Que as trilhas e asfaltos me recebam bem

Os próximos 3 meses, estimo, serão de plena guerra. Teremos confusões envolvendo o ministério do Lula, as tentativas de barrar a Lava-Jato, delações premiadas, articulações para o impeachment, o impeachment em si. Enquanto isso, o mercado inteiro aperta os cintos e se segura esperando por melhores ventos e temendo os desastres que insistem em se colar a rupturas ideológico-político-sociais como as que estamos vivendo.

Resultado: do lado de cá das trincheiras, estou trabalhando dobrado, pintado e pembado para a guerra. Cada dia é uma batalha. Cada dia seguinte é uma estratégia. 

Cansativos, esses tempos. Mas confesso: estão sendo de uma adrenalina absolutamente empolgante. 

Só preciso mesmo é que as trilhas e asfaltos me recebam bem nos começos e finais de dia. 

Esses momentos de inspiração endorfinada somada a alívio de estresse tem sido fundamentais para a sobrevivência. 

  

O barulho das primeiras horas

O plano era acordar quase tão cedo quanto ontem para ter as ruas, novamente, só para mim.

Não deu. Hoje foi daquelas manhãs em que sair da cama é tarefa praticamente impossível. Desde as 5, uma batalha entre o despertador e eu começou a se travar. No começo, foi leve, quase imperceptível; mas quando as pálpebras firmaram posição do lado dele, tudo ficou mais tenso. Desisti às 7, exausto do processo de aguardar que ele soasse para apertar o botão de snooze.

Às 7, no entanto, minha mulher levantou. Era dia dela levar a nossa filha para a escola e, como já havia um certo atraso no ar, tudo precisava ser feito às pressas.

E a pressa, claro, nunca é silenciosa. Passos apressados cruzavam o corredor, interrompidos apenas pelo som de louças se arranjando na mesa. Mais passos e vozes se encontrando no quarto ao lado. Debates breves sobre a roupa e sobre bonecas que minha filha queria levar para a escola. Leite sendo demandado; meias sendo procuradas; frases pedindo mais pressa se esbarrando em uma barreira de preguiça infantil aumentando os sons.

No quarto ao lado, em que eu ainda tentava (ingenuamente) dormir, o ar condicionado decidiu entrar em um modo esquisito de ligar e desligar a cada 5 minutos, adicionando assim barulhos rítmicos que tornavam a retomada do sono ainda mais impossível.

“Devia ter saído para correr”, pensava incessantemente. Pensar, no entanto, nunca foi sinônimo de agir.

De repente, de um minuto para outro, uma série de “tchaus” trouxe consigo o silêncio.

Estava só em casa.

Mas já era 8:30 e o despertador tocou novamente, desta vez me mandando trabalhar.

Levantei, exausto pela intensidade das batalhas e barulhos da manhã, com a cabeça latejando de dor e com muitas saudades do dia de ontem, quando madrugar para correr no parque foi algo tão simples e perfeito.

Quem sabe amanhã? O despertador, afinal, já está programado.

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