Vídeo para matar saudades das trilhas do Cruce

Mesmo com parcos anos correndo em trilhas, posso dizer que poucos são os percursos tao deliciosos quanto os do Cruce. Claro: todo ano os percursos mudam – mas a região é sempre a mesma. 

E isso inclui trilhas lisas e absolutamente corríveis, montanhas belíssimas emoldurando lagos sensacionais ao fundo em três dias de pura endorfina. Quem não foi ainda, recomendo seriamente. 

Para quem foi, eis um vídeo que achei agora na Web com um programa gravado na edição deste ano para a TV espanhola:

A fuga da areia movediça: quando o descanso vira uma armadilha

A areia movediça, finalmente, ficou no passado.

Hoje acordei cedo como costumava fazer e saí para o parque. 

Leve. Rápido. Quase voando.

Não fossem dois malditos semáforos travados, teria feito uma média abaixo dos 5’/km – coisa forte para meus parâmetros. E mais: foi o segundo treino da semana, mantendo um volume e uma frequência perfeitos, e sem nenhum mínimo sinal de incômodo.

Curioso é analisar essa recuperação.

O Cruce não foi a prova mais dura que já fiz – apesar das montanhas dos últimos dias e da falta de camas macias nos acampamentos, os três dias conseguiram quebrar o desafio da quilometragem em pedaços mais digeríveis. Ainda assim, foi uma das provas mais marcantes: envolvia montanha de verdade, envolvia os míticos andes, envolvia uma experiência totalmente diferente de todas as que havia colecionado até então.

Quando voltei, voltei realizado. Tinha cumprido uma meta importante e, em nome dela, baixei a guarda e me dei o luxo de não ter nada mais planejado para o futuro próximo, de não ter planilha e de me dar férias. Isso deveria ser algo bom… Mas não foi.

Relaxado, o corpo meio que se desmontou. Dores começaram a subir por todos os cantos, articulações pararam de responder como deveriam e até a capacidade aeróbica titubeou. Foi como se tivesse regredido ou como se a linha de chegada em San Martin se equivalesse a uma lesão mental da qual estaria iniciando uma recuperação.

Foi uma areia movediça: se permanecesse parado, continuaria sendo engolido pelo cansaço crescente; se exagerasse e forçasse a barra em treinos teimosamente intensos, apenas pioraria.

E aí comecei a escalada para fora do poço. A primeira arma: regularidade. Fiz de tudo para sair nos dias determinados, ainda que pra fazer metade do que planejava. Aproveitei finais de semana abrindo mão das primeiras e mais difíceis horas do dia. Penei no calor e persisti na chuva.

Planejei novas provas: ter uma meta é sempre fundamental. 50K da Indomit São Paulo em abril, 140K do Caminhos de Rosa em agosto.

Depois, aos poucos, fui somando altimetria. Busquei morros mais altos até o limite do confortável. Quando estava perto da sensação de quebra, cedia.

Sempre mantendo a regularidade.

Troquei altimetria por velocidade, aumentando o pace.

Regularidade.

Fiz um ou outro regenerativo.

Leve, mas conforme o planejado.

E, assim, em uma bela quarta, acordei para o fato de que havia deixado a areia movediça para trás. 

O corpo havia desistido de seu protesto intruso, as dores haviam se transformado naqueles incômodos leves e normais a treinos de ultras, a sensação de medo ao pensar nas dificuldades dos dias anteriores trocada por ansiedade referente aos planos futuros.

Ufa!

A lição aprendida aqui? Descanso pode ser bom de vez em quando – mas quando o exagero o metamorfoseia em descaso, a volta à ativa pode ser muito mais dolorosa do que se imagina.

  

Primeiro giro

Mesmo completamente só aqui em San Martin – ainda não encontrei nenhum corredor brasileiro por estas bandas – e sem nada para fazer durante o dia, coloquei o despertador para as 6 da manhã.

Não foi masoquismo: queria sentir o clima nas primeiras horas e ver o sol nascer nos Andes. Excelente ideia, acrescento.

Saí para um trote leve, de 10K, nos arredores da vila. Não busquei trilhas ou nada do gênero: apenas segui a estrada morro acima, evitando que criatividades excessivas no mapa acabassem me cansando além da conta.

Sem nenhum compromisso com tempo ou agenda, quem ganhou o presente mesmo foram os meus olhos. Já havia corrido por aqui no passado, quando passei o ano novo na “vizinha” Villa la Angustura – mas paisagens assim são sempre, sempre bem vindas de volta.

Aos poucos, acabei vendo o céu sair do azul escuro para o colorido, do colorido para o claríssimo, do claríssimo para o azul turquesa. Ao fundo, as montanhas (infelizmente sem neve) se erguiam em uma demonstração de poder inquestionável. Na base, pequenas chácaras se estendiam por quilômetros, sendo cortadas apenas por eventuais casinhas de madeira que pareciam ter sido retiradas de um desenho animado.

O clima não estava quente – nem de longe. Aliás, eu arriscaria dizer que peguei uns 12 ou 13 graus ao sair do hotel, mesmo com o sol brilhando.

Há maneira melhor de começar um dia?

Não.

Ao todo, essa uma hora foi absolutamente revigorante, animadora, inspiradora. O problema é que ela só durou uma hora: ainda tinha o dia inteiro pela frente.

Pois bem: logo que cheguei de volta, me vesti de ingenuidade e fui ao centro pegar o meu kit. Eu e todos os outros 2,5 mil corredores, aparentemente.

Fila? Acho que nem o INSS tinha tanta gente esperando parada! Mudança de planos: deixei o kit para a tarde. Era hora de descobrir o que fazer amanhã, no que resolvi me inscrevendo em um passeio de 4 horas de caiaque pelos lagos amanhã cedo. Sim, deve ser cansativo – mas pelo menos será para os braços, não para as pernas.

Ainda tinha outra tarefa pendurada: o trabalho. Uma viagem como essas consome alguns dias úteis e, ao menos para mim, é impossível deixar o trabalho de lado e considerar tudo como férias (por mais bem vindas e merecidas que sejam, acrescento).

Entre trabalho, trote e posts, portanto, acabei comendo toda a manhã e parte da tarde. E é neste ponto que estou: sentado em um café, martelando o teclado no blog enquanto o projeto que acabei de montar é uploadado para o dropbox e passado adiante. A boa notícia é que, como a produtividade sempre voa com a absoluta falta de interrupções, acabei adiantando tanta coisa que o resto do dia de hoje e todo o amanhã está vazio.

Nova tarefa pela frente, portanto: preencher o tempo. Só espero que não seja com a fila da entrega do kit que, a esta altura, já deve estar menor! :-)

   
    
   
 

 

 

Checkpoint: Rumo aos Andes

Última corridinha feita: 11K pelo Ibirapuera. 

Fora as desconfortáveis dores fantasma fruto do período de tapering, tudo normal.

Hoje de madrugada embarco para a Argentina, devendo chegar em San Martin de Los Andes por volta das 13:00 de amanhã. De então até a sexta, dia da largada, serão apenas trotes leves pelas montanhas, mergulhos no geladíssimo lago Lacar e ajustes finíssimos no preparo final – principalmente por conta da ansiedade, que já se acumula por todo o corpo.

E vambora para mais uma experiência de vida memorável!

  
  

Checkpoint: Fluidez

Há algo que acompanha a dor e a recuperação muscular depois de uma ultra intensa: a sensação de liberdade. 

De repente, a planilha parece meio vazia. Não que a falta de alguma prova no curto horizonte seja algo bom, ao menos para mim: gosto de ter uma meta para dirigir os treinos, um objetivo qualquer a perseguir. Mas, de vez em quando, é muito bom não ter absolutamente nada estruturado. 

Ontem, saí para uma volta descompromissada na USP com direito a trilha e calor. Hoje, preferi sair no final da tarde para pegar a trilha do Ibirapuera com aquela luz meio fosca, típica de final de domingo, formada por um clima tão ameno quando o dia. 

Em ambos os dias, já na porta de casa, liguei o Spotify em uma playlist de leve, daquelas que parecem ter sido costuradas cirurgicamente para se gerar fumaças entorpecentes, e saí fluindo ladeira abaixo. 

Fluidez. 

Não há palavra melhor para descrever essas duas primeiras corridas pós-Indomit. 

Sim: os ossos ainda doíam um pouco, a musculatura ainda não estava 100% recuperada e mesmo o fôlego não estava perfeito. Mas descobri que, em esportes de endurance, recuperação é consequência, não causa. 

E o que a gera nem sempre é o descanso puro: ao contrário, é conseguir encaixar corpo e mente naquele estado zen que praticamente define a corrida do ponto de vista holístico. É ter ao menos um par de minutos respirando a leveza da endorfina, sentindo a brisa passar, cheirando a mata, ouvindo o dia, tocando as folhas com as mãos semiabertas. 

Absorvendo vida.

Esse estado recupera o corpo mais que qualquer tempo de descanso, mais que qualquer remédio. E encontrá-lo é sempre, sempre encontrar a mais pura perfeição.

Agora é hora de pavimentar um novo caminho rumo ao Cruce.