Abundantemente só

Verdade seja dita, hoje era dia de descanso. Mas como conseguir? Como evitar que o corpo se erguesse sozinho para aproveitar a paisagem exuberante que descansava logo ali, 10 metros depois da janela? Saí.

E, desta vez, fui pela praia. Pela esquerda, rumo ao rio menor, em um naco mais deserto do litoral.

Não fosse a beleza estonteante do lugar, eu poderia até achar que estava correndo em uma esteira: o cenário era tão deserto, mas tão deserto, que a sensação de solidão se mesclava ao seu exato oposto: à de abundância. Tudo era gigante: o mar infinito se estendendo pelo horizonte à direita, a areia dura que se perdia pela frente e atrás, as dunas pontuadas por um ou outro cactus do lado esquerdo, o céu cintilantemente azul ardendo as costas nuas.

FullSizeRender

Segui assim por pouco mais de 8 quilômetros até chegar à beira do pequeno rio. À minha frente, torres eólicas se alinhavam como que apontando para pequenas casas de pescadores nas margens, enfeitadas apenas por cores desbotadas e barcos cearenses típicos.

IMG_0279

Voltei.

Mesma abundância na volta, por todo o caminho. Na metade, parei ainda para subir uma duna que se estendia quebrando a horizontalidade do litoral. Suas areias deixavam crescer um pouco de mato rasteiro – o suficiente apenas para chamar a atenção. Do outro lado, um riacho fadado à morte serpenteava até lugar nenhum, sendo invadido pela areia fina de grão em grão.

IMG_0281

IMG_0283

IMG_0284

IMG_0282

Mais para o horizonte, o cenário parecia outro: cactus se alinhavam dando um toque texano ao local e atordoando um pouco a mente. Parei, fotografei, gravei a cena na memória.

FullSizeRender 2

Estava já quente, embora o relógio ainda não tivesse sequer chegado às 7:30 da manhã.

Percebi que dunas e cactus foram cedendo espaço a pequenas falésias cavadas, provavelmente, por insistência das marés altas. Árvores secas pendiam de cima, algumas derrubadas, mostrando todo o poder de se ser persistente mesmo diante de toda a vagarosidade do mundo.

Entrei por uma fenda nas falésias, fazendo o caminho de volta por dentro. Segui, agora ardendo sob o sol nordestino, até a pequena vila, onde dei uma volta na igreja matriz antes de retornar ao hotel. Tudo estava como ontem: calmo, parado, com ares de um eterno domingo.

Perfeito para começar uma quarta.

IMG_0286

Pelo lado de dentro

Não consegui “descansar” ontem: já pela manhã troquei o day-off por 10K entre a vila e a praia, desbravando territórios e paisagens novos. Difícil convencer a mente de ficar quieta, desistindo de comandar as pernas, quando se está em cenário tão convidativo.

Mas queria variar um pouco, deixar as trilhas de areia fofa para trás nem que fosse por um punhado de tempo. Há mais para se ver no Nordeste do que areia e mar, afinal.

Hoje cedo, com 15K de meta, tomei o rumo da vila de Fortim. Peguei a pequena estrada de areia que saía do hotel e fui até o asfalto por uma reta só. Era cedo, antes das 6:30, e tudo parecia uma espécie de versão diurna, clara, da mais densa noite. Nenhuma alma atravessava o caminho e o silêncio era cortado apenas pelo assobio do vento e chacoalhar das árvores.

Na primeira vila, uma igrejinha antiga imobilizava o tempo. Sua pintura era tão caricaturalmente gasta que, somada às casinhas pobres no entorno e aos distantes latidos de vira-latas, desenhava um cenário absolutamente sertanejo.

FullSizeRender

Atravessei e segui em frente, pelo asfalto. Ainda era cedo mas, mais longe do litoral e da brisa, o calor começava a apertar. No caminho, campos abertos pontilhados apenas por árvores mais resistentes à aridez desenhavam o horizonte. Uma ou outra cedia suas preciosas sombras para casebres pobres, com as portas entreabertas deixando à mostra uma escuridão úmida com ares de eternidade.

IMG_0275

Mais adiante, os primeiros sinais da vila de Fortim apareciam em forma de menos campados e mais casas – todas, no entanto, no mesmo estilo centenário, como que inspiradas em uma arquitetura portuguesa que qualquer um ali dificilmente conhecia. As casas, a vila, as pequenas praças e as igrejas pareciam ter sido plantadas naquele cenário há tanto tempo quanto o próprio mundo.

Depois de uma praça com um busto dourado de alguém que deve ter enriquecido a partir da miséria alheia – único motivo pelo qual monumentos são erguidos no interior nordestino – um velho mirante se prostrava, igualmente abandonado. Fui até lá: a vista era de tirar o fôlego.

Dois banquinhos sentavam sob a sombra de árvores frondosas, olhando atentamente ao Rio Jaguaribe que, lá longe, cortava dunas de areia branca e desembocava no mar azul. Impressionante.

IMG_0274 IMG_0273Não sentei nos banquinhos, mas fiquei ali, parado, quase que me eternizando na paisagem.

Depois saí.

Uma velha sertaneja varria sua calçada, tirando a mesma areia que, minutos depois, certamente voltaria carregada pelo vento. Bares já começavam a abrir, juntamente com mercadinhos e portas que entregavam à vila crianças em busca de diversão.

IMG_0272

Era uma terça-feira qualquer perdida no final de julho: quente, úmida, com ares de cotidiano naqueles interiores. A vida, de uma vagarosidade impressionante, começava a andar enquanto eu corria de volta para o hotel.

Estava na hora de entrar no ritmo da metrópole ditado pela Internet e pela interminável lista de tarefas que incluíam apresentações, conference calls via Skype, pilhas de emails e Whatsapps para dar conta.

A aceleração do dia-a-dia paulistano parecia, àquela altura, impressionantemente distante da realidade – mas já me chamava em alto e bom som.

O dia que faz tudo valer a pena

Às vezes, quando viramos uma esquina no meio de uma trilha ou erguemos a cabeça, nos deparamos com paisagens que dificilmente sairão da retina. São essas vezes, infelizmente menos comuns do que se costuma sonhar, que fazem corridas em locais pouco cotidianos valerem a pena.

Ontem foi um desses dias.

Acordei sozinho, sem despertador, por volta das 5:30 da manhã – e já saí do quarto bêbado com o cenário. Uma praia que beirava o infinito se estendia em minha frente, pontilhada apenas por jangadas cearenses espalhadas pelo areal e, lá no fundo, atrás de falésias vermelhas, um conjunto de torres eólicas.

Corri pela praia, que ostentava uma maré baixíssima que fazia o chão parecer um espelho ocre ilustrando o céu inatacavelmente azul. Fui por uns 6, 7km até chegar no Rio Jaguaribe e segui margeando-o. O cenário cedeu, ficando mais parecido com um mangue, e barcos ainda adormecidos pareciam ansiosos para carregar turistas para a outra margem, onde ficava Canoa Quebrada.

Ainda assim, segui até onde consegui: parei apenas quando um cachorro furioso decidiu avançar sobre mim, me fazendo entrar com tudo no rio, o que certamente gerou uma carga de adrenalina eletrizante. Continuei um pouco dentro do rio até sair do seu alcance e voltei para a areia. Estava na hora de mudar de rota.

Entrei à esquerda por uma ladeira invadindo um pequeno povoado, daqueles que mistura pobreza com o ar bucólico que apenas o nordeste guarda. Passei por uma igrejinha típica, de uma vila típica, com pessoas típicas varrendo o chão. Tudo era tão típico que parecia até cenário de novela. Não era.

Fui mais algum trecho por ela até decidir tomar uma trilha de areia fofa que parecia margear o oceano. Sob o calor já escaldante, aquele momento pertencia ao suor e ao ácido láctico que cismava em reclamar.

Pelo menos até que os arbustos subitamente ficaram menores e o horizonte inteiro se abriu.

Se abriu não: se impôs em forma de susto visual, roubando cada gota de concentração para si. Estava rodeado por campos secos, dunas, mar e céu azul, todos pontilhados apenas por um farol distante e grandes pedras vermelhas como o fogo. A paisagem era tão incrível que foi difícil até mesmo entendê-la: entre passos, ficava olhando atentamente a tudo e tentando gravar na memória cada átomo de pura beleza.

Tirei fotos, parei, respirei fundo. Corri de um lado para outro, tentando alcançar vistas mais belas como se fosse possível. E pior: era. A cada morro, uma nova cena se abria, intensa, forte.

Fiquei até aqueles segundos antes do cansaço.

A volta, já pela praia, poderia ter sido pelo asfalto de alguma periferia qualquer: estava com tudo aquilo tão gravado na memória que nada mais, nem o calor ou o sol, nem o mar, nem o cansaço e nem mesmo a perspectiva de repetir o percurso inteiro faria qualquer diferença. Minha retina estava irremediavelmente manchada pela beleza.

Foi uma das corridas mais incríveis da minha vida.

   
    
    
    
 

Buscando a paisagem “errada”?

Esse será o cenário para a semana que vem inteira:

  
Perfeito, não? Praia calma, águas refrescantes e aquele clima zen que só o nordeste consegue entregar ao país.

É nessas horas que descobrimos o quanto corredores devem mesmo ter problemas. 

Usei o Google Street View na região que estarei, no litoral cearense, e eis o que apareceu: 

  
É mais ou menos em ruas de terra assim, castigadas pelo sol inclemente e beirando paisagens que se situam entre a miséria e o bucólico, que correrei nos próximos dias. 

Curiosamente, estou muito mais empolgado com esse novo território para correr do que com qualquer praia. 

Vai entender…

Reencontrando a corrida

Tirei quase toda a semana para descansar: não corri segunda, terça, quarta ou quinta. Em todos esses dias, acordei com uma espécie de fadiga acumulada que nunca havia sentido antes. 

Coxas doíam, pés reclamavam, pálpebras insistiam em permanecer fechadas nas primeiras horas da manhã e a motivação simplesmente não se fazia presente. Entendi o recado: estava na hora de descansar mesmo. 

E descansei, sem estresse ou ansiedade, sem agonia, sem pressão, sem nada. Até hoje. 

Estou na minha “peregrinação anual” para Paraty por conta da Flip, evento que minha empresa participa já por 5 anos consecutivos. E Paraty…. bom… digamos que Paraty não seja exatamente o Ibirapuera. 

Encravada no meio da belíssima Rio-Santos, essa cidade colonial é um convite para qualquer um que curta a natureza se esbalde em todas as suas ofertas. E, assim, entendi a viagem como uma espécie de instrução para que eu acordasse mais cedo, calçasse o tênis e saísse. 

Saí antes do sol nascer, ainda com tudo escuro, cambaleando pelas ruas de pedras incertas até o asfalto. Não minto: as dores permaneciam da mesma maneira que estavam antes e minha mente já começava a cortar o plano original e me mandar voltar para casa antes dos 10km. Deixei ela de lado e segui, tomando a direita na estrada. Os passos cansados estavam lentos, pesados, tão escuros quanto a madrugada que insistia em desafiar as horas e permanecer por ali pelo céu. 

Até que, em uma curva que deixava à mostra a cidade de Paraty de um lado e as montanhas de outro, raios vermelhos decidiram romper a noite e decretar um novo momento. 

  
Naquele instante, como que a passe de mágica, todo o cansaço desapareceu, as dores evaporaram e a vontade insana de correr, que aparentemente estava de férias, voltou. 

Mudei o plano: ao invés de voltar para casa, tomaria a trilha pela montanha em frente à cidade, no trecho final da Estrada Real. 

Recuperei do fundo do cérebro o caminho até a trilha e, depois de me perder umas duas ou três vezes, me encontrei. E subi. 

Fui cortando a mata úmida, aparentemente abandonada faz tempo, aproveitando cada milímetro da montanha como se fosse um presente divino. Brinquei com o pace, acelerando em alguns trechos mais do que o bom senso aconselharia. Ali não era lugar para bom senso. 

Em um determinado ponto, me deparei com uma plataforma feita para se observar pássaros. Subi pela escada, tirei uma foto e desci de volta: não era ali que queria chegar. Vasculhei a mata mais um pouco e achei a trilha certa, seguindo adiante. 

  
Nem demorei muito: logo em frente encontrei uma pedra grande com algun degraus podres levando ao cume. 

Subi. 

E, de lá do topo da montanha, respirei fundo com pulmões e olhos. 

Correr era precisamente aquilo: fugir do lugar-comum, do cotidiano, da cidade, das tarefas. Era sair caçando uma trilha velha por uma montanha abandonada sem a certeza de onde chegar. E era, sobretudo, chegar a uma vista absolutamente maravilhosa, de uma beleza tamanha que dá até uma certa culpa por não ser compartilhada com mais ninguém. 

Fiquei alguns instantes ali, apenas olhando, e dei meia volta. 

No retorno, claro, fiz questão de correr a todo vapor pelas descidas íngremes da encosta. Se a paixão havia sido recuperada no caminho até o cume, a rota para a base seria feita à base de diversão. 

Perfeito para encerrar a corrida. E mais perfeito ainda para começar o dia: ainda era, afinal, 8:30 da manhã.

   
   

Correndo na patagônia

Embora geograficamente correto, não sei se, na prática, Villa La Angostura (logo ao lado de Bariloche) pode mesmo ser considerado Patagônia. Ao menos não a Patagônia que costuma perambular pelo nosso imaginário, repleta de fiordes e icebergs.

Ainda assim, corri lá no final do ano passado e devo dizer que foi o local mais incrível, com algumas das trilhas mais embasbacantes, que meus olhos e pés já passaram.

Vi esse vídeo da K42 recentemente no Youtube e deu muita vontade de fazê-lo. Poderia ser maior, claro: uma maratona é curta demais para tanta beleza. Mas que deve valer cada segundo, isso deve.

Longão carioca inesquecível

A primeira coisa que fiz quando me liguei que, em dois dias, estaria indo pro Rio, foi mandar uma mensagem para o Rodrigo Richard, um dos brasileiros que participará do Unogwaja Challenge esse ano, e perguntar o que ele aconselhava de treino no Rio fora da óbvia orla.

Ele fez melhor: junto com a Nadja, sua esposa (e que correu parte da Comrades do ano passado ao meu lado) e de um grupo de amigos, me levou para um longão alucinante pela Floresta da Tijuca. E é tão difícil descrever em palavras as belezas dessa cidade incrível que decidi apenas colocar, nesse post, alguns highlights e muitas fotos.

Primeiro, fui correndo do Leblon até o Jardim Botânico, onde me encontrei com eles na Padaria Pacheco Leão. 3km leves para aquecer.

De lá subimos por 6km até a Vista Chinesa – um local que, como o próprio nome sugere, faz o Rio inteiro se abrir para os olhos. De lá, mais alguns poucos kms de subida até a Mesa do Imperador, onde D. Pedro II fazia picnics com sua família lá em outras eras de nossa história.

Incrível. E isso sem contar o que ainda estava por vir.

Descemos um pouco e tomamos outro rumo, até a Pedra Bonita, onde os saltoa de asa delta são feitos. Primeiro, subimos até uma pedra por uma trilha de cerca de 2km, bebendo uma vista que se desacortinou diante de nossos olhos em tempo real (pois quando chegamos tudo estava coberto pela neblina).

Depois, descemos a trilha e subimos a estrada até a rampa, onde os pássaros humanos (de asa delta e paraglider) saltavam sem parar. Passamos um tempo ali apenas curtindo a vista e a adrenalina alheia – até que chegou a hora de descer.

E descemos tudo de volta. E subimos até a Mesa. E subimos até a Vista Chinesa.

De lá, tomamos um rumo diferente: abandonamos a estrada e tomamos uma trilha de cerca de 2km até os arredores do Jardim Botânico. Trilha light, super bem vinda e que deu o acabamento perfeito.

Já na rua, chegamos de volta à Padaria e demos o dia por encerrado.

No total, foram 27,5km com um ganho de elevação de 1,5 mil metros! Sensacional.

Estou em débito com o Rodrigo e a Nadja por ter me guiado! Espero que eles baixem em Sampa para que eu possa retribuir :-)

Embora, verdade seja dita, dificilmente conseguirei arrumar um percurso incrível desse para un treinasso como fizemos!

Percurso abaixo (clique para ver detalhes):

Screen Shot 2015-03-14 at 5.58.41 PM