Dois descansos

Não que eu tenha corrida à velocidade da luz – mas estava já me cansando do pace vagaroso que parece tomar conta das pernas quando treinamos para provas muito longas. 

Estava já me habituando a rodar na casa dos 6-quase-7 min/km, algo impensável no passado não tão distante. Não minto: estava até bem encaixado nesse ritmo, contente pelo volume que estava somando enquando rodava embalado por audiolivros e podcasts. 

O problema era chegar em casa e ver as estatísticas no Strava. Estatísticas servem, em muito, para isso: para nos deixarem constrangidos em nome do próprio ego e nos forçarem melhorias. 

Assim, com alguma gana, saí no final do dia de ontem. 

Saí sério, quase sisudo, com o objetivo de engolir uma meia maratona aparentando maldade nos olhos. Foi o que fiz. 

Saí doido a uma média de 5 min/km. Pode não parecer tanto para os mais elitizeiros mas, para mim, a essa altura, é. Folguei um pouco: fui para 5min30. Me mantive apertado, tenso, grunhido. 

Busquei parar no mínimo possível de semáforos. 

Varri o Ibirapuera por fora e por dentro. 

Serpenteei o caminho de pedrinhas. 

Ultrapassei os lerdos que corriam como eu estava correndo. 

Voltei furando o trânsito. 

Parei de súbito em frente ao portão do prédio.

Quando cheguei em casa estava com um outro tipo de cansaço no corpo. Presente, por certo, e fazendo as coxas reclamarem com as ideias – mas naquele tipo de reclamação que inclui um tipo de orgulho, quase de soberba, no tom. 

Ganhei com isso dois dias de descanso – hoje e amanhã. Descanso perfeito, aliás, dadas as quarto horas de rua que devo para o sábado. 

Mas esses dois dias, não me engano, servirão também para sossegar as têmperas e me fazer voltar ao foco de somar os quilômetros mais lentos e constantes, constantes, constantes. 

Teriam sido dois descansos? Por certo. 

Um, feito de pernas em movimento, para a ansiedade de ir mais rápido; e outro, feito de pernas para o ar, para tirar a eletricidade do sangue. 

Ambos foram muito bem vindos. 

Vídeo: Indomit São Paulo/ São Bento do Sapucaí

Taí o vídeo de uma das corrida mais duras e belas que já fiz. Se alguém estiver pensando em um desafio sensacional pela inigualável Serra da Mantiqueira, recomendo fortemente. 

Até porque, provavelmente, esse é um que eu repetirei em 2017!

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Fbombinhasrunners%2Fvideos%2Fvb.289838951129935%2F990101871103636%2F%3Ftype%3D3&show_text=0&width=560

Checkpoint: Curtindo a jornada

Depois da semana de descanso, que venha a intensa. Volumetricamente, aliás, bem intensa, ao menos pelos meus parâmetros: foram quase 95km, o mais que fiz desde o Cruce.

A “fórmula”, ao menos até agora, está funcionando: como comecei fresco, novo, realmente fechei o domingo impressionantemente inteiro – mesmo considerando uma quase-maratona ontem e uma quase-meia hoje.

Pelas próximas duas semanas o ritmo será igual ao desta. Imagino que chegue ao término da última ansioso pela semana de descanso – mas só esperando para ver.

Há algo de sensacional nisso tudo: o próprio ato de testar um modelo novo de treino, registrando semana a semana seus resultados no corpo, me deixa tão empolgado quanto se estivesse correndo uma ultra.

A jornada, por vezes, pode ser mais interessante que o destino.

Aumentando os longões na companhia de nobres espíritos

Em algum momento, afinal, chegaria o dia em que o volume de treino subiria para o compatível com a meta de 140K.

Bom… chegou. E, enquanto eu nutria algum receio quanto a treinos superiores a 4 horas, acabei esquecendo de como esse tempo todo sozinho com os passos faz bem.

E como fez. Primeiro, pela companhia: enquanto seguia rumo à USP e circundava seu percurso, os últimos capítulos do audiolivro Um Conto de Duas Cidades, de Dickens, me mantinham ocupado entre a tensão da Consiergerie e a exclamação da guilhotina revolucionária. 

Ele acabou, no entanto, antes da corrida. 

Fiquei um tempo sorvendo o final enquanto cruzava a ponte até o meu segundo destino, o Parque Villa-Lobos. A São Paulo daquelas bandas é outra cidade: arborizada, esportizada, despoluída nos mais diversos aspectos. Mas, entre passadas e pequenas rajadas de vento que pareciam acordar as folhas, senti vontade de alguma nova história. 

Histórias viciam; o tempo proporcionado pelos longos treinamentos de ultra são a agulha perfeita.

Parei e olhei o iPhone: havia um audiolivro baixado e ainda intacto, agoniado para começar a soprar suas palavras ouvido adentro. Era a hora perfeita.

Meia dúzia de cliques depois e estava saindo do parque e subindo a Cerro Corá ouvindo o Grande Gatsby. Outro tempo, outro continente, outra dimensão – mas o mesmo efeito de me surrupiar o pensamento para muito além de qualquer mero percurso.

E assim – com apenas uma ou outra parada para foto de paisagens urbanamente exuberantes, fiz meu caminho pela Heitor Penteado, Paulista, descendo a Brigadeiro, cruzando a Lorena e subindo de volta a Bela Cintra.

O relógio exibia 10:30 da manhã quando terminei os quase 40km rodados. Estava levemente cansado, claro – mas ainda imerso nos universos da Paris revolucionária e Nova York do seu primeiro surto desenvolvimentista. 

Era hora de pausar as histórias.

De respirar.

De olhar em volta.

De começar o dia.

Vídeo: Caminhos de Rosa, parte 1

Recentemente, o André Zumzum, Diretor de Prova do Caminhos de Rosa, segmentou o documentário que fez no ano passado em 4 pequenos vídeos.

Já estou em pleno treinamento para a prova e com um nível poderoso de motivação. Nesses momentos, todo e qualquer material – fotos, vídeos, depoimentos etc. – é sempre bem vindo.

E, como há tempo até lá, vou sorvendo esse conteúdo aos poucos, um de cada vez, exatamente como costumamos correr ultras.

O primeiro segue abaixo: dá para sacar a força histórica e o calor intenso em cada cena.

Que venha agosto!