Brigando contra os demônios da manhã

O problema com as longas quilometragens em dias úteis – qualquer coisa a partir de 15km – não são as distâncias: são os horários. 

Não discuto que, quando se está atravessando a trilha do Ibirapuera junto com os primeiros raios de sol que parecem pintar de ouro os troncos e a terra ocre, a endorfina parece explodir pelo corpo. Poucas são as sensações tão gratificantes quanto se ver quase que inteiramente só em meio ao cheiro de orvalho, com tempo e silêncio para mergulhar na própria cabeça e sem se preocupar muito com a pressa. A cidade dorme a essa hora. 

A sensação de ser o único acordado é revigorante. 

Não é aí que mora o problema. Este vem antes – poucos minutos antes, quando o despertador começa a gritar no meio do quinto sono. Aí os demônios aparecem: “durma mais”; “deixe para o final do dia”; “talvez as pernas queiram descanso”.

Os demônios começam a discutir: “no final do dia não dá: tem aquela reunião que deve entrar pela noite”; “a previsão é de tempestade torrencial a partir do meio dia”; “hoje você precisa chegar cedo para liberar a babá”. 

A essa altura o sono em si já se foi. A discussão interna, no entanto, está a pleno vapor, movida à preguiça de se levantar e encarar os dias. Às vezes são poucos minutos até um veredito; às vezes, quase meia hora inteira. Até que, em um determinado momento, alguém vence. 

Normalmente, este alguém é a corrida em si: resignado, me levanto, troco de roupa e parto para abrir o primeiro sorriso apenas depois que o GPS é encontrado pelo relógio e que os primeiros metros são digeridos. Nesses momentos eu chego a me questionar o que me levou a pensar em ficar na cama: “que ideia mais sem pé nem cabeça”! 

Esses dias, com sequências de mini-longões no meio da semana, tem sido inteiramente dominados por essas batalhas. Todas sendo vencidas pelas trilhas, ainda bem – mas seria muito, muito bom que alguém inventasse algum remédio contra esses demônios internos intrusivos.

  

O barulho das primeiras horas

O plano era acordar quase tão cedo quanto ontem para ter as ruas, novamente, só para mim.

Não deu. Hoje foi daquelas manhãs em que sair da cama é tarefa praticamente impossível. Desde as 5, uma batalha entre o despertador e eu começou a se travar. No começo, foi leve, quase imperceptível; mas quando as pálpebras firmaram posição do lado dele, tudo ficou mais tenso. Desisti às 7, exausto do processo de aguardar que ele soasse para apertar o botão de snooze.

Às 7, no entanto, minha mulher levantou. Era dia dela levar a nossa filha para a escola e, como já havia um certo atraso no ar, tudo precisava ser feito às pressas.

E a pressa, claro, nunca é silenciosa. Passos apressados cruzavam o corredor, interrompidos apenas pelo som de louças se arranjando na mesa. Mais passos e vozes se encontrando no quarto ao lado. Debates breves sobre a roupa e sobre bonecas que minha filha queria levar para a escola. Leite sendo demandado; meias sendo procuradas; frases pedindo mais pressa se esbarrando em uma barreira de preguiça infantil aumentando os sons.

No quarto ao lado, em que eu ainda tentava (ingenuamente) dormir, o ar condicionado decidiu entrar em um modo esquisito de ligar e desligar a cada 5 minutos, adicionando assim barulhos rítmicos que tornavam a retomada do sono ainda mais impossível.

“Devia ter saído para correr”, pensava incessantemente. Pensar, no entanto, nunca foi sinônimo de agir.

De repente, de um minuto para outro, uma série de “tchaus” trouxe consigo o silêncio.

Estava só em casa.

Mas já era 8:30 e o despertador tocou novamente, desta vez me mandando trabalhar.

Levantei, exausto pela intensidade das batalhas e barulhos da manhã, com a cabeça latejando de dor e com muitas saudades do dia de ontem, quando madrugar para correr no parque foi algo tão simples e perfeito.

Quem sabe amanhã? O despertador, afinal, já está programado.

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