Treinamento tridimensional

É impressionante como a preparação para uma ultra é tridimensional.

Há a dimensão óbvia: o corpo. Planilhas, atenção à forma, cuidado com as pequenas dores que, vez por outra, teimam em querer crescer, volume, intensidade.

Há também a dimensão nutricional: dificilmente se consegue sequer sobreviver a um treinamento mais pesado sem saber comer. No meu caso, isso incluiu até abandonar os carboidratos e adotar, de peito, alma e estômago, uma alimentação low-carb. Funcionou. Virou um estilo de vida do qual não consigo mais me afastar.

Mas essas duas dimensões, embora importantíssimas, nem de longe garantem o mais importante: a paixão em si pelo esporte.

É aí que entra a terceira dimensão: a espiritual.

O que ela considera? A criação peculiar de um universo paralelo, isento de responsabilidades com tempo ou espaço, para que se consiga mergulhar de cabeça em um determinado percurso.

Quando primeiro pensei em fazer o Caminhos de Rosa, fui alertado por muitos de que as duas maiores dificuldades seriam o calor e o tédio, principalmente considerando que o percurso inclui maratonas inteiras corridas sem contato com cidades ou povoados. A solução? Ora… se o caminho inteiro é inspirado nas obras do Guimarães Rosa, bastava mergulhar no universo já criado pelo mestre.

Estou lendo tudo, absolutamente tudo o que ele escreveu. Tédio? O percurso já está tomando ares absolutamente inspiradores, apaixonantes, até enigmáticos. Já dá para correr imaginando o bando de Riobaldo guerreando com os hermógenes, Manuelzão tocando uma boiada, Miguilim chorando a morte do Dito.

Já dá para amar o sertão mineiro antes mesmo de pisar nele.

Tem sido um treinamento com os olhos – e um dos mais gostosos de todos os que já fiz.

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Ultra é mais espírito do que esporte

Na semana passada, vi uma foto de um amigo meu no Facebook comemorando uma travessia aquática.

Dei os meus entusiasmados parabéns e ele comentou comigo que estava treinando para a travessia Mar Grande-Salvador. Me entusiasmei.

Explico melhor: a travessia marítima Salvador-Mar Grande é o que há de mais antigo em minha memória sobre endurance. Trata-se de atravessar 13km da Baía de Todos os Santos, saindo de um ponto da Ilha de Itaparica e chegando em outro na capital baiana.

Quando criança, considerava todos os nadadores como heróis e loucos – ou loucos e heróis, para colocar na ordem correta.

O tempo, no entanto, foi me afastando da prova. Me mudei para São Paulo.

Comecei a correr.

Me apaixonei pelas ruas e trilhas e me entreguei por completo a esse esporte.

Até essa bendita foto no Facebook.

Em um intervalo de segundos, anos de infância apareceram como um susto entusiasmado que, somados à experiência em provas longas, desenharam um gosto de viabilidade que nunca tive antes.

Ainda estou cozinhando esse sonho – mas já o considero como uma das minhas metas futuras, embora tenha mais a ver com ultra do que com maratona.

Mas, do ponto de vista espiritual, há mesmo tanta diferença entre atravessar uma montanha ou uma baía? Em todos os casos, são horas revirando a própria alma e puxando energia do peito para se encontrar, se abraçar, se entender. Muda-se apenas o elemento, a solidez do solo, a escolha dos membros.

Mas, fora isso, é a mesma coisa: uma meta de autosuperação.

Ultra é mais espírito do que esporte.

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Ode ao Cantareira

Terceira maratona do mês concluída.

O corpo está moído de cansaço acumulado e agradecido pela planilha indicar uma semana de descanso no horizonte. Mas uma coisa é fato: dificilmente eu poderia ter escolhido local melhor para correr do que esse conjunto de Horto com Cantareira.

E mais: no Cantareira, deu ainda para partir do Núcleo Pedra Grande e chegar ao Núcleo Águas Claras aproveitando trilhas daquelas perfeitas se abrindo no caminho!

Há como falar mais? Não sei. Mas há como mostrar:

Sábado na USP

Quem não é de São Paulo provavelmente terá dificuldades em entender o que significa a USP para corredores. 

Sempre fui apaixonado por esta cidade mas, verdade seja dita, encontrar uma natureza pardisíaca para se correr aqui não é tarefa fácil. Sim: há o Pico do Jaraguá e o Cantereira – mas eles são distantes, fora de mão quando se busca um treino mais fácil. 

Há o Ibirapuera, sem dúvidas – mas este acaba sendo cotidiano demais quando se pega o hábito de corrê-lo em 3 dias úteis por semana. Há a cidade em si? Claro: cruzar o centro velho é sempre um prazer para mim – mas às vezes queremos aquele tipo de paz que apenas passos cruzando o verde proporciona. 

É aí que entra a USP. 

Aos sábados, ela costuma ficar tomada de corredores e ciclistas como se fosse uma prova de rua, com todos querendo aproveitar o seu espaço verde, bem cuidado e quase vazio de vida urbana. Seu entorno abre diversos percursos: três grandes e um com uma pequena trilha fechada que nos dá a sensação de ter entrado no meio de uma floresta virgem. 

Em dias chuvosos, então, tudo fica ainda melhor. Além de respirar esporte como em todo sábado, o movimento fica suavemente mais leve e se consegue cruzar seus bosques e ladeiras sentindo na pele a umidade fria da capital paulista, clima responsável, em última instância, para que a cidade tivesse sido fundada aqui. 

Tinha uma maratona para rodar no sábado passado e fui para lá. Além do caminho de e para casa, foram necessárias 3 voltas. Alternei o percurso nelas e, por todo o tempo, corri com o fone desligado apenas escutando a mata. Ali, no meio da cidade, dava para ouvir apenas sons de pássaros, plantas chacoalhando ao vento e eventuais passadas de corredores. 

Dava para sentir o cheiro da umidade, para sentir o clima provocar uma mescla de suor com frio arrepiando os braços.

Dava para estufar o pulmão e deixar nas ruas todo o estresse que cisma em grudar em nossos peitos em tempos difíceis. 

Dava para correr com uma leveza bem próxima à perfeição.

Não vou à USP com tanta frequência assim: na maior parte das vezes acabo cavando percursos inéditos ou cantos mais isolados da cidadade. Tudo depende sempre do estado de espírito no sábado pela manhã. 

É sempre bom, no entanto, saber que ela estará lá, à espera, sempre que precisar. E que imagens como essas abaixo, que instagramei no meio do treino, estarão sempre ao alcance.

 

Tenho andado sumido

É, tenho. Há motivos – sempre há.

Correr, nessas últimas semanas, se transformou em uma espécie de momento religioso para mim, algo quase catártico dado o momento de vida.

Tudo está acontecendo. Toco duas empresas no cotidiano – uma agência de comunicação e uma editora online. Não tenho do que reclamar de nenhuma delas mas, como para todo empresário brasileiro, atravessar esse mar de incertezas gerado pela crise política, social e moral brasileira, tem demandado uma energia colossal. A cada instante, planos novos, projetos súbitos brotam da ansiedade de tentar deduzir se ainda teremos um país para trabalhar na semana seguinte. Incerteza é o pior dos inimigos da calma.

Some-se a isso o fato de eu estar finalizando uma obra para me mudar de apartamento no final do mês. Mais malabarismos.

Talvez soe como uma espécie de auto-tortura considerar que estou ainda beirando a fase de pico para o Caminhos de Rosa, rodando 100, 110km semanais. Mas não é.

É o oposto.

Em uma daquelas metáforas piegas de tão óbvias, pode ser que esteja mesmo é correndo dos problemas. Pode ser – mas o fato de sempre retornar a eles ao cabo de algumas horas com a cabeça mais fresca e o peito mais oxigenado não deixa de ser um bom sinal.

Essas 11 horas que passo entre ruas e trilhas são responsáveis, em verdade, pelas outras 157 horas divididas entre muito trabalho e pouquíssimo sono.

A acidez das mudanças é tamanha, no entanto, que sobra pouco espaço para uma descompressão mais suave, feita de palavras sendo marteladas aqui no blog. É desligar o relógio e pronto: sou imediatamente catapultado para dentro do celular, nova casa de todos os problemas que carecem de soluções imediatas.

Mal subo o elevador e, ainda suado, estou já imerso no trabalho.

Sim, ando sumido – e isso não está me fazendo bem. Espero que alguma normalidade volte a aparecer por essas bandas: definitivamente não é normal sentir, já em junho, aquele cansaço mental típico de dezembro.

O ano precisa correr mais rápido que nós.

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Cantareira

Fazia tempo – muito tempo – que eu planejava desbravar o Parque da Cantareira. 

Nas duas tentativas anteriores dei de cara com o portão fechado: o parque abre para o público apenas quando as condições meteorológicas indicam possibilidade nula de chuva. E, com isso, a soma da distância da minha casa com o imprevisível do tempo foi deixando o parque lá no fundo da mente, como uma espécie de meta de treino a ser cumprida um dia. 

O dia foi hoje. 

Tinha uma maratona planejada para o treino, o que, por si só, já abria espaço para uma corrida até o final da Zona Norte. Chequei a meteorologia: nada de sol a pino, infelizmente – mas nada de chuva também. 

Segui. Na pior das hipóteses, imaginei, rodaria pelo Horto. 

Não foi necessário: às 8:15, quando cheguei na entrada do Núcleo Pedra Grande, a bilheteria estava aberta e algumas pessoas já perambulavam por lá. 

Entrei. 

Desliguei o podcast. 

Respirei o ar da Cantareira e me concentrei em tudo o que estava ao redor: pássaros, macacos, o cheiro da mata virgem, o ar limpo como São Paulo sonha em ter. 

Tomei o rumo da Pedra Grande. Confesso que não gostei do caminho até lá ser por asfalto, muito embora em (perfeitas) más condições e serpenteando por um caminho que mais parecia ter sido retirado do paraíso. 


Não marquei a quilometragem até lá: estava tão entusiasmado com a beleza do local que esqueci desse detalhe. Detalhe mesmo, reforço: há algumas corridas tão em sintonia com tudo o que existe que qualquer tentativa de marcação ou controle mais parece ingenuidade. 

Sejam lá quantos quilômetros tiverem sido, em algum tempo cheguei a uma clareira. Olhei: era a Pedra Grande. Subi. 

Mal acreditei: em minha frente, um paredão de floresta virgem parecia abraçar a maior metrópole da América do Sul, apequenando-a, emoldurando-a como se fosse apenas um ponto cinza no mar verde. Uma outra perspectiva da cidade se desenhou em minha mente: nada de uma São Paulo disforme, gigante, metendo medo na natureza com seu poderio industrializador: de lá do alto da Cantareira, a cidade parecia tímida, como que encolhida no pouco espaço que a natureza permitiu à civilização. Difícil até de imaginar essas palavras – talvez sejam do tipo que só vendo para crer. 


Passei alguns minutos ali, tentando registrar em fotos aquela beleza poderosa. Falhei. Nem os filtros do Instagram fizeram as imagens chegar aos pés da realidade. 

Segui em frente na corrida, dando a volta na Pedra e voltando. No caminho, entrei pelas trilhas que apareciam: do Bugio, das Figueiras, da Bica. Todas pequenas, de 1 a 1,5km – mas todas permitindo uma incursão mata adentro por single tracks perfeitos. Daria para passar horas ali apenas vendo, ouvindo, sentindo. 


Bebendo das bicas pelo caminho com aquela água clara, gelada, deliciosa. Voando trilhas abaixo, naquele tipo de brincadeira de velocidade que sempre termina com um sorriso involuntário no rosto do corredor. 

Daria para ir e voltar pela estradinha incontáveis vezes. 

Só que era hora de voltar. 

O retorno, aliás, ajudou na perspectiva: me imaginei entrando naquela minúscula cidade que vi de lá da Pedra Grande. 

Minúscula de longe, imensa de dentro: cruzei a Zona Norte, atravessei a Marginal Tietê, voei pela Barra Funda, subi a Pacaembu. Ao meu redor, só gigantezas: as avenidas, os zunidos, os prédios, as casas. 

Em um dado ponto, olhei para trás: dava para ver apenas alguns morros distantes ao fundo – morros que pareciam tímidos de tão pequenos. Nada de paredão verde, de floresta, de mata atlântica: estava no inverso. 

Mas pelo menos já sabia que o que via não era, necessariamente, o retrato da realidade.