A semana pós-meta

Há uma sensação incrível de missão cumprida sempre que conseguimos bater alguma meta importante.

É como estou desde que retornei da África do Sul trazendo comigo a medalha back-to-back da Comrades, indubitavelmente a prova mais “mágica” e contagiante que já participei na vida.

Ela foi no domingo passado, há menos de uma semana – mas o corpo já está aproveitando o que se pode chamar de “louros” em treinos descompromissados e desplanilhados pelo parque. Saí para 11K na quarta, já plenamente recuperado, e fiz mais 13K no feriado de ontem. Sábado tem longão e domingo, regenerativo. Uma espécie de rotina se mantém – mas de forma mais suave, descansada, do que antes. Ao menos para a mente.

Esse descanso, para mim, não significa ficar jogado no sofá: significa apenas poder correr de acordo com o ritmo do corpo, sem nenhum tipo de pressão ou controle, sem nenhuma meta assustando a mente. Significa apenas fazer uma das coisas que mais amo na vida: correr.

E, entre uma passada e outra, começar a pensar em próximas metas, em próximas provas.

Por hora, tenho apenas os 100K da Indomit planejados para novembro… mas a vontade de inserir o calendário com pelo menos mais uma ultra já começa a bater. Quais seriam? O que há planejado por essas bandas? Quais oportunidades podem ser aproveitadas?

Começarei a buscar essas respostas entre hoje e amanhã, caçando desafios pela Web enquanto monto a minha própria planilha uma vez que estou órfão de treinador. Estava com saudade de cuidar de mim mesmo neste sentido.

E estava também com saudade de aproveitar esse período pós-meta de pura endorfina correndo solta pelo sangue.

corredor

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As montanhas e os seus perigos

Soube ontem que o João Marinho, organizador da Douro Ultra Trail, está desaparecido desde a terça da semana passada.

Saiu para correr solo pelas montanhas das Astúrias, no norte da Espanha, e, em meio a neve, ventos e neblina, se fundiu com a paisagem.

Até a hora deste post o paradeiro dele ainda é desconhecido. Sabe-se apenas que o resgate espanhol nutre poucas esperanças de encontrá-lo com vida dado o tempo desde o último contato e as condições da montanha.

Conheci o João quando decidi me inscrever na DUT: era ele quem respondia as dúvidas diretamente e que ajudava nos detalhes de planejamento da minha ida daqui do Brasil até a largada, na cidade de Peso da Régua.

Dirigiu uma prova sem paralelos por um dos visuais mais incríveis que meus olhos já testemunharam – e em um nível de organização como poucas vezes minhas pernas já percorreram. Sua atenção aos detalhes foi admirável – incluindo me reconhecer, pelo sotaque brasileiro, no instante que nos cruzamos lá na chegada.

É difícil – e triste – imaginar que um corredor tão experiente tenha se perdido ou se acidentado justamente em seu habitat natural, a montanha. Mas é também um alerta importante para todos nós que fazemos das trilhas e ruas uma espécie de segunda casa.

A natureza, afinal, ama apenas a ela própria e não costuma ter pena ou piedade de ninguém. A nós, cabe apenas degustá-la com uma alta dose de respeito.

Espero que o João retorne vivo para a sua família e que esse seja um daqueles casos milagrosos de sobrevivência. E que essa lição possa ser dada a todos os corredores que o conhecem sem mais crueldades do destino.

Abaixo, a última foto dele mesmo postada em sua página no Facebook antes de partir para a montanha. Espero que mais dessas possam ser tiradas por ele em breve.

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Summits of My Life, com Kilian Jornet

Desde que comecei a percorrer distâncias mais longas, passei também a buscar filmes e conteúdos em geral sobre esse esporte que, na prática, considero uma espécie de união entre corrida e algo zen como o Yoga.

E há diversos espalhados pela Web para basicamente todos os gostos: documentários sobre o Grand Slam de corridas no deserto, sobre Western States, sobre Bad Water e assim por diante.

Um deles, no entanto, me chamou a atenção: uma série protagonizada pelo Kilian Jornet que, ao invés de corridas oficiais, fala sobre o ato de correrem algumas das mais incríveis montanhas do mundo. O primeiro filme da série já está no ar e disponível no Youtube. Vale conferir: