão pela janela e, antes mesmo de conferir se ele estava acompanhado de chuva ou não, desisti da corrida do dia. Sábado, afinal, tem ultra – e essa é a semana de descanso para as pernas.

Tudo bem que eliminar dores musculares por completo é utópico – mas o plano é cruzar a largada mais inteiro do que estive nos últimos meses. Para a semana, tenho algo como 20 a 25km para rodar até a sexta e devo concentrar isso entre amanhã e depois.

Serão dias difíceis no trabalho, cheios de complicações, reuniões, apresentações, decisões e mais outros tantos ‘ões’ que pautam a vida urbana na maior metrópole do país. Só isso já é um desafio à parte, um treinamento por si só: separar conturbações mentais de treinos físicos, buscar uma espécie de “linha zen” que acalme cérebro e coração.

Essa semana é toda sobre foco mental, sobre acalmar os batimentos e me sintonizar comigo mesmo.

Comecemo-na.

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Abrindo a semana de pico

Semana de pico começando. Com ela, vem as dores musculares acumuladas, a expectativa de um descanço leve precedendo uma prova longa, uma preparação mental que começa a se intensificar. 

Hoje já foi 1h30 cedo, somando 16km. Até o final da semana, entre 90 e 95km devem ser rodados, incluindo aí 4h que devo rodar no sábado. 

Em períodos assim, costumo ligar um “mode” de foco total: penso apenas na prova-meta, deixo tiros de lado e troco por rodagens em ritmo equilibrado (porém forte) e me forço a levantar regradamente como se fosse um robô. Até hoje, tem funcionado – e não há porque ser diferente agora. 

Dia 17 tem os 75km entre Bertioga-Maresias. Já vi vídeos, rotas, altimetria e me emp0lguei com o sempre delicioso prospecto de rodar por horas pelo litoral norte paulista. 

Agora é fechar essa fase do treinamento. 

  

Mudança geral

Algo acontece em nossa mente quando passamos por situações difíceis ou depois de superarmos desafios cuja intensidade, vista pelo retrovisor, parece verdadeiramente insana. É como se toda uma jornada realmente parecesse ter chegado ao seu fim, forçando um novo foco e uma pergunta muito pouco reconfortante: “e agora?”.

Levei um tempo para entender isso, mas acho que cheguei nesse ponto agora. Não que tenha realizado nenhum feito digno de capa de revista, claro – mas cada um de nós tem os seus próprios limites, determinando as medidas reais de qualquer tipo de autosuperação.

Pois bem.

Me inscrevi na Maratona de SP com o único objetivo de me qualificar para Comrades.

Me qualifiquei, embora a duras penas pelas condições sobrehumanas da prova e, com isso, cheguei ao final da minha temporada de 2014. Sem provas no curto prazo para desviar um pouco o foco de um ano de dificuldades colossais no trabalho, acabei desmoronando.

E agora?

De repente, caí vítima de overtraining e exaustão, perdi a motivação de correr por um tempo, fiquei gripado duas vezes em duas semanas e vi a minha perfomance praticamente evaporar.

Aos poucos, fui me recuperando.

Com um passo de cada vez, ouvindo mais o corpo, cedendo quando sentia a necessidade de ceder e forçando quando sentia que precisava de uma chacoalhada.

Nesse período, decidi montar a minha própria ultra pela Estrada Real em um futuro ainda indefinido. Uma forma diferente de encarar as trilhas, com um aspecto muito mais aventureiro do que o normal.

Me peguei por diversas vezes fuçando percursos novos nas proximidades pela Web e pesquisando trilhas por lugares menos conhecidos.

E agora? Não sabia a resposta – mas sabia que mais do mesmo não resolveria nada.

O desconhecido, aliás, passou a me encantar muito mais que o normal. E agora?

O asfalto perdeu a graça.

O parque ficou monótono.

O cotidiano ficou enfadonho.

Até meus equipamentos mudaram: o relógio Adidas MiCoach deu o seu suspiro final e eu troquei por um Garmin; criei uma conta no Strava para me localizar e me entender melhor; comprei um tênis Salomon S-Lab Ultra para me agarrar melhor às trilhas distantes de São Paulo.

Comrades? Por mais apaixonante que essa prova seja – e por mais que ela tenha mudado a minha vida sob vários aspectos – devo confessar que estou perdendo a motivação de voltar. Afinal… voltar para que, se já conheço o local e se há tantos lugares incríveis no mundo a se desbravar?

Mas ainda não me decidi sobre isso. Esse é um ponto que deve ser encarado sem pressa. Com calma.

Quando estiver inteiro novamente, o que ainda não é o caso.

Por hora, estou me concentrando em dois próximos passos: o Plano Estrada Real e alguma trilha insana lá perto de Villa Angostura (Argentina), onde passarei o ano novo. Já imaginou quantas coisas incríveis existem por lá?

Talvez as respostas estejam nas montanhas ao sul; talvez nas minas abandonadas e cachoeiras ao oeste; talvez no puro ato de desbravar o desconhecido com a calma e o sangue frio com que se costuma correr ultras.

Esteja essa resposta onde estiver, uma coisa é clara: sairei dessa fase de exaustão bem diferente do que entrei.

Que bom. Mudanças, afinal, sempre são boas.

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