Vida de soldado

A adrenalina de um dia de pico na selva publicitária de São Paulo, onde vivo, fica um tempo percorrendo artérias e veias. Impede que se relaxe, impõe ao instinto de sobrevivência uma capacidade de concentração multitarefa, exige onipresença e, aos poucos, mói os sentidos.

Não vou dizer que não goste desse estilo de vida: trilhar os meandros de um mercado tenso e ultracompetitivo é um desafio cotidiano perfeito para qualquer um que sinta prazer, por exemplo, correndo ultras.

Mas, assim como em ultras, há momentos em que picos se alternam com vales, em que a adrenalina de se ter conseguido vencer algum obstáculo inesperado com um golpe de pensamento e uma supersincronizada agilidade tática cede ao cansaço.

Depois de nem sei quantas horas coordenando uma verdadeira guerra em fronts paralelos, cheguei em casa depois de todos terem dormido.

Comi em silêncio, acalmando a memória recente. Não me preparei para o dia de hoje – era tempo de encerrar o ontem. Apenas.

Troquei de roupa.

Deitei cuidadosamente, mais silencioso que o tédio.

De imediato, fiquei imóvel esperando o sono que não queria vir. 

Acabou vindo.

Aos poucos.

Mas de forma decisiva.

Pelo menos até o próximo soar do despertador, às 5:15 da manhã – apenas poucas horas depois das pálpebras terem fechado.

Sem problemas: era hora da corrida. 

E há melhor maneira de se preparar para qualquer coisa do que acordar antes mesmo do sol, quando toda a cidade ainda dorme, e testemunhar, sob suor e passadas, uma cena dessas?

  
Decididamente não.

Poucas coisas nos preparam melhor para uma batalha do que uma boa dose de suor e endorfina antes dos primeiros tiros. 

Que venha o dia.

Vendo

É fim de tarde e o avião decola de Joinville, Santa Catarina. 

Pela janela, toda uma paisagem de morros verdes iluminados por aqueles últimos raios de sol do dia, meio amarelo-avermelhados, se abre. Só uma coisa passa pela minha cabeça no mesmo instante em que as preocupações do cotidiano evaporam: “deve haver uma infinidade de trilhas ali por baixo”. 

Tento espremer os olhos e olhar com mais atenção, mas apenas uma ou outra veia ocre, mais para estrada de terra do que para trilha, pode ser vista a distância. Ainda assim, dá para imaginar cada passo dado cortando as montanhas, cada visual colecionado pelas córneas, cada gota de endorfina pulsando pelas veias. 

O mundo fica melhor quando sabemos aproveitá-lo. 

Se vivemos em uma grande cidade como São Paulo, explorar parques e vias em busca de qualquer que seja o desejo é algo relativamente fácil. Basta pegar alguma programação cultural pronta na Internet, entrar em um taxi ou metrô e aproveitar o que a cidade deixou mastigado para você. E acredite: as grandes cidades costumam deixar muita coisa mastigada para quem quiser aproveitá-las, de opções turístas a esportivas, de ofertas culturais a ambientes perfeitos para se curtir o mais autêntico ócio. Cidades grandes pensam pelos seus habitantes. 

É diferente de pequenos povoados, de trechos de terra abandonados, de praias escondidas ou montanhas isoladas. Antes de me apaixonar pelas trilhas, eu costumava enxergar cada pedaço inexplorado do mundo como um grande e entediante “nada”. 

Isso mudou. 

Dificilmente deixo de enxergar ao menos alguma opção de qualquer coisa quando olho, hoje, o que antes entendia como “nada”. Na verdade, parece que o vazio que existia foi magicamente preenchido por um “tudo”, por veias de natureza praticamente implorando algum tipo de desbravamento. Dá até uma certa dó ver as montanhas do alto de um avião sem poder descer para explorar cada milímetro selvagem que elas proporcionariam.

Não que eu queira trocar a vida de uma cidade grande por um estilo mais interiorano: sempre fui apaixonado por grandes metrópoles e o mar de opções proporcionado pelas suas selvas de concreto, na minha opinião, abre mais horizontes que qualquer paraíso intocável. Afinal, se viemos ao mundo para aproveitá-lo em sua completude, quanto mais opções melhor. 

Mas há um quê de preenchimento, de percepção de mundo, que nasceu das minhas primeiras corridas nas trilhas. É como se o mundo tivesse subitamente ficado mais rico.

Há menos nada e mais emoção, menos vazio e mais adrenalina, menos tédio e mais opções em cada canto de terra esparramado na frente dos olhos. 

Há mais vida a ser sorvida pelos olhos. 

Correr é definitivamente o melhor óculos que se pode conseguir.