Aumentando os longões na companhia de nobres espíritos

Em algum momento, afinal, chegaria o dia em que o volume de treino subiria para o compatível com a meta de 140K.

Bom… chegou. E, enquanto eu nutria algum receio quanto a treinos superiores a 4 horas, acabei esquecendo de como esse tempo todo sozinho com os passos faz bem.

E como fez. Primeiro, pela companhia: enquanto seguia rumo à USP e circundava seu percurso, os últimos capítulos do audiolivro Um Conto de Duas Cidades, de Dickens, me mantinham ocupado entre a tensão da Consiergerie e a exclamação da guilhotina revolucionária. 

Ele acabou, no entanto, antes da corrida. 

Fiquei um tempo sorvendo o final enquanto cruzava a ponte até o meu segundo destino, o Parque Villa-Lobos. A São Paulo daquelas bandas é outra cidade: arborizada, esportizada, despoluída nos mais diversos aspectos. Mas, entre passadas e pequenas rajadas de vento que pareciam acordar as folhas, senti vontade de alguma nova história. 

Histórias viciam; o tempo proporcionado pelos longos treinamentos de ultra são a agulha perfeita.

Parei e olhei o iPhone: havia um audiolivro baixado e ainda intacto, agoniado para começar a soprar suas palavras ouvido adentro. Era a hora perfeita.

Meia dúzia de cliques depois e estava saindo do parque e subindo a Cerro Corá ouvindo o Grande Gatsby. Outro tempo, outro continente, outra dimensão – mas o mesmo efeito de me surrupiar o pensamento para muito além de qualquer mero percurso.

E assim – com apenas uma ou outra parada para foto de paisagens urbanamente exuberantes, fiz meu caminho pela Heitor Penteado, Paulista, descendo a Brigadeiro, cruzando a Lorena e subindo de volta a Bela Cintra.

O relógio exibia 10:30 da manhã quando terminei os quase 40km rodados. Estava levemente cansado, claro – mas ainda imerso nos universos da Paris revolucionária e Nova York do seu primeiro surto desenvolvimentista. 

Era hora de pausar as histórias.

De respirar.

De olhar em volta.

De começar o dia.

Salve a tecnologia!

Os puristas que me perdoem, mas correr é muito, muito mais intenso por conta da tecnologia.

E não digo isso por conta de Garmins ou Stravas – embora eles também tenham seus imensos méritos. Digo isso por conta dos iPhones, iPods, Androids e demais devices sonoros.

Uma coisa é sair de casa às 5:30 da manhã em pleno inverno, atravessando a cidade escura e solitária sem saber sequer se o céu trará raios de sol ou gostas de chuva nos próximos minutos; outra é rodar por mundos paralelos enquanto se corre.

Se é para passar horas na rua, afinal, que se permita à mente viagens maiores do que o horizonte visível. No meu caso, isso significa plugar algum audiobook e percorrer o Ibira ouvindo histórias de lugares distantes, lendas das selvas africanas, relatos de velhas guerras buscando novos futuros. 

Nesses últimos dias, isso tem significado ouvir V. S. Naipaul, um indo-caribenho que, dentre outras pérolas, presenteou o mundo com A Curva no Rio, uma história passada entre a selvageria do interior da África e o ideal de civilização em alguma capital local logo após as guerras por independência travadas em todo o continente. Não vou entrar no mérito da história aqui, claro – mas o fato de poder atravessar oceanos e décadas e ficar imerso em um universo tão à parte é simplesmente fenomenal.

Salve os Deuses da literatura, da tecnologia, da inovação. E salve, claro, esse que é o mais solitário, mais simples e, ao mesmo tempo, mais inspirador dos esportes: a corrida.