Acaba, semana!

Faltam mais 2 dias. 

Ou 1, considerando que amanhã à tarde zarpo para São Bento do Sapucaí. 

Não é a ansiedade da prova que está me comendo hoje – é o cansaço do trabalho. É esse exaustivo ritmo de Brasil em crise, com ânimos exaltados e ações em permanente estado de alerta, de expectativa e de surpresa. Trilhar a selva paulista tem sido uma tarefa muita mais técnica do que qualquer trilha da Indomit. 

Ainda assim, hoje é quinta. 

É dia em que o horizonte do descanso está mais próximo, mais visível. 

Preciso recarregar as baterias trocando cabeça por pernas lá na Serra da Mantiqueira. 

  

3h30 de remédio

O Brasil está em pandarecos. Já expressei a alguns amigos que, em minha opinião, estamos vivendo uma revolução à brasileira. O raciocínio é simples: o brasileiro, em sua essência, detesta conflitos mais agudos. Não foi por outro motivo que, enquanto sangue era derramado nos EUA e na França lá pelos idos do século XVIII, o máximo que testemunhamos aqui foi a Inconfidência. Não quero desmerecer este que talvez tenha sido um dos mais emblemáticos acontecimento da nossa história – mas não dá para comparar o enforcamento de um mártir e o degredo de um punhado de (grandes) poetas com as tantas cabeças que rolaram pelas ruas de Paris em nome dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. 

Avancemos alguns anos até a nossa independência. Alguém conhece algum outro país que fez a sua libertação ao declarar como imperador o filho do que então reinava – e ainda se comprometer a pagar fortunas a título de indenização à metrópole? Pois é: foi assim, com mais canetas e menos balas, que nos libertamos. O mesmo imperador acabou saindo para se tornar rei da metrópole original, deixando seu filho no lugar. D. Pedro II foi considerado um monarca altamente popular e capitaneou inegáveis avanços – até que os quartéis decidiram se rebelar sob o comando de Deodoro da Fonseca em um movimento que poucos, possivelmente até o próprio marechal, realmente acreditavam que vingaria. E sabe porque vingou? Porque D. Pedro II, já cansado, simplesmente desistiu. 

O Brasil se revoluciona assim, a fogo brando. E é isso que está acontecendo agora. 

Não temos os presos políticos que apareceram no Egito, não temos as cisões da Síria e do Iraque, não temos o anarquismo que impera nos tantos países que decidem mudar tudo. Temos apenas – e esse “apenas” não deve ser menosprezado – manifestações populares pedindo mudanças radicais em um governo falido, com ideais espúrios, incompetência clara e corrupção escancarada. E, não tenho dúvidas, essa mudança acabará vindo. 

Dilma já caiu. Lula dificilmente escapará das grades. Temer provavelmente assumirá – mas dificilmente se perenizará no poder. O vácuo que hoje é virtual se tornará real, concreto. A crise em si piorará? Talvez sim, se um novo governo, ainda que provisório, não mostrar um mínimo de competência de articulação para colocar o trem nos trilhos. Ou talvez não, se a briga pelo poder impedir os seus atores de perceberem que, na guerra, todos perderão. Ainda é cedo para dizer. 

E que diabos esse texto está fazendo em um blog de corrida? 

Como todo corredor amador, tenho também a minha vida. Sou sócio de duas empresas que administro em um malabarismo de tempo que parece impossível: uma agência de comunicação e uma editora, ambas focadas na Internet. 

Como todo empresário, enfrentar crises como a que estamos atravessando aqui significa desenvolver um faro digno de filmes para desviar de balas e agarrar oportunidades que acabam aparecendo. Significa conviver com a incerteza política e social. Significa prever diferentes cenários de acordo com cada notícia estampada nas redes e tentar se manter relativamente seguro em todos. Significa medir cada passo. 

Como todo cidadão, tenho também a minha vida pessoal. Tenho a minha família que precisa de mim inteiro, feliz, de bom humor para aproveitar cada dia (afinal, não há outro motivo de estarmos aqui na Terra que não esse). Há atenções que preciso distribuir – e o faço de muito bom grado, diga-se de passagem. Há decisões importantes sobre a educação da minha pequena filha que preciso tomar (em conjunto, claro, com a minha mulher que passa pelos mesmos desafios que eu).

Minha vida inteira, em suma, é pautada pela necessidade de tomar decisões diárias – muitas em uma fração de segundo. Provavelmente igual à de todos que estão lendo este post, acrescento. E, embora (e falo isso batendo três vezes na madeira) até este momento a maior parte dessas decisões tenha se mostrado essencialmente correta, essa pressão cansa. 

E o que fazer quando isso cansa? 

Correr. 

Por três horas e meia pelas ruas da mesma São Paulo que me desafia todos os dias e que tanto amo.

Não há remédio melhor do que um longão de sábado.

  

Aqueles insuportáveis 60km do meio

Toda ultra tem, claro, os seus desafios. Para mim, pelo menos, o maior deles acontece naquele período morno, monótono, que normalmente se estende entre os km 55 e 65 de uma prova de 80 ou 90km.

Ambas as Comrades foram assim. A Douro Ultra trail foi assim. A Ultra Estrada Real foi assim.

Não há um desafio técnico, uma montanha mais tensa a ser escalada, rios caudalosos a serem cruzados. Não há nada além da nossa mente se perguntando se segue ou se pára.

Para falar a verdade, o que chateia é justamente esse “nada”, essa sensação de se estar em algum lugar entre o começo empolgante e o fim extasiante, espremido entre o sol e a terra e com um prospecto de insuportabilidade da travessia. É quando se alcança o ponto mais baixo, quando aquele lugar escuro na mente parece guiar o corpo e ditar as decisões.

A alternativa? Seguir em frente. Fixamente. Constantemente. 

Atravessar esse vale escuro, depressivo, dure o quanto durar, até o outro lado.

Neste momento, a vida parece estar imitando o esporte: estou nesses malditos 60km.

Dependendo do que ocorra, tudo pode mudar. Pode ser que o governo caia, dando uma guinada nas perspectivas de curto prazo de qualquer empresário brasileiro, a esta altura já meio saturados de lidar com tanto cavalo de pau e adversidade.

Pode ser que a crise se acentue ainda mais, forçando medidas mais drásticas na condução dos negócios. Pode ser que não, embora essa possibilidade pareça mais remota. 

Pode ser que a própria crise permita surgir oportunidades interessantes, daquelas que jamais apareceriam em momentos de euforia em que se está mais concentrado em aproveitar a abundância do que em garimpar raridades na escassez. Pode ser que não, que essas oportunidades sejam, na verdade, miragens geradas pelo estopor da realidade.

Pode ser que seduções do além-mar gritem mais alto e puxem, como um ímã, mudanças pessoais radicais na minha vida. Pode ser que me mude. Pode ser que não.

Pode ser.

Pode ser.

Pode ser.

Essa insistência de possibilidades que se mantem equilibradamente remotas e, ao mesmo tempo, no mesmo espectro de viabilidade, cansa. Indefinições geram exaustão. 

A alternativa? Assim como no esporte, só me resta uma: seguir em frente. Fixamente. Constantemente.